Notícia

Correio Popular

Desejo de inovar move os pesquisadores

Publicado em 05 dezembro 2004

Por Tatiana Fávaro tfavaro@rac.com.br
José António Brum nasceu e cresceu em Ijuí, no Rio Grande do Sul. Aos 14 anos, já sabia claramente o caminho profissional que gostaria de seguir: o da pesquisa científica. Era 1974 e a Física era a ciência mais glamourosa da época. "Tive a sorte de ter contato com um professor da Unicamp durante o colegial. Alguém que foi uma espécie de tutor para mim, me orientando a pensar além do que a escola permitia", lembra Brum, hoje diretor de uma das instituições de pesquisa mais importantes do País, o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron. O garoto tinha muita facilidade com Matemática e voltou seus olhos para a Física pelo interesse e por ser a ciência da vez, na época em que cursou a faculdade. Mas como ele decidiu que queria ser pesquisador? "Eu era curioso e queria descobrir coisas novas, fazer algo de interessante pelo mundo", conta. "A pesquisa me permitiria usar a imaginação." O gaúcho veio para Campinas e fez faculdade na Unicamp. "Estava aparecendo, com a Unicamp, um novo modelo de ensino, uma nova proposta. E o Instituto de Física era o lugar onde se tinha a intenção de fazer inovação, de trabalhar um ensino dinâmico", recorda. Como no Brasil as alternativas em laboratórios ainda eram poucas, Brum teve que adaptar seus planos entre os 14 e 25 anos. Acabou lecionando e descobriu um novo mundo. Depois, foi realizar seu sonho e trabalhar com pesquisa pura. "Quando você é jovem e escolhe uma profissão como a Física, você precisa querer muito fazer aquilo. Tem que se dedicar praticamente em tempo integral, pois será um projeto de vida", diz ele. Aos que pensam em seguir: carreira nesta área, Brum avisa: "Não existe genialidade sem trabalho. E a oportunidade é você quem cria. Porque o conhecimento, a capacidade de entender, a curiosidade de saber o que não se conhece e a busca pela compreensão de alguns mecanismos são coisas fundamentais ao profissional. E é daí que virá a satisfação, mesmo com 10,12 horas de trabalho". Iniciação científica Cavar oportunidades e aproveitar essas chances. É esse o conselho do físico para quem pretende seguir a área de pesquisas - seja em Física, Química, Biologia etc. A iniciação científica, diz Brum, é um começo excelente. Nos últimos anos, o LNLS tem dado a estudantes de vários países a oportunidade de experimentar a pesquisa. O Programa Bolsas de Verão, voltado para estudantes de toda a América Latina e Caribe, é realizado todos os anos, em janeiro e fevereiro. Só este ano, 250 candidatos se inscreveram para participar do programa - 129 do Brasil e 121 de outros países. "Selecionamos 15 estudantes por seus currículos e eles passam dois meses trabalhando num projeto próprio aqui no LNLS, onde também vão ficar alojados", explica Brum. Os estudantes têm contato direto com técnicos, engenheiros, professores de universidades e instrumentalistas. "Alguns desses estudantes acabam ficando no laboratório", conta o diretor. Desde que começou a ser realizado, em 1992, o Bolsas de Verão já recebeu 109 estudantes. A maioria seguiu a carreira científica e se destacou, como é o caso de Daniela Zanchet, uma das primeiras bolsistas do programa, premiada pela Sociedade Brasileira de Física por sua pesquisa. Engenheira química e doutora em Física, hoje ela é funcionária do LNLS. Outros, como o bolsista da turma de 95 Abner Siervo vão além e encaram, até mesmo, o pós-doutoramento. Talento António Carlos Torrezan de Sousa tem apenas 23 anos, mas seu currículo denuncia a garra de alguém que sabe o que quer. Natural de São Paulo, sempre precisou batalhar para alcançar objetivos. Logo aos 14 anos, prestou vestibulinho na Escola Técnica Federal de São Paulo e cursou Eletrotécnica. Teve a oportunidade de fazer um estágio na Companhia Paulista de Trens Metropolitanos. Era um trabalho administrativo, lembra, mas não deixou escapar a chance de ter alguma experiência e fazer contatos. Não demorou para Torrezan conseguir entrar na área com a qual sonhava: a de pesquisa. Foi para o Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT) antes mesmo de prestar vestibular. Como estava se formando em um curso técnico, sabia que para passar no vestibular de uma universidade pública teria que se esforçar muito. Estudou e conseguiu uma bolsa em um curso pré-vestibular. Ficou em dúvida entre Engenharia Elétrica e Física, na hora de optar pela carreira. "O que me motivou a escolher a Engenharia Elétrica foi a oportunidade que tive de trabalhar em laboratório, mais perto da área técnica", conta. Torrezan deixou o IPT por precisar ficar em Campinas. E no terceiro ano da faculdade optou pela iniciação cientifica. "Fiquei seis meses no Centro de Componentes e Semi-condutores e no início do quarto ano comecei a fazer iniciação científica no LNLS. Estou conseguindo trabalhar em coisas novas, projetos desafiadores", diz. O resultado de tanto esforço só poderia mesmo ser o reconhecimento - público, por sinal. No ano passado, Torrezan recebeu o prêmio de melhor trabalho de Iniciação Científica da área de Tecnologia, no 11° Congresso Interno de Iniciação Científica da Unicamp. Financiado pela Fapesp, o projeto conta com o apoio da HP (Hewlett-Packard) do Brasil, parceira do LNLS. E a motivação de Torrezan não acaba aí: ele foi um dos seletos contemplados com a bolsa que o Instituto dos Engenheiros Eletroeletrônicos (I3E) dos EUA concede a sete estudantes do mundo, para motivar pesquisas nas áreas de microondas e radiofreqüência. "Isso me estimulou a continuar meu trabalho, de iniciação científica no mestrado."