Notícia

Jornal da USP

Dentes limpos, filhos saudáveis

Publicado em 04 outubro 2004

Cada filho, um dente. A expressão - cunhada nos tempos de um Brasil predominantemente rural - ainda ecoa em corredores de unidades básicas de saúde dos centros urbanos. "Esse dito popular, que a gente ainda ouve por aqui, indica que muitas gestantes consideram normal perder dente, como se isso fosse decorrência da gravidez", comenta a cirurgiã-dentista Maria Paula Rocha Cardoso Ramos, que atende a população de baixa renda em Bauru, no centro-oeste paulista. Antes que novas confusões se perpetuem: não é normal perder dente a cada nova gestação. "O que ocorre são alterações hormonais nesse período, que podem causar maior incidência de sangramento de gengiva. A mulher se assusta com isso e negligencia a higienização bucal, o que é a real causa do problema." Esse e outros mitos da gravidez em relação a tratamento odontológico estão, aos poucos, sendo superados por Maria Paula e outros 32 profissionais envolvidos no Programa de Saúde Bucal da Gestante, da Secretaria Municipal de Saúde de Bauru. O embrião e ponto de partida desse programa foi uma tese de doutorado em Dentística defendida em 2001 na Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) da USP, de autoria da cirurgiã-dentista Régia Luzia Zanata, também profissional da saúde pública municipal há 14 anos. O programa envolve pessoal do Departamento de Planejamento. Avaliação e Controle (Depac) - órgão da municipalidade - e acaba de atingir a marca de 1.300 pacientes atendidas desde a sua implantação, há três anos. Peterson, quarto filho de Keren Cristina Lopes, 21 anos, nasceu em maio. Ela conta que, durante a gestação, passou por seis atendimentos odontológicos, com hora marcada, no posto de saúde do Parque Santa Edwigens, periferia de Bauru e local onde o programa foi iniciado. "'Aprendi muito sobre escovação, recuperei três dentes e perdi o medo que sempre tive de sofrer uma hemorragia na cadeira do dentista", relata. Moradora no bairro Fortunato Rocha Lima - um dos cinco mais precários de Bauru - Keren também festeja o fato de encaminhar para avaliação odontológica os demais filhos, acolhidos por outro projeto municipal de saúde bucal. Grávida de sete meses. Iara Cristina Oliveira, 25 anos, também moradora no Fortunato, ganhou escovas, fio dental e passou por tratamento a partir do terceiro mês de gestação - período em que há menor grau de risco em qualquer procedimento clínico. "Já não tenho mais dúvidas sobre extração e escovação." Márcia Oliveira, 35 anos, moradora no Parque Jaraguá, também periferia, conta que passou por limpeza, obturação e higienização. "É continuo o tratamento mesmo aos nove meses de gravidez", emenda. Márcia frisa que aprendeu algo "para toda a vida": "Não sabia que uma infecção da boca da gente passava para o bebê ainda na barriga. Redobrei meus cuidados depois disso". A dentista Maria Paula Ramos explica: "Atacamos os focos de infecção porque, de fato, as bactérias, nesse período, estão na circulação sanguínea e podem prejudicar o bebê ainda na vida intra-uterina. aumentando o risco de parto prematuro". Autora da tese que originou o programa. Régia Zanata concorda: "Desde o início, a preocupação era evitar que a precariedade da condição bucal das gestantes afetasse o curso da gestação. Há correlação significativa entre a atividade de cárie materna e a incidência da doença em seus filhos", conta. "Para resumir, isso se dá porque as bactérias causadoras da cárie (chamadas bactérias cariogênicas) são transmitidas através da saliva materna durante o período de erupção decídua (dentes de leite) do bebê. Quanto mais bactérias houver na boca da mãe, mais precoce é a infecção dos dentes e mais severa será sua experiência de cárie." Também convém saber que os chamados "dentes de leite" iniciam sua formação a partir da quinta e sexta semanas de gestação - e os dentes permanentes, a partir do quinto mês. Nesse período, a futura mãe deve fugir de medicamentos que não sejam indicados exclusivamente por seu médico ou dentista. Precisa, ainda, fazer uma dieta balanceada, variando os tipos de alimentos. O cuidado nutre a mãe do bebê com sais minerais e vitaminas que só fazem bem à dentição. Curioso, mas não menos importante, é que o paladar da criança começa a se desenvolver a partir do quarto mês de gravidez. Nesse período, a mãe deve evitar a ingestão de açúcar para que o filho não tenha predisposição exagerada por doces. Toda uma corrente de pesquisadores tem se debruçado sobre a importância da assistência odontológica durante a gestação. "A conclusão de que focos infecciosos da cavidade bucal alteram os níveis de mediadores químicos envolvidos nos processos inflamatórios e podem antecipar o parto, aliada aos resultados recentes de alguns estudos que verificaram a presença de bactérias periodonto patogênicas no líquido amniótico de bebês prematuros, aumenta a nossa necessidade de estabelecer uma relação de cumplicidade com a gestante. Quando ganhamos a confiança e passamos a falar a mesma língua, tudo fica mais fácil", acrescenta Régia. Nova técnica - Antes mesmo de se tornar um programa oficial, a pesquisa de Régia foi premiada dentro e fora do Brasil. Em 2002, a tese - intitulada "Efeito de um programa preventivo iniciado durante a gestação na atividade de cárie de mães e seus filhos" - foi selecionada entre mais de 250 de todo o Brasil como destaque do Prêmio de Incentivo em Ciência e Tecnologia para Sistema Único de Saúde, do Ministério da Saúde. Em 2000, ainda durante a fase de elaboração, o trabalho foi premiado em Washington, nos Estados Unidos, pela Associação Internacional de Pesquisa Odontológica. Como incentivo. Régia - que já contava com apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) - também recebeu uma bolsa de US$ 2 mil. Sob orientação da então chefe do Departamento de Dentística. Endodontia e Materiais Dentários da FOB. hoje diretora da faculdade, professora Maria Fidela de Lima Navarro, a pesquisa também foi primeira colocada, em 1999, no Congresso Mundial de Odontologia, realizado em Londrina (PR). "O amplo reconhecimento foi decisivo para que a pesquisa continuasse a ser desenvolvida em forma de programa municipal de assistência às gestantes", diz Régia. Resultado: logo após o período de desenvolvimento da tese, que resultou no acompanhamento, tratamento e orientação de 81 mães selecionadas. 15% por cento dos bebês apresentaram-se "cárie ativos", a maioria deles apenas com manchas brancas - primeiro sinal clínico da lesão de cárie. Somente um bebê do grupo experimental apresentou cavidades (estágio mais avançado da doença). Agora presente em 18 unidades básicas de saúde, o trabalho prioriza o tratamento dentário com a chamada técnica atraumática. Reconhecido pela OMS (Organização Mundial da Saúde) em 1994, o procedimento dispensa anestesia c prioriza a retirada do tecido careado menos profundo até o limite da sensação de dor de cada paciente. A técnica é mais ágil e econômica do que as tradicionais, normalmente adotadas em consultórios particulares, e vem sendo difundida em diversos programas sociais do Brasil. África, índia e países da América Latina. Para viabilizá-la, faz-se a restauração com o chamado "ionômero de vidro", um material que libera flúor e tem comprovada adesão à estrutura do dente tratado. Focos de infecção na boca também são eliminados quando há a necessidade de extração ou curativo de canal. A chefe de seção odontológica do Depac, doutora em Pediatria Maria Ligia Pin, acrescenta que, no âmbito dos 1.300 bauruenses atendidos pelo programa odontológico das gestantes, também há, como extensão de serviços. 285 pessoas com HIV (vírus transmissor da Aids), das quais 43 são crianças. "É mais uma prova de que uma boa idéia, quando colocada em prática, pode superar todas as expectativas."