Notícia

Gazeta Mercantil

Desafio da qualidade nas exportações

Publicado em 05 julho 2005

O desafio que cerca o futuro da corrente de comércio brasileira pode ser avaliado pelo tamanho do "problema chinês". No período entre janeiro e maio deste ano, enquanto os chineses venderam ao Brasil produtos que em média, por tonelada, custaram US$ 1.585,25, pagaram ao País apenas R$ 86,17 por tonelada comprada dos brasileiros. Peças para transmissores e receptores são o principal item importado da China, enquanto o primeiro item disparado na nossa pauta de exportação é minério de ferro.
O perfil do relacionamento comercial com a China está longe de ser caso isolado. Repetir que a balança comercial desafia o dólar baixo e continua a quebrar recordes, é viver em otimismo míope. Não há dúvida de que é importante o recorde histórico de US$ 10,2 bilhões nas exportações de junho, totalizando US$ 53,6 bilhões no primeiro semestre, com um superávit comercial de US$ 19,6 bilhões. Porém, quando dessazonalizados, a exportação de produtos básicos avançou 7,7%, a de semimanufaturados 7,8%, mas a venda de manufaturados diminuiu 2,1%, na comparação entre o primeiro e o segundo trimestres.
Os principais produtos da pauta de exportação brasileira - minério de ferro, soja e automóveis - têm custo por tonelada de US$ 25,35, US$ 223,08 e US$ 6.523,88, respectivamente. Em termos de "vantagens comparativas", o Brasil está exportando bens de menor qualificação tecnológica; vale notar que o segundo item da pauta de importação é autopeças, com custo por tonelada de US$ 6.409,09.
O principal produto de exportação das montadoras brasileiras é o modelo popular, com decisões de compra marcadas por diferenças de apenas US$ 100. Nos cinco primeiros meses do ano, as exportações desse setor foram 35% maiores que no mesmo período do ano passado. As montadoras não acreditam na continuidade dessa expansão porque o câmbio poderá derrubar essa conquista. Sem esquecer que as peças com maior ganho tecnológico nos carros exportados são importadas: variando o modelo, os índices de nacionalização desses carros oscilam em torno de 50%.
O consultor Carlos Antonio Rocca lembrou que, quando aumenta o número de horas de trabalho qualificado incorporado no produto, "cresce o valor por unidade de peso". Este é o ponto essencial. Qualificar a pauta de exportação depende, obviamente, de evolução tecnológica. Nesse aspecto, o avanço brasileiro é frágil.
Apesar dos esforços do governo com a nova política industrial e de pesquisa, relatório divulgado em janeiro pela Organização Mundial de Propriedade Industrial (OMPI) mostra que o Brasil tem posição irrelevante no que se refere à inovação tecnológica: o País foi responsável por apenas 0,2% das patentes internacionais registradas em 2003. O percentual é incompatível com a participação brasileira no comércio internacional, que atingiu 0,9% nesse ano. O Brasil pediu 221 patentes, contra, por exemplo, 336 da África do Sul, ou 13,9 mil da Alemanha, 16,7 mil do Japão e 41,2 mil dos EUA .
Estudo da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) - Indicadores de Ciência, Tecnologia e Inovação em São Paulo -, referente aos anos de 1999 e 2002, mostrou por que apenas 7 dessas 221 patentes foram registradas por universidades. Artigos de professores brasileiros publicados nesses anos em revistas internacionais aumentaram 54%, enquanto a média de crescimento desse tipo de produção científica em países industrializados foi só de 9% no período.
A conclusão da FAPESP sobre essa diferença foi objetiva: "o forte crescimento da produção científica brasileira parece ainda não produzir efeito real no incremento da produção tecnológica e na intensificação dos esforços de inovação das empresas". Ou seja, enquanto produzimos textos para gerar saltos na burocracia acadêmica, os concorrentes geram tecnologia aplicada.
O resultado visível dessa escolha está no perfil da pauta de exportação brasileira. Com todos os prejuízos na nossa capacidade de alcançar maior valor por tonelada exportada, gerando, de fato, produtos e empregos de qualidade.
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Apesar do recorde de junho, manufaturados perderam mercado. Qualificar a pauta de exportação depende de evolução tecnológica