Notícia

Jornal do Brasil

Depois do temporal

Publicado em 06 agosto 2000

Por SÔNIA CARNEIRO
BRASÍLIA - Os presidentes da República, Fernando Henrique Cardoso, do Senado, Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), e o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Aloysio Nunes Ferreira, saíram prestigiados da operação que culminou com o depoimento de Eduardo Jorge Caldas Pereira na Subcomissão do Senado para esclarecer o suposto envolvimento no desvio das verbas superfaturadas do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo. O suspense que manteve o governo paralisado por quase um mês foi substituído por uma sensação de alívio que deverá durar pelo menos até a conclusão dos trabalhos da Subcomissão do Senado e do Ministério Público. A base aliada temia que a imagem do presidente fosse duramente arranhada às vésperas das eleições municipais, mas Fernando Henrique deu uma demonstração de força ao bancar a defesa do ex-assessor. "Caso encerrado", comemorou o presidente depois das mais de sete horas de inquirição do ex-assessor na quinta-feira. Defensor - O presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), também saiu do episódio fortalecido. Depois de trocar farpas com Fernando Henrique Cardoso e manter com ele uma relação marcada por altos e baixos, o senador foi reabilitado pelo Palácio do Planalto porque foi o primeiro governista a defender o presidente e seu governo da ameaça de uma comissão parlamentar de inquérito para investigar Eduardo Jorge. Foi Magalhães quem sugeriu que o rumo das investigações se dirigisse aos juizes e funcionários do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo e do Tribunal Superior do Trabalho, que tocavam as obras e controlavam as despesas da construção do prédio. Há mais de um mês as denúncias contra o juiz Nicolau dos Santos Neto, foragido da Justiça, mantinham o país em suspense e a base aliada em polvorosa com medo de que Fernando Henrique fosse atingido. No Palácio do Planalto, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Aloysio Nunes Ferreira, comandou a ação para neutralizar a ofensiva oposicionista de criação da CPI do caso Eduardo Jorge. Reuniu os aliados e pôs a assessoria jurídica do Planalto para analisar os documentos sobre o desvio das verbas. Férias - Aloysio foi um dos autores da primeira nota oficial do palácio alertando que o orçamento do Judiciário é "impositivo" e que o governo não tinha culpa no desvio das verbas usadas de forma autônoma pelos tribunais. Mas viajou um dia depois para Paris, onde passou 15 dias, em plena crise. Durante esse período apareceram os créditos suplementares assinados por Fernando Henrique para a obra do TRT-SP e as denúncias de tráfico de influência por parte de Eduardo Jorge. O chefe da Casa Civil, Pedro Parente, teria ficado irritado com a ausência de Aloysio. A semana, porém, chega ao fim com os dois ministros executores das decisões presidenciais de bem. Na quinta-feira, Parente foi até o gabinete de Aloysio assistir ao depoimento do ex-secretário. "Nossa relação é muito boa. Somos cada vez mais amigos", disse Aloysio sobre sua relação com Parente. "Agora será a minha vez de tirar férias", brincou Parente. Também o líder do governo no Senado, José Roberto Arruda (PS-DB-DF), acabou subindo na cotação palaciana. Preterido na campanha de 1998, quando Eduardo Jorge preferiu engajar o comitê eleitoral de Fernando Henrique no apoio à candidatura do governador Joaquim Roriz, do PMDB. Arruda se retirou da Subcomissão do Judiciário para evitar constrangimentos a Eduardo Jorge. Apesar de desafeto do ex-secretário. Arruda se empenhou na defesa do governo e preparou o ensaio geral dos senadores com o comando político no Palácio do Planalto. Presidente superou a tensão e até brincou BRASÍLIA - Quem lucrou com a crise provocada pelo caso Eduardo Jorge foi o professor Luiz Hidelbrando Pereira da Silva. Na quarta-feira à noite véspera do depoimento do ex-secretário-geral da Presidência da República, Fernando Henrique Cardoso levou para corrigir e revisar no Palácio da Alvorada textos do capítulo do livro de memórias de Luiz Hidelbrando sobre a Fundação Arquivo e Pesquisa de São Paulo (Fapesp). No dia do depoimento, o presidente entregou o capítulo revisado e com anotações nas mãos do secretário-geral da Presidência da República, Aloysio Nunes Ferreira, para que fosse encaminhado a Hidelbrando. Aloysio ficou surpreso com o sangue frio de Fernando Henrique, que, aparentemente, não demonstrava preocupação com o que o ex-secretário poderia dizer à Subcomissão do Senado e ainda tinha tempo para se dedicar a um trabalho intelectual que poderia ser feito por assessores. "Isso significa que o presidente estava tão tranqüilo que levou o trabalho para fazer de noite em casa e não se preocupou com nada. É a consciência tranqüila e a confiança", comentou Aloysio. O ministro, que chegou a demonstrar algum nervosismo, ficou impressionado. Fernando Henrique Cardoso também chegou a fazer piadinhas antes, durante e depois do depoimento de Eduardo Jorge. No dia, quando assistia a parte inicial da exposição no Palácio da Alvorada ao lado do cientista Bolívar Lamounier e do professor Wilmar Faria, assessor especial da Presidência da República, o presidente imitava os gestos de Eduardo Jorge comi as mãos contando "um, dois, três e quatro" e revirando-as tal como fazia o ex-assessor. "Ele está muito bem. Mas, como sempre, nervoso." Fernando Henrique não resistiu em fazer uma brincadeira com o pescoço e os gestos de Eduardo Jorge. "Ele está é com medo que lhe cortem o pescoço", riu o presidente já em sua sala no Palácio do Planalto.