Notícia

Claudia

Desafio da mulher cientista no Brasil

Publicado em 01 janeiro 2007

São 29 anos, a gaúcha Solange Binotto Fagan é uma autoridade em sua área, a nanotecnologia, ramo da física que estuda partículas 1 bilhão de vezes menores do que a espessura de um fio de cabelo. Nos últimos três anos, os resultados de suas pesquisas foram mencionados em cerca de 200 artigos publicados nas melhores revistas cientificas do exterior, o que fez dela quase uma celebridade nos congressos de que participa. Ao conhecer pessoalmente a jovem loira e risonha, porém, cientistas do mundo inteiro perguntam desconfiados: "Você é miss, Fagan?" Formada pela Universidade Federal de Santa Maria (RS), onde também fez mestrado e doutorado, ela dá aulas numa instituição privada na cidade gaúcha, o centro Universitário Franciscano (Unifra). E continua pesquisando nanotubos, cápsulas tão pequenas que, entre outras aplicações, seriam capazes de atingir camadas mais profundas da pele, levando medicamentos e cosméticos e tornando-se mais eficazes. Em setembro, conquistou uma bolsa de 20 mil dólares, concedida pela empresa francesa L'Oreal a jovens cientistas brasileiras. "Quando descubro algo novo, é uma iluminação! Deve ser o equivalente um gol."
Segundo o último censo, de 2004, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico (CNPq), maior agencia brasileira de incentivo a pesquisa, as mulheres são maioria entre os pesquisadores na faixa dos 20 aos 29 anos. Conquistaram 52% das bolsas de mestrado, 49% das de doutorado e 49% das pós-doutorado. "Há um crescimento muito grande da participação da mulher na produção de conhecimento", observa Carlos Vogt, presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), agencia que em 2005 distribui 4002 bolsas. "Elas estão cada vez mais presentes nas ciências da vida, como a biologia, que talvez concentre o maior volume de investimentos no mundo", completa ele. Em 2004, pela primeira vez, as mulheres venceram todas as categorias do Prêmio Jovem Cientista, vinculado ao CPNq.
Talentosas e barulhentas, elas conquistam visibilidade na raça, desbravando searas tradicionalmente masculinas. Mas ainda há muito a ser feito, e os desafios que as esperam são imensos."O maior desafio é lidar com a vida múltipla de ser cientista, esposa e mãe, numa jornada tripla", afirma Mayana Zatz, numa das mais prestigiadas cientistas brasileiras é pró-reitoria de pesquisa da USP. "Quando a mulher tem filho, obviamente fica com menos tempo para a pesquisa e acaba perdendo competitividade em relação aos homens na carreira." Os números do censo do CNPq corroboram essa tese: a partir dos 30 mios, a presença feminina declina. Não é difícil imaginar que entrando na terceira década de vida, muitas pesquisadoras decidam que é chegada a hora de ser mãe. Se para a maioria das mulheres que trabalham fora essa é uma decisão delicada, pan as cientistas pode ser um divisor de águas entre o laboratório e o ostracismo. "Para investir no sonho profissional, a mulher tem que adiar o da maternidade", explica a física Solange. Só agora, chegando aos 30 e casada há três anos com o funcionário público Fábio Dutra. ela começa a pensar no assunto — com um misto de alegria pessoal e apreensão pela carreira. "A pesquisa é quase um sacerdócio, com jornadas de 12 a 14 horas de trabalho, sem sábado nem domingo", pondera Léa Velho, professora titular do departamento de política científica e tecnológica da Unicamp. "Depois da maternidade, poucas manterão esse ritmo. E. se mantiverem, pagarão um preço alto: a culpa."

Mulheres sem filhos 
Há mais um problema: parte significativa da manda dos jovens pesquisadores vem de agências de incentivo, como o próprio CNPq e a Fapesp, na forma de bolsas por tempo determinado. Se ocorre uma gravidez no meio do mestrado, a mulher precisa se virar para concluir o trabalho no prazo; na melhor das hipóteses terá direito a uma prorrogação não remunerada. "Comecei a perceber que na minha área, a astronomia, muitas mulheres não casaram ou, se casaram, não tiveram filhos", observa a astrofísica Adriana Silva, 41 anos, dona de um currículo respeitável, que inclui mestrado na USP, doutorado e pós-doutorado nos Estados Unidos. "Se foi urna opção respeito. Mas vejo que quase sempre, elas adiaram os projetos pessoais até não dar mais tempo de realizá-los." Adriana estuda as explosões solares e seus efeitos — a idéia é, algum dia, ser capaz de prever o clima espacial e evitar que a atividade solar intensa danifique satélites ou seja letal a astronautas trabalhando fora de suas estações espaciais. Teve duas filhas. Thaís, hoje com 17 anos, durante o mestrado, e Beatriz, de 14. no meio do dou- topado, e sabe o sufoco que passou. "Felizmente eu tinha uni marido que dividia tudo", conta ela, que hoje trabalha no Centro de Radioastronomia e Astrofísica Mackenzie, vinculado à Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. Mandões ajudam muito, mas não bastam. Reunidas no Rio de Janeiro em 2004 para a Conferência de Mulheres em Ciências Exatas e da Vida, pesquisadoras de sete países latino-americanos denunciaram as barreiras no caminho da mulher cientista e propuseram licença-maternidade paga creches nas universidades e subsídios pan quem interrompe a carreira pan ser mãe e deseja voltar. Um estudo realizado em 2002 no Brasil pela Organização das Nações Tinidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) concluiu que há outros entraves no caminho das cientistas, como a crença em idéias do tipo: pro fissionais bonitas são incompetentes: as mulheres são menos talentosas, porém mais organizadas; elas se dão melhor nos laboratórios porque as práticas são pareci das com a rotina de trabalho doméstico. "Na minha graduação, havia uma piadinha: quando a mulher nascia, tinha que escolher entre ser bonita ou fazer engenha ria", lembra a pesquisadora Carla Macário, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Aconselhada por um professor, ela desistiu da engenharia elétrica ("Isso é coisa de homem", disse ele) e cursou ciências da computação na Universidade de Brasília. Hoje, aos 38 anos, faz doutorado na Unicamp. Quer desenvolver um sistema para refinar buscas na internet, uma área em expansão conhecida como web semântica. Cada é a mais velha da turma porque interrompeu a carreira para ser mãe e só voltou oito anos depois. Ela pondera: "Para ter filho, a gente tem idade certa porque o corpo envelhece, mas para estudar, não: a mente sempre acompanha". O tempo agrega sabedoria, e em nenhum campo isso é mais verdadeiro do que na pesquisa científica. Mesmo assim, as mulheres esbarram no teto de cristal: avançam até certo ponto e estacionam. "Há um número crescente de jovens cientistas na base da pirâmide, mas as que chegam ao topo, como Mayana Zatz, são poucas", diz a socióloga Fanny Tabak, autora de O Laboratório de Pandora — Estudos sobre a Ciência no Feminino (Ed. Garamond). Primeira mulher a dirigir o Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, desde a sua fundação, há 106 anos, a médica Tânia de Araújo-Jorge, 49 anos, pesquisadora da doença de Chagas. conseguiu quebrar a regra. "Meu desafio aqui é o de todos os que ingressam na carreira científica: fazer o novo, e um novo que faça sentido para a sociedade, que nos financia e demanda o nosso trabalho". diz ela. Por que são tão poucas? A professora Léa Velho oferece algumas explicações. Como cabe à mulher, tradicionalmente a maior parte da responsabilidade pelos cuidados com a casa e a família, ela participa menos de congressos internacionais, trampolim certo para novos contatos e atualização. A discriminação, muitas vezes velada, também atravanca a trajetória.

Intuição e preconceito
Recentemente, duas pesquisadoras suecas avaliaram os critérios das instituições científicas de seu país para a concessão de bolsas, Um fato as intrigava: embora a proporção ficasse em meio a meio na hora de pedir o auxílio, as mulheres levavam apenas 20% dos benefícios. Comparando a produção científica de homens e mulheres, elas descobriram que as pesquisadoras tinham que ser duas vezes e meia mais produtivas do que seus colegas para garantir a ajuda financeira. "No Brasil também, e não é que o examinador seja mau-caráter ele só tem um olhar diferente para homens e mulheres" diz Léa. Tanto é assim que, segundo o estudo da Unesco, vigora no meio científico a crença de que a mulher pensa de manei ra diferente dos homens e ouve sua intuição. Esses estereótipos reforçam a idéia de que há uma distância intelectual entre os sexos, sendo os homens mais dotados para a ciência — preconceito alardeado pelo ex-reitor de Harvard, Lawrence Summers, aquele que falou sobre a "inabilidade nata das mulheres para a ciência?' e renunciou ao cargo em fevereiro de 2006, após multa polêmica. Para erradicar o preconceito, é preciso, além de transmitir desde cedo o gosto pela ciência às meninas, mostrar aos meninos que não há nada de c nisso. A geração da biomédica Mônica Andersen. 33 anos, que trabalha no Instituto do Sono tia Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), já colhe os frutos da presença feminina crescente e não vê preconceito. "Pelo contrário: os homens apóiam completamente a minha pesquisa", diz ela, rindo. Mônica investiga em ratinhos os efeitos da privação de sono — um deles, a ereção. Suas descobertas foram publicadas em re vistas internacionais e tiveram tanta repercussão que, contrariando a tendência, tomou-se professora da Unifesp antes do pós-doutorado. Solteira, ela curte passear nos shoppings de São Paulo nas horas vagas, à procura de sapatos, que adora. Talvez para caminhar a passos largos no desenvolvimento de sua maior paixão: a ciência.