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G1

Desligar gene pode deter câncer no cérebro

Publicado em 04 setembro 2007

Pesquisadores da USP podem ter achado chave de tumor do sistema nervoso central.

Dificuldade agora é achar botão de 'desligado' que seja eficiente.

Pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP, na capital paulista, podem ter encontrado uma maneira de "desligar" a formação de um tipo extremamente agressivo de câncer do cérebro. Trata-se de um gene que fica hiperativo nesses tumores: quando sua ação é bloqueada, a multiplicação desenfreada das células malignas fica comprometida, ao menos em laboratório.

Os dados ainda preliminares, mas que trazem esperança de uma futura terapia, foram apresentados por Suely Kazue Nagahashi Marie, da USP, durante o 53. Congresso Brasileiro de Genética, que acontece até quarta (5) em Águas de Lindóia, interior paulista. O gene em questão, conhecido como MELK, foi encontrado pela pesquisadora e seus colegas com expressão (ativação) bem acima do normal numa série de pacientes com tumores cerebrais.

Marie e seus colegas já estudaram mais de 880 tumores diferentes do sistema nervoso central, como parte do Projeto Genoma Clínico do Câncer, apoiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Do universo estudado por eles, os piores cânceres provavelmente são os glioblastomas.

Embora vários dos pacientes da equipe estejam sendo acompanhados há quase uma década, os que têm a má sorte de ser afetados por glioblastomas morrem em menos de um ano. O grande problema desse tipo de tumor é seu potencial invasivo, explica a pesquisadora: ele toma conta rapidamente do tecido ao seu redor, deixando pouca chance de reação para o doente.

Numa abordagem já clássica nesse tipo de estudo, os pesquisadores se puseram a comparar a diferença entre a ativação de milhares de genes nos tecidos tumorais e nos tecidos saudáveis humanos. Foi aí que ficou aparente a relevância do MELK, um trecho de DNA que está ligado à proliferação das células e à chamada apoptose, ou morte celular programada. São duas características muito comuns de genes ligados ao câncer, já que as células cancerígenas têm as desagradáveis manias de se multiplicar de forma descontrolada e de não saber a hora de morrer.


Maligno

Ao olhar o gene mais de perto, a equipe da USP não se decepcionou. Sua expressão, para começar, estava correlacionada ao grau de malignidade: ou seja, quanto mais severo o tumor, mais hiperativo se mostrava o gene. Ele também se expressa com baixa freqüência em tecidos humanos saudáveis, o que é muito importante se a idéia é usá-lo como alvo para futuros remédios: afinal, diminui o risco de efeitos colaterais em órgãos que não têm a doença.

Usando linhagens de células derivadas dos tumores, os pesquisadores decidiram ver o que aconteceria se o MELK fosse silenciado. Para isso, eles usaram uma técnica conhecida como interferência de RNA, que não extirpa o gene, mas faz com que ele não faça o "meio de campo" com a célula, de forma que o código que o gene contém não comande a produção de proteínas. Dito e feito: nas células "silenciadas", a proliferação celular descontrolada caiu 90%.

O desafio agora é refinar a estratégia para que, no futuro, ela possa ajudar pacientes reais. Marie avalia que talvez a equipe decida continuar usando a interferência de RNA, talvez combinando-a com um ataque a outro gene ligado à formação de tumores. Um artigo científico descrevendo os últimos avanços da pesquisa deverá ser publicado em breve no periódico especializado "International Journal of Câncer".