Notícia

Diário do Comércio (SP)

Dependentes virtuais

Publicado em 22 setembro 2009

Hoje em dia, não dá para imaginar o mundo sem a internet. Pesquisas, negócios, comunicação, correio eletrônico, transferências de arquivos ou mesmo transações bancárias online fazem parte da nossa vida ou estão ligadas de alguma forma a ela -até novas leis foram criadas por causa dela. Um bom exemplo da nossa dependência foi o que aconteceu em abril deste ano, quando o serviço Speedy, da Telefônica, saiu do ar. Muitas empresas tiveram prejuízos por não conseguirem vender, transmitir ou acessar informações; milhares de casas ficaram sem acesso e vários serviços ficaram fora do ar.

Apesar de estarmos tão dependentes dela, poucos se lembraram do seu aniversário. Foi dado, há 40 anos, o primeiro passo para o que conhecemos hoje como a rede mundial de computadores. Alguns especialistas se reuniram em um laboratório de Kleinrock, na Universidade da Califórnia, nos EUA, para ver de perto dois computadores trocando dados através de um cabo de aproximadamente cinco metros.

Em tempos de Guerra Fria, quando havia uma necessidade de troca de informações de forma sigilosa, rápida e segura, o projeto era, na verdade, uma rede militar, denominada Arpanet, com o principal objetivo de conectar departamentos de pesquisa do governo americano e as suas bases militares.

Aqui no Brasil, a ideia começou a tomar forma em 1987, com as necessidades de mestrandos e pesquisadores de conectar as academias brasileiras com as universidades internacionais. Muitos já usavam o correio eletrônico, por exemplo, para trocar informações sobre pesquisas em andamento e para se comunicar lá fora. Essa foi a primeira pressão para a implantação, já que para a realização de pesquisas em algumas áreas, por exemplo a Física, era preciso usar grandes equipamentos e muito específicos, como os grandes aceleradores de partículas.

"Alguns desses experimentos só precisavam ser abastecidos com informações para que outra pessoa pudesse operar e obter os resultados, evitando viagens. Mas antes era tudo via carta, telefone ou telex. O telefone era ruim porque a pessoa tinha de estar na sala, senão ninguém atendia. Carta não precisa estar presente, mas demorava a chegar. Então o correio eletrônico juntou a vantagem da carta com a velocidade, sem a necessidade de a pessoa estar naquele momento para atender. Na verdade, tudo isso indicava interesses por redes eletrônicas, não propriamente a internet. A internet era uma das alternativas e nem era a mais popular, porque apesar de ser simples, existiam alternativas de redes que já vinham embarcadas por fabricantes nos computadores", explica Demi Getschko, um dos engenheiros que trouxeram a internet para o Brasil.

Com graduação, mestrado e doutorado na Escola Politécnica da USP, Demi esteve presente na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) em janeiro de 1991, quando foi feita a primeira conexão web do Brasil. Atualmente, Demi é diretor presidente do NIC.br (Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR), uma entidade civil sem fins lucrativos que, desde de- zembro de 2005, implementa as decisões e projetos do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br).

Naquela época, era possível mandar apenas texto, mas tinha muita gente criativa e que fazia de tudo com caracteres. "Existia algo chamado de ASCII Art, que eram desenhos feitos por pontinhos, hífens, letras e outros caracteres. Essas carinhas, chamadas de emoti-cons hoje, :<), foram criadas nessa época, para indicar se a pessoa estava rindo ou triste. Eles desenhavam de tudo, precariamente. Mas se você colocava na parede e ia bem, dava para a gente ver", brinca Getschko.

A ideia de redes se ligando umas nas outras começaram a surgir na década de 1970, com a chegada dos protocolos TCP/IP. Depois de brigas entre fabricantes, governo e universidaâas para ver qual seria o protocolo das redes, o TCP/IP acabou sendo adotado como alternativa. A palavra internet também derivou do TCP/IP. "As redes iniciais seguiam a linguagem proprietária de alguns fabricantes de computadores. Quando surgiu o TCP/IP, uma das camadas chamava-se internet, era a que ligava as redes. Ficava entre redes, com a função de colar as redes. Nasceu com o seguinte conceito: qualquer rede deve funcionar sozinha e se quiser grudar na rede geral usa a camada IP, desde que estejam de acordo com qual número ou nome vai utilizar. Hoje é fundamental e não se discute mais qual é a rede que vai ser usada. De alguma forma ela ganhou o monopólio das redes mundiais"", afirma. Ela permitiu que milhares de redes conversassem entre si, gerando esse crescimento e sucesso. Esse pedaço chamado entre redes, Internet Protocol, acabou sendo o nome da rede como um todo. Para D.émi Getschko, alguns

fatores também ajudaram a internet a se desenvolver. As máquinas já vinham com o TCP/IP nativo, embarcado. Na mesma época a Ethernet veio para resolver como os computadores seriam ligados dentro das empresas e tinha uma excelente interface com o TCP/IP. Ou seja, era uma solução completa. "Sucessão de bons projetos e coincidências que ajudaram no desenvolvimento tão rápido da rede como "um todo", completa.

Claro que a chegada da WWW (World Wide Web), criada por Tim Berners-Lee, fez com que tudo isso se tornasse mais amigável, trazendo a união do hipertexto com a prática dos protocolos TCPeDNS.

Hoje cada um enxerga a internet em um pedaço. Existe aquele que usa para procurar uma informação na Wikipédia e acha que é uma boa fonte para isso, outro para fazer campanha para um candidato e acredita que é o canal, ou uma empresa para vender o seu produto e expor sua marca. Mas a verdade é que a internet afeta tudo e cria novas possibilidades, desde economia de recursos, como a voz sobre IP, aos novos modelos de negócios, como Orkut ou YouTube.

"Se você perguntasse há um tempo se era possível mandar filminhos de graça para uma base de dados gigantesca, disponível para o mundo todo, diriam que você iria falir. Hoje sabemos que não é bem assim. Você pode oferecer serviços que parecem ser grátis, mas são remunerados de outras formas, que não eram esperadas. Em toda linha a internet traz efeitos", diz Getschko.