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Agência USP de Notícias

Desconexão de habitats pode explicar declínio global de anfíbios

Publicado em 13 dezembro 2007

Desconexão entre os habitats torna os anfíbios vulneráveis.

De um lado, o topo dos morros da Mata Atlântica, com suas florestas que servem de moradia para diversas espécies de anfíbios (sapos, rãs e pererecas). Do outro, os vales, com seus rios, lagoas e lagos, que são um ambiente favorável para esses animais se reproduzirem. E entre esses dois ambientes, surge uma "desconexão": áreas desmatadas, pastagens e plantações que deixam as populações de anfíbios vulneráveis, podendo até levar à extinção de algumas espécies menos resistentes, durante as viagens obrigatórias para a reprodução.

Essa hipótese — desconexão de habitats — é a explicação proposta pelos pesquisadores Carlos Guilherme Becker (Unicamp), Carlos Roberto Fonseca (UNISINOS), Célio Haddad (UNESP), Rômulo Batista (Unicamp, SDS-AM) e Paulo Inácio Prado (USP) para o problema do declínio global dos anfíbios, que começou a ser percebida pelos cientistas a partir das décadas de 1980/1990 em todo o mundo. A idéia dos cientistas brasileiros foi bem aceita na comunidade científica. Nesta sexta-feira (14), a Revista Science vai publicar o artigo desses pesquisadores.

"Muitos animais adultos morrem antes de se reproduzirem. E os filhotes morrem antes de conseguirem chegar às matas", afirma o professor Paulo Inácio Prado, do Instituto de Biociências da USP. Ele explica que, quanto maior for a desconexão entre os cursos d'água e o topo das matas, maior será a redução da riqueza de espécies de anfíbios locais. "Além disso, as espécies que dependem de rios, lagos e lagoas para se reproduzirem sofrem mais do que aqueles anfíbios que não são tão dependentes dos cursos d'água para reprodução."

Segundo Prado, várias hipóteses já haviam sido levantadas para explicar o fenômeno do declínio global de anfíbios: a ação de agrotóxicos, de poluentes, do desmatamento e até o buraco na camada de ozônio (que prejudicaria a sensível pele desses animais).

Armadilhas montadas entre o topo das matas e os vales. Foto: Guilherme Becker

Pesquisa de campo

A hipótese da desconexão de habitats começou com a pesquisa realizada por Carlos Guilherme Becker, na Unicamp (e da qual o professor Prado era o orientador e Carlos Fonseca —UNISINOS —, era o co-orientador). O mestrado, realizado entre 2005 e 2006 (defesa em 2007), foi feito na região rural de São Luis do Paraitinga (cidade do Vale do Paraíba a 171 quilômetros a Leste da Capital paulista). Becker montou armadilhas entre o topo das matas e o vale dos rios, o que comprovou que de fato ocorria a migração de anfíbios entre aqueles habitats.

Prado, Becker e Fonseca decidiram levar os dados para análise do professor Célio Haddad (Unesp, Rio Claro), reconhecido especialista em anfíbios. "Segundo o professor Haddad, aquelas conclusões eram bastante plausíveis e inovadoras, pois nunca havia sido feita uma pesquisa semelhante", conta Prado.

O professor Haddad realizou o inventário de 12 trabalhos de anfíbios na Mata Atlântica, abrangendo desde áreas fragmentadas — como São Luis do Paraitinga — até locais com extensa cobertura florestal — como a Reserva de Boracéia. Foi a partir daí que o artigo enviado à Revista Science foi tomando forma.

Número de espécies de anfíbios supera o de mamíferos. Foto: Célio Haddad

Cadeia alimentar

O professor Prado explica que os anfíbios têm um importante papel nos ecossitemas. Eles tanto exercem o papel de predadores de insetos e de outros invertebrados, como também fazem parte da alimentação de uma série de outros animais. No aspecto aplicado, há também um grande potencial farmacêutico, por meio do uso de algumas substâncias encontradas em sua pele e órgãos..

Outro dado interessante apontado pelo professor Prado é que anfíbios são um dos grupos de vertebrados mais diversificados. "No Brasil, existem cerca de 550 espécies de mamíferos (5 mil no mundo). Já em relação aos anfíbios, são cerca de 700 no Brasil (6 mil no mundo). Um terço de todas as espécies está sob algum tipo de ameaça", conclui.

As pesquisas reuniram pesquisadores dos projetos "Biodiversidade e Processos Sociais em São Luiz do Paraitinga" e "Diversidade de Anfíbios Anuros do Estado de São Paulo", ambos do Projeto Biota-Fapesp. Também contou com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Universidade Vale dos Sinos (UNISINOS-RS).

Mais informações: e-mail guibecker.br@gmail.com com Carlos Guilherme Becker;

e-mail cfonseca@unisinos.br, (0XX51) 3591-1100 Ramal: 1262, com Carlos Roberto Fonseca;

e-mail haddad@rc.unesp.br, (0XX19) 3526-4302, com Célio Fernando Baptista Haddad;

e-mail romulobio@gmail.com, (0XX92) 3642-4330 Ramal: 2009, com Rômulo Fernandes Batista,

e-mail prado@ib.usp.br ou (0XX11) 3091-7599, com o professor Paulo Inácio Prado