Notícia

Gazeta Mercantil

Desenhos revelam nascimento urbano do País

Publicado em 30 março 2000

Por Márcio Venciguerra - de São Paulo
As plantas e os desenhos feitos pelos engenheiros portugueses que projetaram bases militares e cidades brasileiras foram reunidos no livro Imagens de Mias e Cidades do Brasil Colonial, que será lançado amanhã pelo professor de arquitetura da Universidade de São Paulo Nestor Goulart Reis. "Uma herança do trabalho desses técnicos altamente qualificados é o traçado da esquina da rua Direita e a São Bento, em ângulo reto", diz o pesquisador, que garimpou os acervos de museus brasileiros e estrangeiros por 40 anos para revelar desenhos raros. Parte desse material estará no Museu de Arte de São Paulo (veja reportagem nesta página). As mais de mil imagens de cerca de uma centena de localidades brasileiras contrariam a crença de que os portugueses não se estabeleciam na colônia com um bom padrão técnico. A preocupação com a arquitetura era tida como importante principalmente para a América Espanhola. "Boa parte do centro de São Paulo foi realmente feita de forma desordenada, especialmente o trecho que ficava dentro dos antigos muros, porém, durante os séculos XVII e XVIII, começaram a ser erguidos fortes no Brasil sob a orientação dos formados pelas chamadas, Aulas de Arquitetura", diz Reis. Essa herança é marcante no traçado de ruas dos centros históricos de cidades como Santos, Rio e Belém do Pará. O padrão geométrico regular foi encontrado até mesmo no quilombo no Rio Vermelho, que atualmente faz parte de Salvador. Segundo ele, os portugueses usaram esse desenho urbano para estabelecer identidade territorial em toda a estensão do império. "Estão muito presentes nas áreas de fronteira, nas regiões Sul, no Norte e Centro-Oeste", diz. Segundo o professor, as fortificações são muito belas do ponto de vista arquitetônico, mas nunca funcionaram muito bem em, batalhas. "Os portugueses protegiam o acesso pelo mar, mas os invasores sempre contornavam e atacavam pela retaguarda", diz Reis. Essa tática foi usada, por exemplo, pelos franceses para atacar o Rio de Janeiro. "O ataque pelo mar era difícil porque não compensaria trazer uma armada para bombardear as cidades brasileiras", diz Reis. PESQUISA As mais de mil imagens retiradas de originais de vistas, desenhos e mapas elaborados entre os anos de 1500 e 1822 são o resultado da busca feita por Reis em arquivos brasileiros, como a Biblioteca Nacional (RJ), e no exterior. Há originais dispersos nas bibliotecas de Paris, Nova York, Haia, Porto e Lisboa. Reis pesquisou coleções particulares. Outra fonte importante foi o Arquivo Histórico do Exército, pois muitos dos mapas e desenhos estudados eram utilizados no passado para esquemas de defesa militar. Eles faziam parte de pedidos de verbas para melhorar defesas e como forma de manter a Coroa Portuguesa a par do desenvolvimento da colônia. Segundo Reis, a movimentação de pessoas e a formação das cidades do ciclo do outro eram acompanhadas de perto pela administração do período pombalino. O marquês de Pombal dava estímulos diretos ao desenvolvimento. Segundo o professor, os engenheiros militares e as Aulas de Arquitetura desempenhavam um importante papel administrativo para a Coroa. "A partir de 1750, os profissionais enviados ao Brasil eram os de primeira linha de Portugal ou italianos, franceses, alemães e escandinavos contratados pelo reino", diz. O livro é uma co-edição da Edusp - Editora da Universidade de São Paulo e da Imesp (Imprensa Oficial do Estado). Em 414 páginas são reunidas mais de 300 imagens. A tiragem de 5 mil exemplares faz parte das Comemorações dos 500 Anos do Descobrimento do Brasil organizadas pela Universidade de São Paulo. O projeto Imagens de Mias e Cidades do Brasil Colonial tem patrocínio da Volkswagen e do Banespa. Conta, ainda, com o apoio do Ministério da Cultura por meio da Lei Rouanet, da Fapesp (Fundação Para o Apoio à Pesquisa no Estado de São Paulo), Cia. Suzano de Papel e Fundação Orsa. MOSTRA ITINERANTE EM KITS Além do livro e da exposição de originais no Masp, o projeto Imagens de Vilas e Cidades do Brasil Colonial inclui a distribuição de 6 mil kits para atender a estudantes de todo o País. Os pacotes são compostos de 35 painéis de imagens para exposições, um CD-ROM e um manual de montagem da mostra. Após a distribuição de 5 mil cópias para a rede pública, serão colocados a venda mil kits para escolas particulares. Na opinião do pesquisador Nestor Goulart Reis, autor do trabalho, o ensino e a pesquisa histórica sobre o Brasil Colonial são muito influenciados pelos registros escritos. "Os documentos visuais do País são um precioso patrimônio cultural, que deve revolucionar o ensino de nossa história", diz Reis. Os mapas, para Reis, servem também para demonstrar a vitalidade da vida urbana da colônia, que sempre foi relegada a segundo plano. Faltam informações mesmo sobre as cidades do ciclo do ouro. A maior parte do material didático disponível fala mais do Brasil rural do que do urbano. "As imagens, muitas delas desconhecidas dos pesquisadores, irão preencher uma lacuna no ensino e jogar nova luz sobre o nascimento do Brasil urbano", diz. Os kits começarão a ser enviados a partir de 31 de março para escolas públicas, museus, bibliotecas, centros culturais e universidades. A escolha dos destinatários está sendo feita sob a orientação das Secretarias Municipais e Estaduais de Educação e de Cultura de São Paulo e do Ministério da Cultura