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Diário da Saúde

Descoberto possível biomarcador para doença vascular rara

Publicado em 14 junho 2021

Pesquisa mostra, pela primeira vez, correlação entre a inibição da proteína HSP70 e a disfunção de células da camada interna dos vasos sanguíneos, um dos fatores envolvidos na hipertensão pulmonar tromboembólica crônica.

Pesquisadores brasileiros encontraram um bioindicador - uma molécula indicativa de uma enfermidade e que pode ser detectada por um exame - que pode indicar a presença de uma doença vascular rara, mas de difícil tratamento.

A hipertensão pulmonar tromboembólica crônica (HPTEC) resulta de um coágulo (trombo) na artéria pulmonar que não desaparece mesmo com uso de medicações anticoagulantes. A obstrução causada pelo trombo acaba sobrecarregando o ventrículo direito do coração.

O melhor tratamento conhecido é a cirurgia (tromboendarterectomia pulmonar, ou TEAP), mas nem todos os pacientes são elegíveis. Além disso, dos que são submetidos ao procedimento, 35% ainda permanecem com a doença após a cirurgia.

"Em 35% dos pacientes a gente remove o trombo, mas a pressão na artéria pulmonar continua alta, significando que há algo a mais ali além do trombo," afirmou o Dr. William Salibe-Filho, do Instituto do Coração (InCor).

"Um biomarcador pode ser um passo anterior à cirurgia; pode ajudar a decidir se vale a pena ou não fazer a intervenção. Porque se conseguirmos detectar previamente no paciente essa correlação entre a baixa expressão da chaperona e a disfunção endotelial, pode ser que nem valha a pena encaminhá-lo para cirurgia, por exemplo, já que a remoção do trombo pode não resolver a questão naqueles casos em que o coágulo não é o único problema," acrescentou a pesquisadora Thaís Araújo, membro da equipe.

Proteína HSP70

Para tentar melhorar o prognóstico da doença, William e seus colegas se voltaram para as células endoteliais das artérias pulmonares.

"Na parede dos vasos pulmonares, na parte interna, há uma monocamada de células endoteliais. O que já está relativamente estabelecido sobre a doença é que, nos portadores, há uma disfunção nessas células endoteliais dos vasos pulmonares, que faz com que ocorra uma sobrecarga de trabalho para o coração. E quem 'paga o pato' é o lado direito do coração, que tem de bombear mais sangue para conseguir vencer a resistência e a dificuldade da circulação pulmonar. Esses pacientes acabam evoluindo para insuficiência cardíaca, mas do lado direito do coração", explicou ele.

E a busca deu certo: A equipe descobriu que células endoteliais disfuncionais apresentam baixa expressão da proteína HSP70, considerada uma chaperona molecular (proteína que auxilia outras proteínas a adquirirem a configuração estrutural adequada para o cumprimento de suas funções).

Os pesquisadores sugerem que a HSP70 pode estar contribuindo para regular a disfunção das células endoteliais e, portanto, tem grande potencial para ser um biomarcador da doença. Essa descoberta podem contribuir para subsidiar tratamentos mais direcionados a cada caso específico de hipertensão pulmonar.

"Hoje são usados medicamentos vasodilatadores específicos. A HTPEC é o único caso em que a cirurgia é possível, mesmo assim, após três meses de tratamento com anticoagulantes. Talvez com um biomarcador se consiga um diagnóstico mais preciso ou mais rápido. Ou também se possa tentar identificar, via marcador, se um paciente vai evoluir para um quadro mais grave e vai necessitar de intervenção mais rápida. São hipóteses ainda, que têm de ser estudadas, mas acreditamos que nossas descobertas abrem essas possibilidades," finalizou William.

Checagem com artigo científico:

Artigo: Shear stress-exposed pulmonary artery endothelial cells fail to upregulate HSP70 in chronic thromboembolic pulmonary hypertension

Autores: William Salibe-Filho, Thaís L. S. Araujo, Everton G. Melo, Luiza B. C. T. Coimbra, Monica S. Lapa, Milena M. P. Acencio, Orival Freitas-Filho, Vera Luiza Capelozzi, Lisete Ribeiro Teixeira, Caio J. C. S. Fernandes, Fabio Biscegli Jatene, Francisco R. M. Laurindo, Mario Terra-Filho

Publicação: PLOS ONE

DOI: 10.1371/journal.pone.0242960

Com informações da Agência Fapesp