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Descontrole glicêmico

Publicado em 16 maio 2007

O percentual de diabéticos no Brasil que controla de maneira inadequada o nível de glicose no sangue é muito alto, o que aumenta as chances de desenvolver complicações crônicas relacionadas à doença, como problemas cardíacos, insuficiência renal e cegueira.

A conclusão é de um amplo levantamento realizado por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e do Centro de Pesquisa Gonçalo Moniz (CPqGM), unidade da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) na Bahia. O ponto de partida foi a análise da taxa de hemoglobina glicada, que reflete o grau de controle da glicemia nos últimos três meses, em 6,7 mil pacientes com diabetes residentes em dez cidades do país.

A coleta de dados foi coordenada por um comitê composto por médicos endocrinologistas e epidemiologistas das duas entidades. Um questionário padronizado foi aplicado entre março de 2006 e fevereiro de 2007, em serviços médicos de Belo Horizonte, Brasília, Campinas, Curitiba, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.

De acordo com critérios da Associação Norte-Americana de Diabetes, a taxa de hemoglobina glicada ideal para pacientes em tratamento deve estar abaixo de 7%. Esse índice é tido como meta mundial de controle do diabetes por diversas sociedades e instituições vinculadas à doença.

 

"O trabalho mostra que 75% dos pacientes analisados estão com controle glicêmico inadequado, ou seja, com taxa de hemoglobina glicada superior a 7%", disse Edson Duarte Moreira Jr., chefe do Laboratório de Epidemiologia Molecular e Bioestatística do CPqGM e coordenador do trabalho, à Agência FAPESP.

"Quanto mais os níveis de hemoglobina glicada ficam fora da faixa ideal, mais aumentam os riscos de os pacientes terem complicações tardias relacionadas ao diabetes. De maneira reversa, esses riscos caem com a diminuição do percentual", destacou.

Os resultados também foram analisados de acordo com o tipo de diabetes: pacientes com diabetes insulino-dependente (tipo 1) e pacientes com diabetes não insulino-dependente (tipo 2) apresentaram taxa de controle glicêmico inadequado de 89,6% e 73,2%, respectivamente.

Dos pacientes analisados — que tinham idades entre 18 e 98 anos, sendo 66% do sexo feminino e 34% do masculino —, 979 (15%) sofriam de diabetes tipo 1 e 5.692 (85%), do tipo 2.

"Essa amostra reflete a incidência nacional dos casos. Mais de 90% dos pacientes brasileiros sofrem de diabetes do tipo 2, que normalmente começa depois dos 40 anos e tem forte relação com o histórico familiar e com a obesidade", afirmou Moreira Jr.

Tratamentos insuficientes

Segundo Moreira Jr., que também é coordenador do Centro de Pesquisa Clínica da Fundação Irmã Dulce, em Salvador, um dos fatores mais preocupantes no estudo é que até mesmo pacientes que cumprem rigorosamente a medicação e as orientações médicas estão com taxas de hemoglobina glicada altas.

"A aderência ao tratamento tem relação direta com o bom controle da doença. Por isso, a culpa nem sempre é do paciente. Como uma grande quantidade de pacientes analisados seguiu o tratamento corretamente e, mesmo assim, estava com controle glicêmico ruim, pudemos concluir que os tratamentos oferecidos pelos sistemas de saúde também foram insuficientes e precisam ser mais bem estudados", disse.

O trabalho comparou dados de prevalência de controle glicêmico inadequado em nove países. O Brasil apresentou o segundo maior índice (75%), à frente apenas da Tunísia. França (34%), Alemanha (40%), Holanda (42%) e Canadá (49%) foram os países com os melhores controles.

Artigos científicos com outros resultados do estudo da Fiocruz e Unifesp, intitulado Pesquisa sobre a epidemiologia do diabetes no Brasil: Grau de controle glicêmico e complicações, estão sendo elaborados para publicação em revistas científicas nacionais e do exterior.

"Os dados que acabam de ser divulgados foram extraídos de uma primeira análise preliminar. Estamos progredindo em outras análises e devemos publicar, nos próximos meses, dois ou três artigos com os dados principais", explicou Moreira Jr. Segundo ele, calcula-se que 33 milhões de pessoas na América Latina tenham diabetes. "No Brasil, em média, um a cada 12 indivíduos adultos tem a doença", disse.

Fonte: Agência FAPESP