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Descoberta brasileira: humanidade saiu 500 mil anos antes da África

Publicado em 05 julho 2019

Por Filipe Vilicic | Veja

Faltava algo como um elo perdido para explicar como e quando a humanidade deixou seu berço, na África, e deu início ao fluxo de migração que acabou por povoar todo o planeta. Até a década passada se fomentava a convicção de que essa caminhada havia sido feita há cerca de 1,9 milhão de anos pelo nosso ancestral Homo erectus, ao longo de um corredor conhecido como Levante, no Oriente Médio, que serve de ligação entre os continentes africano e asiático. A conclusão se guiava por fósseis encontrados na Ásia e na África. Porém, surgiram nos últimos dez anos muitas dúvidas acerca dessa história. Um estudo que será publicado amanhã (6), no periódico Quaternary Science Review, da holandesa Elsevier, por cientistas brasileiros, em parceria com colegas da Alemanha, da Itália e dos EUA, desvendou o enigma.

A partir da análise das ferramentas mais antigas já encontradas fora da África, o time de pesquisadores concluiu que quem deixou aquele continente na verdade foi um antecessor ao erectus, o Homo habilis. Ele teria feito a jornada ao menos 500 mil anos antes do que se deduzia. Na região da atual Geórgia, na Europa Oriental, evoluiu para o Homo erectus. “Nosso achado literalmente muda a história da humanidade”, disse a VEJA o arqueólogo e antropólogo Walter Neves, da Universidade de São Paulo (USP), um dos cientistas mais renomados de seu campo de atuação – por trás de duas descobertas que receberam espaço nobre em periódicos científicos, o fóssil de Luzia, o mais antigo das Américas, e o Taradinho, a pintura rupestre igualmente tida como a mais ancestral dessa porção do mundo (ambos achados em Minas Gerais e datados com mais de 10?mil anos).

Realizado entre 2013 e 2015 no vale do Rio Zarka, no norte da Jordânia, o trabalho de campo descobriu ferramentas fabricadas por nossos ancestrais há 2,48 milhões de anos, antes do surgimento dos primeiros erectus. Trata-se do mais antigo material criado por humanos já achado fora da África. “Assim conseguimos explicar algumas coisas nebulosas que havia na nossa saga”, pontuou Neves.

No ano passado, tinham sido achadas ferramentas similares na China, datadas de 2,1 milhões de anos. O que já punha em xeque a ideia de que o Homo erectus deixara a África há 1,9 milhão de anos. Além disso, entre 1991 e 2005 haviam sido escavados misteriosos fósseis de hominídeos na jazida paleoantropológica de Dmanisi, na República da Geórgia. Tratavam-se de cinco crânios com entre 650 e 750 centímetros cúbicos de volume craniano, onde se abriga o cérebro. Menos que o do Homo erectus (850 centímetros cúbicos), mais que o habilis (650). Sem muita certeza, cientistas haviam determinado que os crânios pertenciam a erectus que haviam deixado a África em direção à Europa Oriental.

A descoberta na Jordânia soluciona o problema. O habilis, nosso ancestral direto e possivelmente o primeiro hominídeo a fabricar ferramentas de pedra, teria então caminhado pelo atual Oriente Médio há cerca de 2,5 milhões de anos. Os fósseis encontrados na Geórgia seriam de uma transição do habilis para o erectus – que depois ainda retornaria à África, pela indicação de fósseis encontrados até agora. Os mesmos habilis acabaram por se transformar em outra espécie, cuja origem até hoje era desconhecida: a Homo floresiensis, popularmente chamados de hobits (pela estatura de cerca de um metro, o que o deixou com uma caixa craniana de somente 350 centímetros cúbicos), da Ilha de Flores, na Indonésia.

“No Levante, na Jordânia, não será possível encontrar fósseis, crânios, que é o que procurávamos no início, pois o solo da região não é ideal para preservá-los”, analisou Neves. “Portanto, as ferramentas que achamos será a evidência maior da história de migração humana para além da África”. Há 2,48 milhões de anos, a vida era duríssima para nossos ancestrais. O Homo habilis lascava pedras em busca de moldar utensílios com os quais raspava a carne de carniças de animais deixadas para trás por grandes felinos. Éramos então coletores e carniceiros, que tinham de realizar essa operação no mais rápido, antes que outros predadores nos expulsassem da área.

“Além da notoriedade da descoberta, em si, o estudo coloca o Brasil finalmente em um lugar nobilíssimo entre os países que fazem paleontologia, que buscam decifrar não só o que aconteceu há milhares anos, mas há milhões de anos”, concluiu Neves. Além da USP, a pesquisa, financiada pela Fapesp e pela Wenner-Gren Foundation for Anthropological Research, de Nova York (EUA), contou com a participação de cientistas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), da Universidade Federal do Paraná (UFPR), do Instituto Italiano di Paleontologia Umana, da Oregon State University (EUA) e da Goethe-University (Alemanha).