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Jundiaí Agora

Descascando o ABACAXI do dia a dia: quem quer?

Publicado em 02 julho 2018

Quem já não ouviu, quando se tem um problema: “tenho um abacaxi pra descascar!” ou, no meio do caos cotidiano, alguém vem com aquela notícia repentina:“quer mais um abacaxi?”, com o intuito de preparar os ânimos, mas que nos causa um frio na espinha?Vamos encarar esse abacaxizeiro! Mas de forma diferente, mostrando porque é chamado de “rei dos frutos”. E não é porque tem coroa não…ele dispensa esse adereço, sem falsa modéstia, revelando que guarda muito mais valor em seu interior.

O abacaxizeiro (Ananascomosus) (L.) Merr. é frutífera cultivada popularmente em todas as regiões tropicais do mundo, uma verdadeira cosmopolita. De acordo com Lorenziet al , no seu “Frutas Brasileiras e Exóticas Cultivadas, 2006”, é nativa brasileira, do Mato Grosso do Sul, Rondônia e Acre em áreas do cerrado, e não da América do Sul, de acordo com alguns registros. Mais um motivo para nos orgulharmos dos frutos de nossa terra!

Seu uso é amplo pois faz por merecer: sua polpa cheirosa e suculenta produz sucos tropicais refrescantes, nem precisa adoçar. Aliás, consome-se in natura, faz-se doces, bolos, tortas, xaropes. Ops, xaropes? Aí que começam as maravilhas: há muito é conhecido na medicina caseira na terapêutica de transtornos respiratórios e do trato intestinal. Isso porque o abacaxi contém uma proteína natural, a bromelina, que dissolve gorduras, especialmente as da carne. Quem conhece, comprova: churrasqueiros de plantão sabem que o abacaxi é tradicionalmente usado para amaciar carnes; inclusive não é à toa que, lá pelas tantas, apareçam rodadas de fatias da fruta levemente grelhadas, trazendo frescor no meio da festa.

E quer saber onde está a maior parte da preciosa bromelina? No miolo do fruto, ou seja, na parte que normalmente se descarta. Esse descarte já não tinha nenhuma razão de ser, e agora, menos ainda: mais fibroso, mais rico, melhor para a saúde!

Por fim, a cereja do bolo: pesquisa inovadora envolvendo vários pesquisadores brasileiros da Universidade de Campinas (UNICAMP) e Universidade de Sorocaba (UNISO), utilizando a bromelina do abacaxi, criaram um curativo na forma de emplastro ou gel que pode ser usado para a cicatrização de ferimentos e queimaduras. Esse trabalho de grande relevância foi custeado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), publicado em 2017 na ScientificReports, do grupo Nature, que atesta seu impacto e excelência internacionais (abaixo e https://go.nature.com/2KhYj0O).

Seria só mais uma qualidade da fruta, unida aos trâmites da pesquisa acadêmica de ponta, se não figurasse no topo de uma escala de importância global no que se refere à recuperação de vítimas de queimaduras: ao lado de ser dos acidentes mais doloridos, também é o dos mais difíceis em termos de tratamentos em cirurgia e clínica cirúrgica pelos riscos de infecção, desidratação, alterações metabólicas, além das sequelas muitas vezes permanentes e incapacitantes resultantes das enxertias, amputações etc.

Cerca de um milhão de pessoas sofrem queimaduras no Brasil a cada ano, de acordo com informações do Ministério da Saúde (dados colhidos no site). As maiores vítimas são crianças e pessoas de baixa renda: o Sistema Único de Saúde (SUS), gratuito para toda a população brasileira e colocando-se como um dos melhores do mundo nessa categoria, registrou no período entre 2013 e 2014 mais de 15 mil casos de internações por queimadura em crianças com idade entre 0 e 10 anos. Com o objetivo de veicular material didático para prevenção, primeiros cuidados e endereços de postos de atendimento, uma organização sem fins lucrativos (ONG) de famílias de vítimas de queimaduras criou o Instituto Pró-Queimados, só acessar o site para conhecer (https://bit.ly/2lGSb3E).

Infelizmente esse número cresce no mês de junho, pela soltura de fogos de artifício, rojões; proximidade com fogueiras e substâncias em altas temperaturas. Devido a esse motivo, e para chamar a atenção sobre o outro lado do clima alegre das festas juninas e julinas, foi criado o Dia Nacional de Luta Contra as Queimaduras, celebrado em 6 de junho.

A pesquisadora da UNISO e co-autora do artigo Ângela Faustino Jozala destaca: “Uma pele não íntegra tem como maior problema a contaminação. O paciente fica suscetível a ter uma infecção seja em casos de queimaduras, ferimentos ou feridas ulcerativas e um bom curativo é fundamental nesse processo de recuperação. A bromelina cria essa barreira tão importante, propiciando também atividade antioxidante para diminuir o processo inflamatório de células mortas e pus”.

Alemanha, Itália, Japão, Canadá, Estados Unidos têm ampliado a utilização da bromelina associada a outros princípios ativos pois melhora a absorção de vários medicamentos, o que implica em redução de doses e menor desgaste do organismo durante o tratamento. Seus efeitos terapêuticos já são bem documentados na cicatrização de úlceras gástricas, angina e redução da inflamação em traumas em lesões desportivas, artrites reumatoides, tendinites.

Se “de um limão fazemos uma limonada”, como diz o ditado, o que dirá de abacaxis: que venham, então, muitos, que os transformaremos em tesouros ao nosso bom viver!

ELIANA CORRÊA AGUIRRE DE MATTOS

Engenheira agrônoma e advogada, com mestrado e doutorado na área de análise ambiental e dinâmica territorial (IG – UNICAMP). Atuou na coordenação de curso superior de Gestão Ambiental, consultoria e certificação em Sistemas de Gestão da qualidade, ambiental e em normas de produção orgânica agrícola.