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USP - Universidade de São Paulo

Depoimentos resgatam memórias de vida e ajudam a identificar as rotas de fuga

Publicado em 16 outubro 2009

Em um dos links do Portal Arqshoah, os internautas terão acesso a arquivos de áudio e/ou vídeo que registram as histórias de vida de sobreviventes do Holocausto. De acordo com a pesquisadora Raquel Mizrahi, coordenadora do Núcleo de História Oral do Arqshoah, trata-se de um trabalho enriquecedor em que cada depoimento traz um novo aspecto ao tema, apresentando sempre um dado que não havia sido mostrado anteriormente. "Já gravamos a trajetória com cerca de 35 sobreviventes ou com os filhos deles. Durante os depoimentos, podemos perceber as diferentes visões que os entrevistados apresentam para experiências semelhantes ocorridas em um mesmo campo de concentração", aponta.

Raquel lembra que alguns entrevistados já haviam gravado anteriormente depoimentos para a Survivors of the Shoah Visual History Foundation (Fundação dos Sobreviventes da História Visual do Shoah), entidade fundada em 1994 pelo diretor de cinema Steven Spielberg após a realização do filme "A Lista de Schindler", que conta a história de Oscar Schindler, empresário que durante a Segunda Guerra ajudou a salvar centenas de judeus.

Alem dessas gravações, estão sendo agrupados centenas de registros já elaborados pelo Arquivo Histórico Judaico Brasileiro e também com vídeos cedidos por aqueles que foram entrevistados pelo projeto do cineasta Spielberg.

Raquel conta que, inicialmente, a professora Tucci sugeriu alguns nomes que poderiam participar das gravações. "É comum o entrevistado indicar parentes e amigos que passaram por experiências na Guerra", afirma. A pesquisadora faz parte da comunidade judaica e é autora de um livro sobre histórias de vida de sobreviventes do Holocausto, o que a ajudou a encontrar pessoas dispostas a gravar os depoimentos, assim como o fato de freqüentar o clube A Hebraica. Outras fontes foram as pesquisadoras Rosana Meiches e Roseli Klapp Zimmermann, que indicaram possíveis entrevistados. "Também tivemos retorno dos formulários encartados no folder de apresentação do Portal Arqshoah, distribuído inicialmente na Hebraica em abril de 2008 durante o lançamento do livro O Anti-semitismo nas Américas [Edusp; Fapesp, 744 pp.] organizado pela professora Maria Luiza Tucci Carneiro."

Segundo Raquel, a maioria dos entrevistados era adolescente durante a guerra, e hoje têm entre 70 e 90 anos. As entrevistas duram em média duas horas e são permeadas por três perguntas: "Qual a lembrança que mais marcou sua vida durante a infância?", "Qual imagem você guarda da guerra?", e "Como conseguiu visto de entrada para o Brasil? Onde se estabeleceu? Recebeu ajuda de alguém ou de alguma instituição?". Os depoentes também falam sobre seus dados pessoais, familiares, religiosos, os campos de concentração por onde passou, etc. Ela explica que a prioridade para gravação de depoimentos é: 1º sobreviventes; 2º refugiados; 3º filhos de sobreviventes.

Além do resgate da memória e das histórias de vida que muitas vezes são desconhecidas dos netos e filhos desses sobreviventes, os depoimentos também ajudam a traçar as rotas de fuga utilizadas pelos refugiados.

Ouça um trecho da entrevista da senhora Gabriella Fischer, concedida para as pesquisadoras Rachel Mizhari e Lilian Souza, na cidade de São Paulo, em 12 de novembro de 2008. Gabriella nasceu na Hungria, em 1929, e chegou ao Brasil em 1956.

"Um dos fatos que mais marcou a minha vida foi quando eu e minha irmã fomos em um parque, lá as menininhas da nossa idade estavam brincando, fazendo roda, cantando. Ficamos animadas e corremos para participar das brincadeiras. Elas iam pegar em nossas mãos para nos deixar entrar na roda, quando uma menininha olhou para nós e perguntou, "qual é a religião de vocês". Eu sou muito mais tímida e não respondi, minha irmã falou: "Somos judias". A menina olhou e disse "vocês não podem brincar conosco porque vocês mataram Cristo". "Isso me marcou bastante."

Agência USP