Notícia

Jornal do Brasil

Desafios da pós-graduação

Publicado em 29 outubro 1996

Por JOSÉ FERNANDO PEREZ *
Os últimos 30 anos testemunharam um expressivo desenvolvimento da ciência brasileira, com uma produção científica que cresceu muito e apurou significativamente sua qualidade. Esses fatos estão bem quantificados no excelente trabalho dos professores Jacqueline Leta e Leopoldo de Méis sobre A Ciência no Brasil, onde se constata que a produção brasileira publicada em periódicos listados pelo Institute for Scientific Information (ISI) passou de 0,28% da produção mundial, em 1981, para 0,53%, em 1993. Segundo os indicadores usados no estudo, a qualidade dessa produção reproduz a média internacional. Se a esses números agregarmos a enorme, e ainda não aferida, parcela de trabalhos de excelente qualidade publicados em veículos nacionais não incluídos na lista do ISI, constataremos uma variação ainda mais significativa. Esse impressionante resultado é conseqüência direta do vigoroso sistema de pós-graduação criado na universidade brasileira e do grande investimento no financiamento da pesquisa e na formação de recursos humanos pelas agências de fomento. Por outro lado, temos de constatar que, apesar desse crescimento, somos ainda uma comunidade relativamente pequena de pesquisadores. E essa é identificada no estudo de De Méis e Leta como sendo a maior dificuldade de nosso sistema de ciência e tecnologia. Aqui reside o nosso calcanhar-de-aquiles. Somos cerca de 20 mil pesquisadores (dados do CNPq de 1994), enquanto os Estados Unidos contam com cerca de 450 mil doutores. Nossa comunidade é pequena, tanto para contribuições científicas de ainda maior impacto, como para a necessária atividade de transferência de conhecimento para o setor produtivo e para influenciar políticas públicas de forma mais expressiva. Qualquer definição consistente de prioridades na formulação de uma política científica e tecnológica deve, portanto, incluir uma mudança de escala no número de pesquisadores. Na implementação dessa política, o sistema de pós-graduação será, novamente, o instrumento decisivo. Assim, a pergunta que cabe é: está o nosso sistema de pós-graduação preparado para dar sua necessária contribuição para a superação dessa deficiência? O estudo apresentado pelo professor Jacques Velloso corrobora a percepção generalizada de que isso só será possível se algumas sérias distorções forem rapidamente corrigidas. A principal delas é o tempo claramente excessivo que os programas de pós-graduação têm levado para a formação de um pesquisador. Não é compatível com esse desafio que, em média, a carreira de pesquisador se inicie aos 38 anos de idade. Estamos formando pesquisadores velhos, que terão passado grande parte de suas carreiras acadêmicas em processo de formação! Há várias causas possíveis para esse fenômeno. Uma delas é, sem dúvida, a exigência, que ainda persiste na prática, de um mestrado como etapa intermediária necessária dentro do processo de formação do pesquisador. O mestrado desempenhou um papel decisivo no processo de implantação da pós-graduação brasileira, principalmente pela inexistência de uma capacidade de orientação para doutorado. Essa circunstância está claramente superada em muitas áreas do conhecimento e instituições. É urgente uma reflexão sobre o papel do mestrado no novo contexto. Embora essa urgência já tenha sido amplamente reconhecida, o sistema tem sido muito tímido em discutir e implementar mudanças. Essa reflexão deverá, é claro, respeitar as especificidades de cada área do conhecimento, de cada instituição e da região do país. Deverá ser estimulado, sempre que possível, o doutorado, sem um mestrado intermediário, com prazos flexíveis (por exemplo, cinco anos). Parece razoável, na maioria das áreas, que o mestrado, enquanto entendido como um passo intermediário na formação do pesquisador, não deva exceder dois anos. Uma segunda causa não menos relevante para esses prazos anômalos tem a ver com o fato de que os cursos de pós-graduação, em muitos casos, têm sido mais um instrumento de titulação do que de autêntica formação de pesquisador. Isso pode ser constatado pela fração relativamente pequena de doutores do nosso sistema universitário ativa e produtivamente envolvidos em atividade de pesquisa. Não menos importante será a revisão, por parte das agências de fomento, da atual sistemática de distribuição de quotas de bolsas institucionais, que não permite um acompanhamento e uma avaliação com a eficiência necessária. A bolsa só deve ser concedida para orientadores e grupos de pesquisa produtivos. Mais do que um direito de todo aluno de pós-graduação, ela é um investimento do Estado na formação de pesquisadores Sua concessão deve, portanto, pautar-se por critérios seletivos decorrentes dessa definição. O complemento essencial dentro desse processo de revisão deverá ser a garantia de apoio aos projetos de pesquisa desses jovens pesquisadores que já vêm sendo produzidos pelo sistema. Trata-se de um capital precioso, resultado de um pesado investimento e que corre o risco de ser perdido por falta de consistência. Finalmente, não posso deixar de expressar minha preocupação com a política de enviar bolsistas de doutorado para o exterior. A excelência de uma pós-graduação está na proporção direta da excelência de seus alunos. Em muitas áreas do conhecimento, a produção dos grupos de pesquisa é estritamente dependente de seus pós-graduandos e de seus pós-doutores. Uma política que privilegie o envio para o exterior de nossa excelência contribui para uma mediocrização de nosso sistema de pesquisa. Dados os altíssimos custos envolvidos, deveríamos estudar a alternativa mais barata, mais eficaz e já testada, de trazer pesquisadores do exterior e de utilizar a sistemática de bolsas sanduíche que permite aos bolsistas desenvolverem parte de seus projetos no exterior. É imperioso que os programas de pós-graduação e as agências de fomento respondam a esse desafio. * Diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo