Notícia

Folha de Londrina

Desenvolvimento e colonialismo tecnológico

Publicado em 05 agosto 2009

Por Cezar Bueno

Um estudo da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) mostra que, entre 1997-2001, o Brasil pagou US$ 0,65 o quilo do que importa e recebeu US$ 0,22 do que exporta. Há, portanto, um déficit médio de US$ 0,43 por quilo. O exemplo mais trágico e desigual fica por conta da comparação entre dois produtos fundamentais na pauta de exportação entre países dependentes com os de vanguarda tecnológica. O Brasil é um grande exportador de soja para o mercado internacional. Uma saca de soja (60 quilos) é vendida por US$ 20, ou seja, US$ 0,33 por quilo. Enquanto isso, um microprocessador da Intel (EUA) pesa 44g e custa, no mínimo, US$ 200, ou seja, US$ 4 mil por quilo.

No Brasil a preocupação com a criação de políticas direcionadas ao desenvolvimento científico e tecnológico, capazes de diminuir a distância que separa o país do centro dinâmico do capitalismo informacional, é recente. O Ministério da Ciência e Tecnologia foi criado em 1985, com a finalidade de promover uma política nacional de ciência e tecnologia, coordenar políticas setoriais de pesquisa, desenvolvimento, produção e aplicação de materiais e serviços de alta tecnologia. Em termos legais, o advento da Constituição Federal (1988), capítulo IV, definiu as condições jurídicas relativas ao desenvolvimento da ciência e tecnologia no país. Nos anos de 2007-2008, o governo brasileiro investiu respectivamente 1,46% e 1,28% do PIB em ciência e tecnologia. Informações disponíveis no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IGBE) mostram que os Estados de São Paulo e Paraná são os que mais investem parte de suas receitas em ciência e tecnologia: 3,72% e 2,64% respectivamente.

Em termos comparativos com outras cidades do Estado e da região Sul, o estágio atual de desenvolvimento econômico de Londrina é lamentável. Números divulgados pelo (IBGE), a respeito do PIB dos 100 maiores municípios brasileiros, revelam que Curitiba saiu da 6 posição, em 2002, para a 4 posição, em 2005. No mesmo período, quando se observa a participação relativa do PIB industrial dos municípios, Joinville aparece em 19º, Araucária em 24º, Foz do Iguaçu em 27º, São José dos Pinhais em 32º e Londrina em 82º. Quando se compara o item ""valor adicionado bruto dos serviços"", a posição de Londrina melhora (38º), porém, permanece inferior à de Joinville que aparece em 37º.

Para muito além de intrigas demagógicas ou provincianas, as comparações e os números acima sinalizam a necessidade urgente se estabelecer mecanismos políticos, institucionais e científicos para inverter essa incômoda tendência de perda de dinamismo econômico e protagonismo político, em decorrência do atraso e dependência tecnológica brasileira diante dos países do primeiro mundo. Em termos de desenvolvimento regional, a situação de Londrina é ainda mais preocupante, em razão da falta de articulação político-institucional e dinamismo tecnológico, capazes de recolocar a cidade nos robustos trilhos do desenvolvimento econômico, com justiça social.

A reversão do quadro de estagnação industrial local exige políticas sincronizadas de cooperação e intercâmbio de conhecimento entre as intuições vinculadas ao desenvolvimento científico e tecnológico local, representantes políticos e o Executivo Municipal. É urgente destacar a importância do protagonismo exercido pelo Instituto de Desenvolvimento de Londrina (Idel) e pelo Conselho Municipal de Ciência e Tecnologia para definirem políticas de inovação tecnológica realistas, sólidas, contínuas e duradouras, como forma de devolver à cidade e região uma posição de vanguarda, em termos de prosperidade econômica, investimentos em ciência e tecnologia, banimento miséria e o fim das políticas demagógicas de plantão.

CEZAR BUENO é professor de Sociologia e membro do Comitê Municipal de Ciência e Tecnologia de Londrina