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Jornal da Ciência online

Desafios e oportunidades para jovens pesquisadores brasileiros

Publicado em 12 novembro 2021

“Nos deparamos cada vez mais com estatísticas preocupantes mostrando elevadas taxas de desemprego entre mestres e doutores. Dado o cenário nacional, é inevitável que essa mão de obra especializada busque por alternativas para conseguir continuar suas atividades em outros países”, escrevem Helena Mannochio-Russo, Vanessa Nascimento, Heloise R. de Barros e Marilia Valli, do Comitê de Jovens Pesquisadores da Sociedade Brasileira de Química (JP-SBQ), em artigo para o Jornal da Ciência

O número de mestres e doutores formados todos os anos no Brasil aumenta a cada ano. Segundo dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), a quantidade de pessoas que receberam a titulação de doutorado em qualquer grande área do conhecimento cresceu significativamente e de forma constante, passando de cerca de 2.800 em 1996 para 21.600 em 2017, representando um aumento de mais de 750%. Esse aumento também é um reflexo do aumento de programas de doutorado no país, que passou de 630 em 1996, para 2.223 em 2017. Como resultado, o cenário atual comparado ao de quase três décadas atrás é muito promissor, e os números mostram que o investimento público reflete proporcionalmente o número e qualidade de formação de pessoas altamente qualificadas. Apesar da perspectiva animadora, a quantidade proporcional de doutores formados no Brasil ainda é baixa quando comparada à de diversos países desenvolvidos, como os Estados Unidos, o Reino Unido e a Suíça. Para comparação, a cada 100.000 habitantes, o Brasil formou, em 2017, 10,4 doutores, enquanto a Suíça titulou 49,3 pessoas com o doutorado. Esses dados mostram que ainda há um longo caminho a ser trilhado para nos igualarmos a países desenvolvidos no contexto de pesquisa e desenvolvimento.

Apesar do panorama favorável de crescimento na formação de doutores, um ponto importante a ser considerado é como essa mão de obra altamente qualificada está sendo absorvida no mercado de trabalho nacional e contribuindo para a inovação do país, tanto no setor acadêmico quanto empresarial. Atualmente, menos de 2% dos doutores formados no Brasil migram para a iniciativa privada, e cerca de 95% continuam suas carreiras nas universidades e outros setores públicos. Considerando um cenário mais recente, em 2016, mais de 43.000 bolsas de doutorado foram concedidas. Considerando que essas bolsas têm duração de cerca de quatro anos, a maioria desses estudantes terminou seu doutorado em 2020, em meio a uma grande crise mundial.

Além das dificuldades inerentes de uma pandemia e grave crise financeira, somente cerca de 5.200 bolsas de pós-doutorado foram concedidas no Brasil em 2020, o que representa apenas 11,6% das bolsas de doutorado concedidas quatro anos antes. Dessa forma, quase 90% dos recém-doutores em 2020 não tiveram a oportunidade de conseguir uma bolsa de pós-doutorado para continuar o desenvolvimento de suas pesquisas. Além disso, os concursos públicos também não foram suficientes para absorver o restante dos doutores formados. De 2015 a 2019, houve um aumento de somente 17.000 professores doutores nas instituições de ensino superior do Brasil. Os números mostram que “a conta não fecha”. Nos deparamos cada vez mais com estatísticas preocupantes mostrando elevadas taxas de desemprego entre mestres e doutores. Dado o cenário nacional, é inevitável que essa mão de obra especializada busque por alternativas para conseguir continuar suas atividades em outros países. Nesse sentido, a busca de oportunidades no exterior tem se tornado cada vez mais comum — movimento este que recebeu o nome de fuga de cérebros.

Em meio a tantas incertezas e questionamentos, algumas alternativas emergem como possibilidades para atender essa demanda imediata. Diversas oportunidades de financiamento, apesar de bastante concorridas, têm surgido para incentivar pós-graduandos, pós-doutorandos e pesquisadores em início de carreira. Além das bolsas nacionais mais conhecidas, programas de grande prestígio mundial, em parcerias com o governo brasileiro, selecionam todos os anos centenas de pós-graduandos e pós-doutores brasileiros para realizarem suas pesquisas no exterior. É o caso da Fundação Alexander von Humboldt (Alemanha), da Deutscher Akademischer Austauschdienst (DAAD, Alemanha), do Programa Fulbright (Estados Unidos), da Fundação Carolina (Espanha), do Programa PEW (Estados Unidos), entre muitas outras. Os pesquisadores contemplados por essas bolsas são incentivados a trazer para o Brasil as experiências e conhecimentos adquiridos, após a conclusão do período no exterior, para aplicá-los tanto nas universidades quanto nas empresas brasileiras. O intuito é que isso impacte positivamente a ciência e desenvolvimento nacional e a disseminação do conhecimento. No entanto, um problema recorrente no retorno desses pesquisadores ao Brasil é o fato de não terem estabilidade e infraestrutura adequada para desenvolverem seus projetos de pesquisa. A questão não é somente em ter ou não o financiamento, mas também em ter qualidade e estabilidade frente aos sucessivos cortes e desincentivos à ciência brasileira.

Além de bolsas de aperfeiçoamento no exterior, oportunidades de financiamento com foco no início de uma carreira independente no Brasil também têm se tornado mais frequente. É o caso de programas dos governos federal e estaduais, como os de Jovem Pesquisador (Fapesp) e de Jovem Cientista do Nosso Estado (Faperj), cujo objetivo é impulsionar o início da carreira de jovens doutores e auxiliar no estabelecimento de uma linha de pesquisa independente em instituições brasileiras. Mais recentemente, iniciativas privadas sem fins lucrativos, como o Instituto Serrapilheira, têm aberto diversas chamadas públicas com esse mesmo propósito.

É importante ressaltar também as possibilidades de inserção de mestres e doutores em empresas privadas e startups, principalmente as com foco em pesquisa científica, inovação e desenvolvimento. Recentemente algumas iniciativas vêm surgindo tanto do setor público como privado para a incorporação desses jovens pesquisadores em empresas no Brasil, além de promover o empreendedorismo entre esses jovens altamente qualificados. Entre eles, o programa PIPE (Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas — Fapesp) oferece financiamento para a pesquisa científica e/ou tecnológica em empresas, auxiliando na estruturação e consolidação de empresas com empregabilidade para pesquisadores no mercado. Outro programa da Fapesp, junto ao FNDCT/FINEP, é o Programa Centelha (Programa Nacional de Apoio à Geração de Empreendimentos Inovadores), o qual fomenta a incorporação de ideias inovadoras e novas tecnologias em empresas. Recentemente, a FAPESC criou o programa de Empreendedorismo Universitário Inovador, visando criar incubadoras e pré-incubadoras nas instituições de ensino superior do estado de Santa Catarina. Além dos programas estaduais, um programa federal muito relevante, implementado desde 1987, é o Programa RHAE (Recursos Humanos em Áreas Estratégicas — CNPq), para apoio de projetos em empresas e startups com a inserção de pesquisadores a fim de contribuir para o desenvolvimento tecnológico no Brasil. Diversas são as oportunidades para jovens pesquisadores empreendedores que buscam transferir o conhecimento científico e a tecnologia desenvolvida nos laboratórios das universidades para empresas inovadoras. Futuramente, essas empresas gerarão mais oportunidades a outros jovens pesquisadores, e impactarão positivamente no desenvolvimento econômico e tecnológico do Brasil.

Diante dessas possibilidades, e mesmo das limitações, como podemos aumentar e aprimorar as oportunidades para jovens pesquisadores no Brasil? O que podemos aprender diante do cenário nacional e internacional em termos de pesquisa e desenvolvimento — e, consequentemente, tornar mais atrativo para os jovens pesquisadores brasileiros ficarem no Brasil? Não são perguntas fáceis de serem respondidas, e definitivamente não há ações simples a serem tomadas. Políticas de incentivo à pesquisa, desenvolvimento e inovação, tanto para o setor público quanto privado, são de extrema importância para que os jovens doutores tenham oportunidade de desenvolverem suas pesquisas no Brasil. Precisamos de políticas de estado bem estabelecidas, e precisamos garantir que elas sejam mantidas com a troca de governos. Dessa forma, poderemos fazer do Brasil um país com mais oportunidades para profissionais altamente qualificados, que certamente contribuirão para o desenvolvimento econômico e independência tecnológica brasileira.

Para mais informações:

Plataforma Sucupira e Geocapes (Sistema de Informações Georreferenciadas) – Capes. Acesso em 28 de setembro de 2021.

Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI). Nova Agenda da MEI para ampliar a Inovação Empresarial: o estado da inovação no Brasil. Brasília, 2014. (https://static.portaldaindustria.com.br/media/filer_public/57/19/571942df-3094-4f47-9128-1004c5d9ce1d/agenda_mei_2014.pdf)

Instituto Serrapilheira

https://serrapilheira.org/

Webinários organizados pelo comitê de Jovens Pesquisadores da Sociedade Brasileira de Química (JP-SBQ) – “Ciência pelo mundo: bolsas internacionais para pós-graduação” e “Ciência pelo mundo: bolsas internacionais para pós-doutorado”.

https://youtu.be/msInF76eMSw e https://youtu.be/xGt_iB9IZhs

* O artigo expressa exclusivamente a opinião de seus autores