Notícia

Hoje em Dia

Descoberta ossada com pelo menos 8.400 anos

Publicado em 05 julho 2001

Por Maria Célia Pinto
Pesquisadores definem quatro novas quadras de escavação em Boieiras onde o bioarqueólogo Walter Neves encontrou um ilíaco, exatamente às 13h40 osso da bacia do corpo humano que faz parte de um esqueleto em articulação anatômica. Uma ossada humana com pelo menos 8.400 anos foi descoberta ontem no Sitio Arqueológico de Boieiras, em Matozinhos, a 42 quilômetros de Belo Horizonte. A visualização do ilíaco - um osso da bacia do corpo humano -, exatamente às 13h40 (que foi acompanhada pela reportagem do HOJE EM DIA), emocionou a equipe do professor Walter Neves, da Universidade de São Paulo (USP), que escava o local desde segunda-feira. "Um ilíaco maravilhoso. Vocês estão diante de um indivíduo com pelo menos 8.400 anos", comemorou o bioarqueólogo. Logo depois vieram algumas costelas, confirmando que um osso das têmporas, encontrado horas antes, não estava isolado. "É um esqueleto em articulação anatômica", definiu Neves, querendo dizer que a ossada está completa. Desde 1956, o sítio de Boieiras não era explorado. Naquela ocasião, o arqueólogo Oldemar Blasi, hoje com 83 anos, escavou duas pequenas áreas, chegando a 1,30 metro de profundidade. Dois sepultamentos foram descobertos no local e a datação, feita recentemente nos Estados Unidos, revelou que as ossadas tinham 8.400 anos. "Boieiras está preservado. O Oldemar esteve aqui conosco, com mais energia que todos nós e identificou, com a ajuda do diário de campo, os locais de escavação", relata Neves. A equipe isolou, então, as áreas já pesquisadas e definiu, inicialmente, quatro novas quadras, cada uma de um metro quadrado. Pelo menos uma delas já revelou uma ossada. Ontem, no terceiro dia de escavações, a quadra mais profunda tinha 30 centímetros. Os pesquisadores já encontraram pedras lascadas, restos de fogueira, ossos de animais queimados - a alimentação dos antigos habitantes - e dois dentes humanos. "Os esqueletos não estão longe", prenunciou Neves pouco antes da descoberta do ilíaco. Em Boieiras, o material arqueológico está tão na superfície que os pesquisadores têm que andar sobre tábuas, para não danificar prováveis 'tesouros'. Mesmo assim, a equipe de Neves deve escavar, no mínimo, até 1,30 metro. E ossadas ainda mais antigas podem surgir, bem preservadas pelo calcário existente nas terras da região. Para se ter uma idéia, o crânio de Luzia - o mais antigo das Américas, com datação entre 11 mil e 11.500 anos - foi encontrado a 12 metros de profundidade, na Gruta Lapa Vermelha, em Pedro Leopoldo, na mesma região conhecida como APA Carste, de Lagoa Santa. Luzia foi desenterrada em 1975, durante a última escavação realizada na região. Agora, a equipe de Neves, que totaliza 22 pessoas, está dividida entre Boieiras e o Sítio de Cerca Grande 6, explorado pela última vez em 1956. "De lá saíram 11 sepultamentos, com datação de 9.700 anos. Um dos esqueletos, com 8.400 anos, estava a 10 centímetros de profundidade", relata Neves. Mas embora a equipe tenha planos de ficar na região até o próximo dia 31, as escavações em Cerca Grande 6 - um dos sete abrigos existentes em um enorme paredão de rocha - podem ser abandonadas antes por causa da destruição do local. Segundo Neves, o abrigo sofreu explosões para a exploração de calcita e é provável que até mesmo uma terraplenagem tenha sido feita no local para acesso de caminhões. "Ainda vamos confirmar isso. Mas, se houve essa terraplenagem, o sítio foi destruído para sempre, o que é uma perda lamentável", afirma. De acordo com o pesquisador da USP, somente arqueologia de caverna e gruta foi feita, até hoje, na região de Lagoa Santa. Daí a idéia de que os antigos habitantes da região viviam nesses abrigos de pedra. Mas ainda não foram feitas pesquisas fora das grutas. "Essa é uma das questões do nosso projeto. De repente, podemos concluir que eles viviam fora e usavam os abrigos para sepultamento", sugere Walter Neves. NOVA TEORIA PODE SER SACRAMENTADA A descoberta de ossadas com milhares de anos é um "prato cheio" para qualquer expedição de arqueologia. Mas a equipe do projeto "Origens e Microevolução do Homem nas Américas: Uma Abordagem Paleoantropológica" tem uma missão ainda mais empolgante em Matozinhos: sacramentar uma nova teoria sobre a ocupação do Continente Americano. Segundo Walter Neves, a grande teoria existente sobre o assunto, elaborada por norte-americanos, diz que os primeiros habitantes das Américas eram todos mongolóides, típicos do norte da Ásia. Mas os estudos do pesquisador da USP apontaram resultados bem distintos. Desde 1989, Neves e alguns colegas americanos e argentinos têm demonstrado que, embora todos os indígenas da atualidade tenham traços mongolóides, a pretensa homogeneidade indicada pelos pesquisadores dos Estados Unidos não se confirma em esqueletos com mais de 8 mil anos. O primeiro material pesquisado por Neves foi um conjunto de ossadas encontrado por Lund (Peter Lund, naturalista dinamarquês pioneiro na descoberta de fósseis em Minas Gerais) e que está guardado na Dinamarca. "A morfologia é diametralmente oposta à dos mongolóides, mais semelhante às populações que temos hoje na África e Austrália", aponta. Com esses resultados, surgiu o modelo de ocupação por dois grandes grupos: os pré-mongolóides e os mongolóides. Por alguma razão ainda desconhecida, segundo Walter Neves, sobraram apenas os mongolóides, há 8 mil anos. "Mas antes disso, os habitantes eram similares aos africanos e australianos", reforça o pesquisador. Nesse contexto surgiu Luzia, o crânio de mais de 11 mil anos descoberto pelo arqueólogo francês André Prous, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A recomposição do rosto da moça, feito na Inglaterra em 1999, com os mais modernos recursos tecnológicos, confirmou a tese de Neves. A face de Luzia, que morreu quando tinha entre 20 e 25 anos, foi reconstruída com material sintético e esculpido com argila, revelando uma moça que em nada lembra os mongolóides. "Luzia foi uma faca de dois gumes em minha vida", garante Walter Neves. Segundo ele, embora a mais antiga habitante das Américas tenha despertado a atenção da imprensa e dos cientistas para a sua tese, pesquisadores norte-americanos disseram que a nova teoria foi proposta com base em um único esqueleto, talvez anômalo. Para rebater as críticas, Neves apresentou no último mês de abril, também nos Estados Unidos, um estudo feito em esqueletos com datação entre 8.500 e 10 mil anos, encontrados por Prous na Serra do Cipó. "Todos tinham a mesma morfologia não-mongolóide. No final da apresentação eu disse que isso era para calar a boca dos norte-americanos", desabafa. A busca aos contemporâneos de Luzia, por isso, é um desafio com sabor especial para o mineiro de Três Pontas, que coordena a expedição e realiza um sonho de 25 anos. Quanto maior o número de ossadas datadas e contextualizadas, maior a credibilidade da proposta. O projeto tem financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp) por, no mínimo, quatro anos. "Esse é um dos auxílios mais substanciosos para a arqueologia acadêmica brasileira", garante Neves, sem falar em cifras. O financiamento garante, por exemplo, um escritório moderno em pleno sítio arqueológico, com gerador de energia e laptop para o diário de campo. A equipe de Neves tem profissionais de diversas áreas e ainda estudantes da USP, da UFMG e de Pedro Leopoldo.