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Descoberta ajudará em novas terapias contra obesidade

Publicado em 23 agosto 2008

Além da indesejada gordura branca, cuja função é acumular energia no corpo, o organismo também produz a gordura marrom, que auxilia a queima de calorias ao gerar calor corporal. Dois grupos de cientistas, em estudos independentes, acabam de identificar fatores que regulam a formação da boa gordura marrom.

De acordo com os autores das pesquisas, que foram publicadas na edição da última quarta-feira da revista Nature, as descobertas poderão ajudar a desenvolver novas terapias contra a obesidade.

O grupo coordenado por Yu-Hua Tseng, do Centro de Diabetes Joslin, da Escola de Medicina Harvard, mostrou que a proteína morfogenética óssea 7 (BMP7, na sigla em inglês) – conhecida por seu papel na indução do crescimento dos ossos – também pode promover a formação de gordura marrom.

Já Bruce Spiegelman, do Instituto do Câncer Dana-Farber, também nos Estados Unidos, e colegas revelaram que o gene PRDM16 regula a transformação de células em músculos ou gordura marrom. A ausência do gene leva a célula a se tornar músculo, enquanto o seu excesso faz com que ela se torne gordura marrom. Enquanto isso, a gordura branca se forma a partir de um tipo celular distinto.

A revista publicou ainda comentário de Barbara Cannon e Jan Nedergaard, da Universidade de Estocolmo, Suécia, sobre os trabalhos. Os dois estudos nos aproximam mais um passo do objetivo de promover a linhagem de gordura marrom como potencial caminho para combater a obesidade, destacaram.

Na pesquisa realizada pelo grupo de Tseng, os cientistas identificaram, em testes laboratoriais com camundongos, que a proteína BMP7 leva células precursoras a originar células de gordura marrom maduras.

Enquanto as células de gordura branca correspondem à forma “convencional” de gordura, cuja função é armazenar energia, a gordura marrom tem o papel de queimar calorias ao gerar calor corporal. Essas células de gordura marrom desaparecem, em sua maioria, do corpo de humanos adultos, mas suas precursoras permanecem no corpo, explicou Tseng.

Em 2005, uma pesquisa do mesmo grupo levou à descoberta de genes que controlam a criação de células precursoras de gordura marrom. Outro trabalho mais recente localizou grupos de células de gordura marrom dispersos entre fibras musculares de camundongos.

O estudo atual identificou a BMP7 como a proteína capaz de induzir a formação e função das células de gordura marrom. Ao introduzir a proteína em camundongos, usando um adenovírus como vetor, os cientistas observaram um aumento do desenvolvimento dessa gordura. Em outro experimento, os camundongos que desenvolveram mais gordura marrom ganharam menos peso que os outros.

De acordo com os cientistas, o trabalho promoveu avanço em uma questão fundamental: saber o que controla o desenvolvimento de depósitos de gordura. Os autores concluíram que diferentes membros da família de proteínas BMP, que regulam a formação de órgãos durante o desenvolvimento embrionário, determinam a formação de gordura marrom ou branca.

De músculo a gordura

A pesquisa feita por Spiegelman e colaboradores mostrou que o já conhecido gene PRDM16 regula a criação de gordura marrom a partir de células musculares imaturas. O trabalho também determinou que o processo é uma rua de mão dupla: desligar o PRDM16 nas células de gordura marrom pode convertê-las em células musculares. No entanto, essa reversão não tem aplicações práticas.

Segundo Spiegelman, a principal surpresa é que as células precursoras de músculos, conhecidas como células-satélite, são capazes de originar as células de gordura marrom sob o controle do PRDM16.

O estudo confirma que o PRDM16 é o regulador-mestre do desenvolvimento de gordura marrom. Isso levará a prosseguir com a pesquisa para descobrir se drogas que estimulam o PRDM16 em camundongos – e potencialmente em humanos – podem converter gordura branca em gordura marrom, a fim de tratar a obesidade, afirmou.

Outra estratégia, segundo ele, poderia ser o transplante de células de gordura marrom em pessoas com sobrepeso, a fim de desencadear o processo de queima de calorias. Temos uma evidência convincente de que o PRDM16 pode transformar outras células em gordura marrom, disse. Os artigos de Yu-Hua Tseng, Bruce Spiegelman e outros podem ser lidos por assinantes da Nature em www.nature.com.

(Agência Fapesp)