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Desastre de Mariana: liberação contínua de fósforo no Rio Doce pode causar morte de peixes sazonalmente, diz Esalq/USP

Publicado em 31 janeiro 2021

Por G1 Piracicaba e região - EPTV

Um estudo aponta que, dois anos após o desastre da barragem de Mariana (MG), os níveis de fósforo dissolvidos na água do Rio Doce ainda ultrapassavam em cinco vezes os permitidos pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). O fenômeno desencadeia a produção em excesso de algas, que pode ter como consequência o risco de mortandade de peixes. Com a continuidade da liberação de fósforo, pesquisadores temem que a contaminação possa acontecer sazonalmente no rio.

O estudo faz parte da tese de doutorado do pesquisador Hermano Melo Queiroz, do programa de pós-graduação em Solos e Nutrição de Plantas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) de Piracicaba (SP). Recentemente, em dezembro, ele foi publicado na revista Journal of Environmental Management.

A pesquisa conta com uma equipe multidisciplinar que vem avaliando os impactos causados pelo desastre de Mariana no estuário do Rio Doce, que incluem também colaboradores internacionais de países como a Dinamarca, Espanha e Estados Unidos.

Após o rompimento da barragem, os rejeitos de mineração, que são ricos em óxidos de ferro, percorreram aproximadamente 600 quilômetros até alcançar o estuário do Rio Doce, em Regência, no Estado do Espírito Santo, onde ele encontra o mar.

"Nesse percurso, ele cruzou por vilas, fazendas e cidades, que podem ter sido fontes de elementos contaminantes, como no caso do nosso estudo recém-publicado, e provavelmente foram as fontes de fósforo que chegaram ao estuário, associados aos minerais presentes no rejeito", explica o pesquisador.

Queiroz afirma que o caminho dos rejeitos até o estuário, e suas consequências, já era previsto pelos pesquisadores. "Em geral, esses minerais são estáveis. E uma vez que esses minerais passam por uma dissolução [na água do estuário], todos os elementos que estavam antes associados a esses minerais são liberados no solo e na água".

Mas as amostras colhidas pelos pesquisadores em 2018, dois anos após o desastre, apontavam que que o nível de fósforo presente no material permanecia cinco vezes acima do permitido.

"Os nossos resultados também indicavam que os óxidos de ferro, como eu falei anteriormente, que são conhecidos pela afinidade por fósforo, na verdade, estariam atuando como fonte no ecossistema estuarino do Rio Doce. O que observamos, então, é que traria um potencial risco de eutrofização devido ao grande volume de fósforo que estaria sendo liberado por esse processo de dissolução dos óxidos de ferro", explica.

A eutrofização é um fenômeno causado pelo enriquecimento de elementos como fósforo e nitrogênio que desencadeia a produção em excesso de algas, o que pode acarretar diminuição da concentração de oxigênio na água e ocasionar a morte de diversos outros organismos, como peixes.

Com a continuidade do processo dois anos após o desastre, a maior preocupação dos pesquisadores é que o fenômeno se repita periodicamente. "Devido à possibilidade de um efeito crônico de liberação de fósforo, oriundo da dissolução dos óxidos de ferro, uma vez que podemos ter um efeito sazonal de mais chegada tanto de rejeito quanto de fósforo ao estuário", completa.

Plantas e bactérias em estudo podem minimizar impactos do desastre

Queiroz explica que, a longo prazo, a maior preocupação dos pesquisadores é que aconteça uma liberação crônica tanto de fósforo quanto de metais pesados no meio ambiente, e que isso aconteça de forma periódica levando mais rejeitos e contaminantes ao estuário.

"Por exemplo, a cada período chuvoso, mais rejeito pode vir a ser depositado no estuário, e consequentemente mais contaminantes. Então, a longo prazo, existem esses riscos ambientais ao ecossistema estuarino."

Inicialmente, as pesquisas foram focadas no sentido de entender como esses processos acontecem, quais os mecanismos envolvidos na liberação de contaminantes para evitar ou minimizar os impactos do desastre a longo prazo.

Um dos estudos desenvolvidos pela equipe que o pesquisador faz parte inclui o uso de plantas com potencial para remediar essa contaminação. "Seria basicamente utilizar plantas capazes de se desenvolverem nas condições atuais do estuário, e que tenham capacidade também de acumular grandes quantidades de contaminantes, como por exemplo, metais pesados", explica Queiroz.

"Além disso, entendendo os mecanismos biogeoquímicos envolvidos no processo de liberação desses contaminantes, como a dissolução dos óxidos de ferro nas condições estuarinas, é possível também elaborar estratégias, como por exemplo, usar bactérias ou condicionantes do solo para forçar processos biogeoquímicos de imobilização desses contaminantes sem trazer prejuízos ao ecossistema", finaliza.

A pesquisa tem a orientação do professor Tiago Osório Ferreira do departamento de Ciência do Solo da Esalq/USP, com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Desastre ambiental

No dia 5 de novembro de 2015, o rompimento da barragem de Fundão, da mineradora Samarco, deixou 19 mortos e causou uma enxurrada de lama que inundou várias casas no distrito de Bento Rodrigues, em Minas Gerais. Ele é considerado o maior desastre ambiental do Brasil.

A barragem do Fundão abrigava cerca de 56,6 milhões de m³ de lama de rejeito. Desse total, 43,7 milhões de m³ vazaram. Os rejeitos atingiram os afluentes e o próprio Rio Doce, destruíram distritos e deixaram milhares de moradores da região sem água e sem trabalho.