Notícia

Jornal do Brasil

Dependência ou progresso

Publicado em 29 maio 1996

Por MÁRIO BARRETO CORRÊA LIMA e PAULO CÉSAR DOS SANTOS LEAL*
Muitos são os problemas a enfrentar nesta nova fase imposta pela contemporaneidade científica e tecnológica. Sabe-se que, no Brasil, houve uma profunda dissociação entre a pesquisa básica e o progresso tecnológico, criando uma fissura difícil de soldar completamente. De todo um elenco de instituições de nível superior, somente algumas, porque independentes ou isoladas, conseguiram estabelecer uma programação arrojada a médio prazo, porquanto tiveram a competência de articular aqueles dois fatores. Essas já possuem quadros de mestres e doutores, bem como personalidade científica cristalizada. As demais pouco fizeram no campo das ciências básicas ou se restringiram unicamente ao ministério do ensino; perdendo a oportunidade de se engajar nesse processo inovador. Sabe-se, porém, que essa circunstância foi causada pelos parcos recursos transferidos para as universidades, o que obstou a eficiência desses organismos. Temos, contudo, de ter a coragem de frisar que parte responsável por esse insucesso foi o descomprometimento do corpo docente com a pesquisa, o que levou grande parte das universidades a ficar submetida ao modelo universidade-ensino, relegando a pesquisa. Não desejamos de forma alguma vincar comparações com universidades estrangeiras, mas como pretender superar essa situação sem buscar pelo menos algum referencial de importância? Observem: das aproximadamente 3 mil universidades americanas, apenas 150 estão diretamente envolvidas com a pesquisa científica e sua aplicação na tecnologia. Mas são uma centena e meia de instituições que operam na fronteira do conhecimento. As demais direcionam suas energias para o ensino de alta qualidade e para a pesquisa básica na formação de pessoal de alta capacitação. No Brasil, seguindo esse parâmetro relativo, talvez o número das universidades voltadas para a finalidade de pesquisa com aplicação tecnológica não ocupe os dedos de nossas mãos, e aquelas direcionadas para a excelência acadêmica e a pesquisa de qualidade são muito reduzidas. Para que se tenha em nossas universidades a eficiência que tanto se deseja, torna-se urgente a implantação de um novo quadro de valores: que se produzam emulação e motivação, através de uma mentalidade outra que afaste a estagnação científica; que se exija da instituição a contrapartida dos recursos envolvidos sem, no entanto, esquecer que dezenas de universidades estão em dificuldade quer de pessoal qualificado quer de equipamentos para ensino e pesquisa, além de não contar com infra-estrutura adequada. A reciprocidade eficiência-melhores recursos deve obedecer a essa premissa básica. Nesse contexto a presença de dirigentes que tanto valorizem esse novo perfil quanto acumulem experiência no setor de pesquisa é extremamente conveniente. Será por intermédio de um competente corpo de dirigentes que nossas universidades poderão alcançar a primazia acadêmica e obter os meios necessários (através de parcerias com a iniciativa privada, além das próprias agências federais de fomento) para buscar a promoção do desenvolvimento e do progresso neste fim de século tão envolvente quanto surpreendente. Professor de Clinica Médica da Universidade do Rio de Janeiro e mestre em Literatura Portuguesa, respectivamente.