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Desigualdade e pobreza devem ser temas centrais da agenda doméstica, aponta estudo inédito

Publicado em 09 abril 2009

Pesquisa foi realizada pelo Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais (Nupri) da Universidade de São Paulo e contou com o apoio da Fecomercio.

 

As elites latino-americanas apontam que a desigualdade e a pobreza devem ser os temas centrais da agenda doméstica e que os governos devem adotar medidas para resolvê-los. No entanto, existem algumas posições divergentes que refletem as polarizações e disputas no plano doméstico. Estas são as principais conclusões do estudo inédito “As visões das elites latino-americanas sobre a democracia e desigualdade”, desenvolvido pelo Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais (Nupri), da Universidade de São Paulo, e que teve o apoio da Fecomercio e financiamento da FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos) e da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

“O trabalho buscou compreender o quadro das transformações políticas, sociais e econômicas que tem ocorrido na América Latina e revela a visão das elites sobre o funcionamento das instituições políticas e o papel do governo. Além disso, aponta os fatores que criam obstáculos à consolidação da democracia, traz uma avaliação sobre as políticas voltadas para a superação das desigualdades e pobreza, como também a avaliação da integração regional e das relações externas na promoção do desenvolvimento entre os países”, explica Denilde Holzhacker, uma das pesquisadoras responsáveis pela pesquisa.

Foram ouvidos 829 integrantes das elites governamentais, partidárias, empresariais, sindicais, intelectuais e ligadas aos movimentos sociais na Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Venezuela e México. No Brasil, a pesquisa foi coordenada pelos Professores Doutores Rafael Villa, Elizabeth Balbachevsky, José Augusto Guilhon Albuquerque, Denilde Holzhacker e Sergio Gil. Também teve a participação professores e especialistas nos demais países.

De maneira geral, a pesquisa destaca que as elites mostram grande apreço aos valores democráticos, mas divergem quanto ao papel da democracia participativa e formal. No caso das elites brasileiras e chilenas, por exemplo, elas convergem suas atitudes e opiniões quanto à baixa prioridade à integração regional e ao desenvolvimento econômico. Quando analisadas sobre o papel do Estado na Economia, as elites brasileiras e mexicanas disseram ter visões intermediárias sobre o tema, apoiando em algumas situações e em outras, não.

Já as elites venezuelanas e bolivianas mostram maiores polarizações e percepções divergentes entre os diferentes setores, principalmente no que se refere à avaliação dos governos Hugo Chavez e Evo Morales. A análise mostra também que as elites venezuelanas são mais estatistas e nacionalizantes, sendo que as elites chilenas mostram-se mais liberalizantes e pouco favoráveis a atuação do Estado.

“A percepção das elites sobre a questão democrática na América Latina é da maior importância para o empresariado brasileiro já que, além de refletir conceitos e preconceitos deste próprio empresariado, serve para informar decisões que envolvem nosso entorno geopolítico. Afinal, a América Latina é destino de nossas exportações de maior valor agregado, assim como palco de nossos principais investimentos diretos no exterior”, afirma o economista Mário Marconini, presidente do Conselho de Relações Internacionais da Fecomercio.

Na visão de Marconini, a pesquisa demonstra resultados interessantes, inesperados e aparentemente contraditórios: sindicatos que não consideram o socialismo como o melhor regime político; setores industriais que são a favor do investimento direto estrangeiro; e elites que assumem sua parte da culpa pelo fracasso social dos países da América Latina. “Os números demonstram que estamos vivendo grandes transformações no nível de conscientização sobre o problema social e democrático no continente e na forma como a sociedade civil vê o mundo, sua região e seu país. Tais transformações parecem revelar sínteses inovadoras e alvissareiras, particularmente no caso do Brasil”, alerta.

Para Marconini, o fato de as elites majoritariamente considerarem a democracia uma condição necessária, mas insuficiente para uma inclusão social efetiva, demonstra que os países já estão questionando a qualidade da democracia do que simplesmente aceitá-la. “No Brasil e na América Latina, parecemos dizer que a democracia é o melhor dos regimes, porém falta muito para aprimorá-la. Creio que o maior problema está na distância entre as críticas e a efetiva participação das elites na construção de democracias mais responsáveis no continente”, ressalta o presidente do Conselho de Relações Internacionais da Fecomercio.

Perfil da Fecomercio

A Fecomercio (Federação do Comércio do Estado de São Paulo) é a principal entidade sindical paulista dos setores de comércio e serviços. Representa 151 sindicatos patronais, que abrangem cerca de 600 mil empresas, um universo que corresponde a 10% do PIB brasileiro e gera em torno de cinco milhões de empregos.

Perfil da NUPRI-USP

O NUPRI-USP é uma instituição de pesquisa multidisciplinar da Universidade de São Paulo que, há quase 20 anos, desenvolve estudos nas áreas de Relações Internacionais, Economia Política Internacional, Organizações e Instituições Internacionais, Segurança e Defesa, Integração Regional e Política Externa. O principal objetivo do NUPRI é o desenvolvimento de pesquisas em diferentes temas das Relações Internacionais. Porém, também realiza cursos e seminários dirigidos a um público de especialistas e estudantes de graduação, pós-graduação e pós-doutorado. Atualmente, o NUPRI é constituído por pesquisadores e professores que discutem os principais temas das Relações Internacionais.