Notícia

Revista Brasil Energia

Descarbonização na indústria de petróleo

Publicado em 31 outubro 2020

Por Ana Luísa Egues

Tecnologias de CCUS em projetos da Petrobras, Shell, quinor e Total para diminuir a intensidade de CO, de suas operações m relatório da Agência Internacional de Energia (IEA), publicado em setembro, conclui que é preciso acelerar o processo tecnológico de descarbonização do setor energético para eliminar completamente as emissões de CO2 ligadas à energia até 2070. A urgência, alerta a agência, deve-se ao fato de o rápido crescimento da demanda por energia dificultar cada vez mais O atingimento desta meta. Mas, afinal, em quais inovações tecnológicas as majors estão apos tando para descarbonizar seus ativos? A Brasil Energia buscou quatro grandes empresas — Petrobras, Shell, quinor e Total — para responder esta pergunta. No caso da Total e da Shell, a meta é zerar as emissões de CO2 até 2050, enquanto a quinor pretende reduzir as emissões em 50% durante o mesmo período. Já a Petrobras assumiu meta de redução de 30% até 2025. A ideia é não ultrapassar as emissões absolutas de gases do efeito estufa vistas em 2015 (78 milhões de t de CO2 equivalente), mesmo com uma maior produção.

CAPTURA, UTILIZAÇÃO E ARMAZENAMENTO DE CARBONO Uma das soluções já empregadas pela Petrobras no pré-sal é a injeção alternada de água e gás (WAG). O projeto, considerado o maior do mundo para captura de carbono no offshore, tem dupla função: a separação e reinjeção de CO2 previne o lançamento do carbono na atmosfera e aumenta o fator de recuperação dos reservatórios. A companhia já injetou 15 milhões de toneladas de CO2 nos campos de Tupi e Búzios, no pré sal da Bacia de Santos. Sua ambição é atingir 40 milhões de toneladas de CO2 injetados até 2025. Outro projeto estudado pela empresa, em parceria com a Siemens, é a turbina de CO2 supercrítico, que aproveita o CO2 em ciclo fechado para geração elétrica. A tecnologia prevê a reutilização dos gases liberados pelas turbinas para aumentar a eficiência energética do sistema e poderá ser aplicada no upstream e no downstream. A Shell, por sua vez, já possui uma tecnologia de CCUS- Carbon, Capture, Utiliza tion and Storage- comercialmente em operação: a Shell Canso lv, que também pode ser utilizada para o tratamento de dióxido de enxofre (SO2). A solução funciona como uma lavagem e captura desses gases no processo produtivo, para remover contaminantes. A Shell Canso lv pode ser usada também em indústrias pesadas, como a de produtos químicos, aço e cimento — segmentos onde as emissões de CO2 são consideradas mais difíceis de prevenir e reduzir. A companhia anglo-holandesa desenvolve ainda, em parceria com a Fapesp, o Centro de Pesquisa em Inovação em Gás Natural (RCGI) da USP, outros estudos para a captura e uso de carbono, abrangendo toda a cadeia de valor da CCUS.

CENÁRIO GLOBAL PRE E POS-COVID Globalmente, as aplicações de CCUS vinham ganhando impulso antes da crise da Covid-19. Novos projetos vêm sendo anunciados desde 2018, concentrados nos Estados Unidos e na Europa, onde há incentivos fiscais e regulatórios. O projeto Northern Lights, para armazenagem de CO2 em rochas na plataforma continental norueguesa, lançado pela quinor, Shell e Total, é icônico. Até o momento, as companhias investiram US$ 670 milhões no projeto. Nos Estados Unidos, pelo menos 15 instalações de grande porte estão em desenvolvimento, incluindo processamento de gás; biocombustíveis e produção de ciBrasil Energia, nº 465, 31 de outubro de 2020 19 TRANSIÇÃO ENERGÉTICA mento; captura direta dear (DAC); e geração de energia a gás e carvão. O crédito fiscal ampliado e as políticas complementares, como o California Low Carbon Fuel Standard, motivaram novos planos de investimento. Em março, o Reino Unido confirmou investimento de USS 995 milhões em infraestrutura de CCUS, incluindo o estabelecimento da tecnologia em pelo menos dois locais. Na Europa, o Fundo de Inovação, de € 10 bilhões, começou neste ano a apoiar projetos CCUS (e outras tecnologias de energia limpa). Em maio, o governo australiano anunciou planos para tornar a CCUS elegível para programas de financiamento existentes. Em junho, os dois projetos da Alberta Carbon Trunk Line no Canadá se tornaram operacionais, aumentando o número de grandes instalações operacionais de CCUS, segundo a ATE, para 21. As instalações de CCUS também estão em desenvolvimento em outros lugares, incluindo Austrália, China e Oriente Médio. O interesse e o compromisso da indústria estão crescendo, incluindo metas de emissões líquidas zero. A crise provocada pela Covid-19, avalia a ATE, coloca em xeque esse interesse recém-renovado na CCUS. O desenvolvimento da tecnologia pode ser afetada pelos cortes de despesas de capital anunciados pelas principais empresas de petróleo e gás.

NOVOS COMBUSTÍVEIS Não apenas em captura e armazenamento de carbono concentram-se os esforços das petroleiras 20 Brasil Energia. nº 465, 31 de outubro de 2020 para descarbonizar suas operações. O processo passa, também, pelo uso de novos combustíveis. É o caso da Total, que atua em dois projetos no segmento marítimo: os barcos de apoio (PSVs) híbridos, que funcionam por meio da geração a diesel e baterias; e um novo sistema de transbordo de petróleo (off loading) realizado a partir de uma embarcação do tipo CTV (Cargo Transfer Vessel), que evita emissões atreladas a uma jornada completa de navio-tanque na logística de exportação de petróleo bruto. Os barcos híbridos estão na fase de instrumentação e desenvolvimento do simulador, com testes previstos para serem realizados em 2022, no campo de Lapa, no pré-sal da Bacia de Santos, enquanto o sistema de transbordo já está sendo testado pela Total no mesmo campo. A companhia francesa também planeja expandir sua rede de postos no Brasil para mais de 1 mil até 2025, de olho no mercado de biocombustíveis, em especial o diesel renovável. Essa é uma aposta também da Petrobras, que produz também o bioQAV, que será obrigatório no país a partir de 2027. Tanto o diesel renovável quanto o querosene de aviação ainda dependem do aval da ANP para serem comercializados. Já a quinor pretende substituir o diesel por gás natural na geração elétrica de quatro plataformas nos campos de Peregrino e Pitangola, na Bacia de Campos, para reduzir as emissões dessas áreas em até 2,2 milhões de t entre 2021 e 2040.

E GERAÇÃO RENOVÁVEL O investimento em fontes renováveis de geração elétrica também faz parte das estratégias das petroleiras para descarbonização, principalmente no curto prazo. Das quatro companhias aqui citadas, destacam-se as ações recentes da Total e da quinor. A Total tem a meta de chegar a 35 GW de fontes renováveis até 2025, sendo a eólica offshore flutuante uma prioridade. A companhia tem participação em quatro parques eólicos em desenvolvimento ao redor do mundo, sendo o primeiro na Coreia do Sul, com capacidade de 2 GW; o segundo no Reino Unido, com capacidade de 100 MW; o terceiro na França, com capacidade prevista de 30 MW; e o quarto no Brasil. Localizado no Rio Grande do Norte, o projeto prevê a construção de duas eólicas on shore denominadas Terra Santa, com 92,3 MW, e Maral, com 67,5 MW, da subsidiária Total Eren. As instalações devem entrar em operação comercial ainda neste ano. Por meio da Total Eren, também atua em energia solar no Brasil, operando duas plantas fotovoltaicas em Bom Jesus da Lapa (BA), com capacidade de 25 MWPp cada, e a usina fotovoltaica de Dracena (SP), formada por três unidades de 30 MWp, que opera desde agosto de 2019. A quinor também tem especial interesse nas eólicas offshore, com a ambição de chegar aos 16 GW até 2035. Recentemente, a norueguesa anunciou parceria estratégica com a BP para o desenvolvimento de dois parques eólicos nos EUA, um em Nova Iorque e outro em Massachusetts, com capacidade total de 4,4 GW. No Brasil, a quinor submeteu ao Ibama pedido de licenciamento ambiental para os parques eólicos offshore de Aracatu I (RJ) e Aracatu II (entre o RJ eo ES), cada um com 2 GW, que pode chegar 2,33 GW. Em energia solar, a companhia tem participação em usina que opera desde 2018 em Quixeré (CE), com 162 MW, Já a Shell, que está remodelando o seu portfólio de ativos com foco na transição energética, afirmou recentemente que prioriza o desenvolvimento de projetos fotovoltaicos no país, mas que não descarta a possibilidade de implantação de eólica offshore, algo que ainda está em estudo. Em abril, a anglo-holandesa encaminhou pedido de outorga à Aneel para a construção de 13 usinas fotovoltaicas no estado de Minas Gerais, com potência instalada conjunta de 480,7 MW. A Petrobras também estuda o desenvolvimento de painéis solares flexíveis e de eólica offshore, mas são projetos a longo prazo, ainda sem muitos detalhes definidos. No caso da eólica offshore, a tecnologia seria usada para fornecer potência para as próprias operações da estatal, diminuindo as emissões de carbono. Em relação aos painéis solares flexíveis, os estudos são direcionados para aumentar a eficiência dessas infraestruturas, que são consideradas mais leves por usarem polímeros na sua constituição. As pesquisas são feitas no Cen pes. Brasil Energia, nº 465, 31 de outubro de 2020 21