Notícia

A Folha (São Carlos, SP)

Desafios da USP são melhorar pesquisa e gerar tecnologia

Publicado em 24 janeiro 2009

O número de grupos de pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) cadastrados no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) mais do que dobrou nos últimos 15 anos, passando de 902 grupos, em 1993, para 1.839 grupos, em 2008. A parcela que isso representa no total de grupos de pesquisa registrados no País, porém, encolheu de 20,5% para 8,1%, segundo os dados mais recentes repassados ao Estado pelo CNPq. As estatísticas mostram que a supremacia uspiana está diminuindo à medida que instituições mais jovens crescem em ritmo acelerado por todo o País – apesar de a USP ainda ser, de longe, a instituição de maior peso da ciência brasileira

Várias outras grandes universidades públicas – como UFRJ, Unesp e Unicamp – registraram a mesma tendência, com aumento do número de grupos de pesquisa, mas diminuição da representatividade no bolo nacional. Já a participação das universidades menores aumentou de 46,4%, em 1993, para 67,2%, em 2008. Os números referentes ao ano passado ainda são preliminares, segundo o CNPq, mas a expectativa é que eles flutuem pouco no relatório final que está sendo preparado.

“Acho saudável que outros centros cresçam e tirem um pouco da hegemonia da USP”, avalia o físico Luiz Nunes de Oliveira, professor do Instituto de Física de São Carlos e ex-pró-reitor de Pesquisa da universidade, de 2001 a 2005. O principal desafio da instituição hoje, segundo ele, é elevar a qualidade de sua produção científica. “É muito difícil ter quantidade e qualidade ao mesmo tempo”, diz. “A qualidade cresceu também, mas não na mesma proporção da quantidade.”

Para a atual pró-reitora de Pesquisa da USP, Mayana Zatz, o principal desafio da universidade hoje é aumentar o seu número de patentes e agilizar a transferência de novas tecnologias para o setor privado. “Ainda não temos essa cultura de propriedade intelectual”, diz a geneticista, que está na instituição desde 1965, quando entrou para o curso de ciências biológicas.

O bioquímico Walter Colli, professor e ex-diretor do Instituto de Química da USP, aponta o dedo na mesma direção. “Somos mancos na área de tecnologia”, diz. “Precisamos trazer as empresas para dentro da universidade.” Segundo ele, a integração com o setor privado ainda é visto – erroneamente, na sua opinião – com maus olhos por alguns setores da universidade.

Na Escola Politécnica, que congrega as disciplinas de engenharia da universidade, a aproximação com o setor privado é incentivada. “Temos cerca de 200 convênios e contratos com empresas, mas nem por isso negamos a nossa veia acadêmica”, diz a presidente da Comissão de Pesquisa da Poli, Carmen Tadini. O objetivo, segundo ela, é desenvolver tecnologias e projetos que atendam a demandas diretas da sociedade e do setor produtivo – uma cultura presente desde os primórdios da escola, que foi criada em 1893 (muito antes da universidade) com a missão de projetar um sistema de ferrovias mais inteligente para o escoamento da produção de café.

Investimentos e produtividade

Muito pouco da pesquisa acadêmica na USP é financiada pela própria universidade, que gasta a maior parte de seu orçamento com manutenção e salários. Para desenvolver suas pesquisas, os cientistas concorrem por verbas nas agências de fomento federais e estaduais.

As estatísticas de investimento em bolsas e fomento à pesquisa do CNPq mostram que o volume de recursos federais obtidos pela USP entre 1996 e 2007 aumentou de R$ 79,6 milhões para R$ 133,7 milhões. A participação da universidade no total, porém, diminuiu de 15,1% para 11,6%. Vários cientistas entrevistados pela reportagem ressaltaram a importância da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) no apoio financeiro à ciência paulista. “A presença da Fapesp foi muito importante para as pesquisas no Estado e a USP se beneficiou enormemente disso”, diz o médico Marco Antonio Zago, presidente do CNPq e professor titular da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP desde 1973.

O Estado de São Paulo tem uma produção científica maior do que a de alguns países da América Latina, como México, Argentina e Chile. A USP contribui com metade dessa produção. Nas estatísticas de produtividade per capita (número de trabalhos publicados por pesquisador), a USP fica atrás de algumas instituições (em parte por causa das ciências humanas, que são um ponto forte da universidade, mas que produzem menos publicações do que as área biológicas e exatas), mas continua entre as cinco primeiras.

“Isso mostra que a universidade não só produz muito por que é grande, mas também porque é produtiva”, avalia o professor Leandro Faria, do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Para Walter Colli, a supremacia uspiana deve-se mais a fatores quantitativos do que qualitativos. “A USP não é necessariamente melhor do que as outras; é apenas maior”, diz. “Se a Unicamp fosse do tamanho da USP, seria tão boa quanto.”