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Desafios da USP aos 80 anos

Publicado em 03 dezembro 2014

Por Karina Toledo, da Agência FAPESP

Conciliar a necessidade de expansão com o fortalecimento dos núcleos de excelência já existentes; incentivar a internacionalização e a interdisciplinaridade de forma a aumentar o impacto de sua produção acadêmica. Esses são alguns dos desafios que a Universidade de São Paulo (USP), que completa 80 anos de fundação, terá de enfrentar nos próximos anos para continuar ocupando uma posição de destaque na sociedade brasileira.

O tema foi debatido na segunda-feira (24/11), no encerramento do ciclo de debates “A USP e a Sociedade”, por quatro “uspianos” de destaque dentro e fora do meio acadêmico: o sociólogo e ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, o ex-ministro e atual presidente da FAPESP, Celso Lafer, o ex-reitor da USP e ex-ministro José Goldemberg e o ex-presidente da Academia Brasileira de Ciências e atual vice-presidente da FAPESP, Eduardo Moacyr Krieger.

Lafer, que coordenou a mesa de debates, destacou que o “DNA da pesquisa integrou, desde o momento inaugural, a criação da USP”. Conforme lembrou, a universidade agregou instituições de ensino e pesquisa importantes do Estado de São Paulo, como o Laboratório de Resistência dos Materiais da Escola Politécnica, cujo objetivo era a formação de profissionais e a realização de pesquisas aplicadas.

“A ideia de criar a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras [ atualmente Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas] era inserir, como parte da visão de futuro da universidade, o assim chamado saber desinteressado. O que se buscou institucionalizar com a criação da universidade era a noção de que, sem o conhecimento aprofundado e o saber desinteressado – que é hoje o equivalente à pesquisa básica –, não se dará o apropriado andamento à sua aplicação”, disse.

Essa proposta foi, segundo Lafer, consolidando-se ao longo dos 80 anos de existência da USP por meio de medidas como a criação dos Fundos Universitários de Pesquisa, em 1942, que inspiraram a criação da FAPESP.

Em seguida, Krieger destacou importantes contribuições de pesquisadores da USP nas áreas de Ciências Biológicas, como o estudo com a molécula bradicinina e com peptídeos do veneno de jararaca, que abriram caminho para o desenvolvimento dos principais fármacos hoje usados no controle da pressão arterial.

Krieger também ressaltou o grande crescimento da produção científica brasileira, que passou de 3 mil artigos anuais na década de 1980 para 40 mil nos dias atuais, colocando o Brasil na 13ª colocação no ranking mundial. Segundo ele, cerca de 50% da produção acadêmica do país é feita em São Paulo, sendo que a USP isoladamente responde por 25% do total.

“Mas quando olhamos o ranking de impacto, usando como critério o número de citações, o Brasil está na 23ª posição. Temos um índice de impacto 40% abaixo da média mundial e esse índice vem se mantendo há muitos anos”, disse.

Duas medidas são, na avaliação de Krieger, fundamentais para reverter o quadro: o aumento da colaboração internacional e a pesquisa multidisciplinar.

Para Krieger, o país ainda está na fase de expansão do ensino superior e há necessidade de aumentar o número de doutores. “É preciso haver políticas distintas para a expansão e para a concentração [de excelência]. É preciso separar grupos emergentes e grupos de excelência. São complementares, porém diferentes, e não se deve escolher um em vez do outro”, opinou.

Ao comentar o tema, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso defendeu a necessidade de haver um equilíbrio entre excelência e extensão. “Não podemos dispensar núcleos de excelência nem ter vergonha por serem de excelência. Ao mesmo tempo, não se pode imaginar que qualquer país possa viver apenas de núcleos de excelência. Quem é de excelência se globaliza naturalmente, não precisa fazer força, é sugado. Mas e o resto? Como vamos continuar produzindo gente boa se não houver uma média elevada? Precisa haver essa cooperação”, comentou.

Na avaliação do ex-presidente, que é professor emérito da USP, um dos fatores que explicam o baixo impacto da produção acadêmica brasileira é a barreira linguística – segundo ele um dos grandes desafios que os pesquisadores da área de Ciências Sociais terão de superar nos próximos anos.

“Quem não domina inglês e espanhol está fora do grande eixo de produção cultural do mundo contemporâneo”, disse.

Ao avaliar o impacto social da USP ao longo de seus 80 anos, o ex-presidente afirmou que o “estilo de relacionamento entre o poder e o saber [da universidade] ajudou na democratização do Brasil”. Disse ainda que, sem a criação da FAPESP nos moldes de instituições internacionais existentes, como a National Science Foundation (NSF), dos Estados Unidos, e o Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), da França, a USP dificilmente teria alcançado os bons resultados que apresenta hoje.

“O milagre da FAPESP foi a adoção de critérios objetivos. Não haver interferência política, limitar o apadrinhamento, não haver patrimonialismo. Isso é democracia e foi criado aqui dentro, basicamente pela Universidade de São Paulo. E teve um efeito enorme, também em outros estados que multiplicaram o modelo. Financiamento adequado, que permite ao pesquisador formular o seu trabalho segundo seus critérios científicos, sem interferência política e com recursos que, se não são abundantes, são razoáveis, permitiu um grande salto adiante”, comentou Fernando Henrique Cardoso.

Já em sua exposição, Goldemberg afirmou que o decreto de criação da universidade destacou a ideia permanente da “ciência pela ciência”, mas não contemplou adequadamente dois componentes importantes: ensino fundamental (licenciatura) e tecnologia.

“É uma fraqueza intrínseca à criação da Universidade de São Paulo. Era 1934 e o mundo estava mudando naquela época. O Brasil vivia a Era Vargas. Havia modernização e industrialização no país”, disse.

Goldemberg destacou como uma importante contribuição da USP à sociedade brasileira o desenvolvimento da energia nuclear para fins pacíficos no Brasil.

Por último, defendeu a necessidade de políticas macroeconômicas que estimulem o desenvolvimento científico e tecnológico e disse que nenhuma universidade evolui se não houver demanda da sociedade.

“A universidade atua como supridora de ciência e tecnologia, mas precisamos estimular a demanda. Nas áreas em que isso foi feito, a universidade respondeu muito bem, como, por exemplo, a soja e o programa de etanol”, avaliou.

Finalizando o debate, o reitor da USP, Marco Antonio Zago, afirmou que, nos rankings internacionais, a USP é comparada com universidades que têm em média 17 mil estudantes, como é o caso da Harvard University e do Massachusetts Institute of Technology (MIT), ambos nos Estados Unidos.

“Somos a maior universidade pública do Brasil, com 90 mil estudantes. Fazemos com excelência duas missões: produção de conhecimento e formação de pessoal qualificado. Há sim que atender anseios de expansão, mas não creio que seja possível continuarmos um processo de expansão que não comprometa a missão central da Universidade de São Paulo, relacionada com a preservação e a transmissão da cultura, a criação e a transferência do conhecimento, na medida do possível atendendo ao maior número de alunos. Esse limite está se aproximando com os recursos que temos”, disse o reitor.

Conforme lembrou Zago ainda no início do evento, o ciclo de debates integra as comemorações dos 80 anos da USP e busca reforçar a necessidade de que a universidade fortaleça seus vínculos com a sociedade.

Também estiveram presentes o vice-reitor da USP, Vahan Agopyan, o pró-reitor de Graduação, Antonio Carlos Hernandes, a pró-reitora de Pós-Graduação, Bernadette Dora Gombossy de Melo Franco, a pró-reitora de Cultura e Extensão Universitária, Maria Arminda do Nascimento Arruda, e o presidente da Agência USP de Cooperação Acadêmica Nacional e Internacional, Raul Machado Neto.

Agência FAPESP