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G1

Descoberto fungo ‘de plantas’ capaz de gerar infecções pulmonares em humanos

Publicado em 30 junho 2020

Espécies do gênero já agravaram casos de COVID-19; pesquisa indica que fungo é até três vezes mais resistente que seus parentes.

Um fungo conhecido pelo crescimento nos solos foi identificado como o responsável por gerar infecções pulmonares em hospitais.

A descoberta revelou, pela primeira vez, que uma espécie gerada a partir da união de outros tipos de fungo é o causador de uma doença em humanos.

O estudo garante ainda mais peso por indivíduos do mesmo gênero serem responsáveis por agravar casos de COVID-19 devido à deficiência respiratória gerada.

Os resultados são fruto de um estudo realizado com apoio da Fapesp que uniu pesquisadores do Brasil, Estados Unidos, Portugal e Bélgica.

A análise concentrou algumas amostras clínicas de doenças causadas por fungos em ambientes hospitalares do mundo todo.

Alguns dos “autores” das enfermidades já haviam sido classificados, mas as respostas não satisfaziam.

“Olhar no microscópio não é muito preciso, você tem que fazer testes moleculares mais precisos.

É a mesma coisa que olhar pessoas fantasiadas, você não vai saber quem elas são de fato.

Assim, recebemos vários exemplares e decidimos sequenciar os seus genomas”, afirma o professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP-USP) e um dos coordenadores do estudo, Gustavo Henrique Goldman.

Ao analisar o material genético desses fungos os pesquisadores vivenciaram uma surpresa: mais da metade das amostras era de uma espécie que nunca havia sido detectada infectando pessoas.

Até então, o Aspergillus latus era encontrado apenas em amostras de solo.

Foi o sequenciamento que permitiu saber que este é, na verdade, um híbrido, uma mistura de dois outros tipos de fungos que é até três vezes mais resistente à drogas antifúngicas do que as espécies parentais que lhe deram origem.

Medicamentos para fungos podem inibir a síntese de lipídios, atacar a parede celular ou causar buracos na membrana plasmática dele.

Para o novo fungo descoberto, porém, as doses suficientes para esses processos precisaram ser mais altas Um exemplo de ser vivo híbrido, tal qual o fungo lidado, é a mula.

O animal originário da mistura do cavalo com o burro herda a mescla de características de seus parentes de origem.

“De uma forma geral híbridos são organismos estéreis.

A mula, por exemplo, não consegue se reproduzir, apesar de ter atributos dos dois parentes.

Mas os nossos [fungos] isolados, surpreendentemente, são férteis!”, afirma o pesquisador.

Apesar de indivíduos híbridos não serem uma novidade no campo da ciência, essa espécie de fungo trouxe particularidades para a compreensão do fenômeno.

Além da capacidade de reprodução diferente do habitual, é interessante observar que o Aspergillus latus foi gerado a partir da combinação de espécies bem distantes geneticamente entre si.

Num comparativo palpável, é como se um Homo sapiens tivesse se unido a um lêmure.

Fungos e doenças Esporos de fungos são inalados por nós com frequência, mas no sistema respiratório humano os impactos causados pela presença de espécies como o Aspergillus latus causa reações de diferentes proporções.

Uma pessoa saudável, por exemplo, pode não manifestar sintoma algum, já pacientes com o sistema imune debilitado começam a acumular “bolas” desse fungo nos pulmões e podem morrer rapidamente.

Conhecer as infecções fúngicas é um dos primeiros passos para entender porque algumas se mostram mais resistentes a determinados fármacos e se é possível desenhar um novo tratamento.

Uma situação que se tornou ainda mais urgente no momento atual ,como explica Fausto Bruno dos Reis Almeida, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), também autor do estudo: "essas infecções fúngicas ocorreram geralmente em pacientes que estão com o sistema imune debilitados.

Nós estamos tentando entender se pacientes com COVID-19 são mais suscetíveis à infecções e se precisam de um tratamento diferenciado".

E não é apenas no Brasil que fungos desse gênero têm essa potência de disseminação.

O professor Gustavo Henrique Goldman explica que o fato de serem tolerantes às temperaturas muito altas e muito baixas ou até de crescerem em ambientes com baixíssima concentração de nutrientes os torna muito poderosos.

“Eu estudo como um fungo consegue orquestrar tudo que tem dentro dele depois que olha para o ambiente, percebe e responde.

Um fungo não tem olho, não tem língua e não tem nariz, mas ele consegue sentir gosto, cheiro...

tem bastante habilidade”, define.

Fungos não afetam apenas plantas e humanos.

Das plantas até nós

Muitos dos fungos que se disseminam no ambiente não têm uma procedência declarada.

Fato é que são capazes de provocar grandes mudanças na dinâmica de diversas populações.

“30% da perda de alimentos hoje é feita por contaminação por fungos na colheita ou pós colheita”, afirma Goldman. A única maneira de conhecer a origem e os caminhos percorridos por um fungo é sequenciar seu genoma e compreender suas transformações.

Mas não é apenas seguindo os rumos da natureza que os fungos se espalham.

“Na década de 50, era muito comum você verificar se uma mulher estava grávida se injetasse a urina dela em um sapo de origem africana, Xenopus laevis, e ele ovulasse.

Os animais eram importados de várias localidades e alguns deles possivelmente estavam contaminados com um fungo que não tinha distribuição mundial.

Como escaparam no ambiente, o fungo se estabeleceu em vários nichos diferentes causando a erradicação de centenas de espécies nativas de rãs, sapos e lagartos”, explica o pesquisador. Com relação ao fungo de solos recentemente descoberto gerando infecções pulmonares em humanos, a pesquisa deve continuar analisando novos híbridos, tentando verificar a abrangência dessa estratégia e até buscando formas de lidar com a presença desses tipos de fungos no agravamento de doenças como a COVID-19.

Fonte: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2020/06/30/descoberto-fungo-de-plantas-capaz-de-gerar-infeccoes-pulmonares-em-humanos.ghtml