Notícia

Correio Popular (Campinas, SP)

Desalento e incompetência

Publicado em 06 novembro 2018

Por Julio Rodrigues Neto

É inegável a importância dos Institutos de Pesquisa (IP’s) do Estado de São Paulo na modernização da agricultura paulista e do país, onde o agronegócio respondeu por 40% do PIB nacional, e cerca de 44,7 % das exportações do país somente no primeiro semestre de 2016 (Forum RAC, 03/10/2017). Melhoria da qualidade dos alimentos ocorre em razão das tecnologias desenvolvidas nos IP's, tanto para o mercado interno e/ou externo, o que exige altos investimentos.

Também, deve ser ressaltada a importante contribuição dos IP’s aos pequeno e médio agricultor, que são os grandes fornecedores de alimentos para a mesa da população e responsáveis por grande número de empregos no País. Por outro lado, o cidadão comum desconhece o processo científico e tecnológico aplicado na produção agrícola, e, para que não ocorra descontinuidade, há a necessidade de investimentos pelo governo. Também, a participação da iniciativa privada nesse processo é fundamental, atendendo regiões e culturas específicas. Convênios com empresas privadas já estão sendo firmados, garantindo de certo modo, a sobrevivência de alguns setores da pesquisa.

Entretanto, é imperativo que o Estado aporte um mínimo de investimento, necessário para assegurar a continuidade da pesquisa pelos Institutos. Marcos Cintra menciona em seu excelente artigo “Inovação e desenvolvimento” (Correio Popular 04/06/2017) que, avaliações mostram que para cada 1% gasto em pesquisa, gera um crescimento de 9,92 % no PIB (Levy Economics). Ainda, segundo Marcos Cintra “.... a inovação deve ser um investimento prioritário no orçamento público em um governo comprometido com o desenvolvimento socioeconômico do País, e, por isso, deve ser imune a cortes nos programas de ajuste orçamentário”. Recentemente, este jornal publicou manifesto por parte de Diretores de alguns dos IP’s do Estado, (“O vigor e competência”, 18/09/2018), onde são expressas meias verdades a respeito da situação atual dos Institutos. Na realidade, o que se observa é uma falta de planejamento e incompetência em políticas publicas por parte dos governantes para revigorar essas instituições.

Dotações pela Fapesp são recursos não ofertados pelo governo, mas verbas previstas na Constituição do Estado, sem ingerência do governo. Tentativas para retiradas de percentuais (10%) do orçamento da Fapesp pelo governo já foram feitas, felizmente estéreis até o momento. Ao longo dos últimos 20 anos, assistimos uma constante perda da capacidade dos IP's em produzir ciência, com sucessivas perdas do seu maior patrimônio, o humano. Uma drástica diminuição no quadro de pesquisadores e pessoal auxiliar vem causando a paralisação de pesquisas, e alguns laboratórios correm risco de fecharem suas portas, haja vista que a última admissão de pesquisadores se deu em 2005, portanto, há 13 anos. Durante esse período, uma razoável evasão de pesquisadores ocorreu, seja por melhor remuneração (quase cinco anos sem reajuste, acarretaram perdas de 46%nos salários), melhores condições de trabalho (o pesquisador desempenha inúmeras outras atividades extra pesquisa, diminuindo o tempo para pensar pesquisa), por aposentadorias ou mortes, sem que houvesse reposição desse pessoal.

O mesmo se verifica com o pessoal de apoio, indispensáveis no auxílio e execução dos projetos. Não há como adiar a recuperação dos IP’s. Afinal, qual o custo para a ciência e tecnologia para a sociedade e economia do País? É de se esperar dos responsáveis pelos IP’s um enfrentamento e terem atitude, mostrar ao novo governo a realidade dos fatos, mostrar o que não foi feito pelo Estado nas últimas décadas, reorganizar os IP’s, definir políticas para regiões específicas, entre tantas outras demandas. É chegada a hora de o Estado investir, recuperar e preservar o enorme acervo científico contidos nos IP’s, sob pena de assistirmos, impotentes, a exemplo do Museu Nacional, mais um “incêndio” silencioso na ciência paulista e brasileira com o desaparecimento dos IP’s. Esperar a catástrofe para depois corrigir? Nada é feito do dia para a noite.

A formação de um pesquisador pode demorar muitos anos, até atingir sua maturidade produtiva. E, como sempre, os responsáveis pela omissão e descaso com os IP’s durante muitos anos, permanecerão sem serem responsabilizados? Por fim, uma vez que os diretores formularam em seu manifesto, convite para visitas aos Institutos, trata-se de uma ótima oportunidade para interessados e demais pessoas (re)conhecerem os institutos, certamente acompanhados por um representante (repórter) do Correio Popular, e sem aviso prévio.