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Descoberto o mecanismo que desencadeia o processo inflamatório na infecção pelo vírus Mayaro

Publicado em 11 novembro 2019

Por Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP

O mecanismo pelo qual as células de defesa respondem à infecção pelo vírus Mayaro foi descrito por uma equipe do Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias ( CRID ) em artigo publicado na revista PLOS Pathogens .

Segundo os autores, ao estabelecer um modelo experimental da febre do Mayaro em camundongos adultos e identificar os processos envolvidos na resposta imune, o estudo abre caminho para o desenvolvimento de drogas contra a doença. O CRID é um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão ( CEPID ) financiado pela FAPESP e sediado na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP).

A febre do Mayaro é uma arbovirose (doença transmitida por mosquito) semelhante à causada pelo vírus chikungunya. Os sintomas incluem febre, manchas avermelhadas na pele, dor de cabeça e muscular. Os casos mais severos também apresentam artralgia (dor nas articulações que pode ou não ser acompanhada de edema). Recentemente, o patógeno ultrapassou as fronteiras da floresta amazônica e passou a circular também na região Sudeste. Dois casos foram registrados em Niterói (RJ) e outros dois em São Carlos (SP).

“A febre Mayaro é muito inflamatória e seus sintomas podem perdurar por meses. A boa notícia é que a inflamação é desencadeada por um mecanismo de defesa bastante estudado e que conhecemos bem”, disse Dario Simões Zamboni , pesquisador do CRID e autor principal do artigo.

Zamboni se refere a determinados complexos proteicos existentes no interior das células de defesa conhecidos como inflamassoma. Quando essa maquinaria celular é acionada, moléculas pró-inflamatórias passam a ser produzidas para avisar o sistema imune sobre a necessidade de enviar mais células de defesa ao local da infecção.

O inflamassoma também está envolvido em doenças autoimunes, neurodegenerativas, alguns tipos de câncer e outras doenças infecciosas, incluindo o zika e chikungunya. No caso do vírus Mayaro, o grupo descobriu que essa maquinaria celular é acionada por meio da ativação da proteína NLRP3, aumentando assim a produção da citocina inflamatória interleucina-1 beta (IL-1ß, sinalizadora do sistema imune).

No estudo, os pesquisadores desenvolveram modelos de infecção celular em macrófagos (células que integram a linha de frente do sistema imune) e em camundongos. Os experimentos mostraram que o vírus induz a expressão das proteínas NLRP3, ASC e Caspase-1 (CASP1). São elas as responsáveis por montar a resposta inflamatória de defesa, conhecida como inflamassoma. No caso do vírus Mayaro, a proteína NLRP3 tem protagonismo, sendo essencial para a produção de sinalizadores imunes.

Mostrou-se ainda que a ativação do inflamassoma NLRP3 decorre do fato de o vírus induzir a produção de espécies reativas de oxigênio e a saída de potássio do interior das células para o meio extracelular. Em experimentos com camundongos que não expressavam a proteína NLRP3, o grupo confirmou que essa molécula está envolvida com inchaço, inflamação e dor nas patas do animal infectado.

“Além dos experimentos em cultura celular e no modelo animal, também comparamos os resultados com o soro sanguíneo de pacientes infectados por Mayaro no Mato Grosso. Eles apresentavam níveis elevados de Caspase-1 ativa, IL-1ß e interleucina-18 [IL-18] em comparação com indivíduos saudáveis, o que indica a atuação do inflamassoma NLRP3 na resposta inflamatória durante a infecção pelo Mayaro em humanos”, disse Zamboni.