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Novo Ambiente

Demolir velhos conceitos para edificar uma nova consciência

Publicado em 01 dezembro 2011

Da melancolia cantada por Adoniran Barbosa no clássico samba em que ele, Mato Grosso e o Joca "aperciaram", do meio da rua, a demolição da querida maloca à fúria dos Titãs no clássico rock em que eles se perdem na "selva de pedra", cada geração com seu cenário, mas nas canções uma reflexão urbana: a vida e a morte de prédios. Onde quer que seja, a urbanização transforma paisagens e dita o cotidiano das populações. A construção civil protagoniza esse processo e precisa urgentemente decidir se segue na história como a mocinha ou a vilã do futuro da humanidade.

A mocinha. A construção civil ocupa lugar de destaque na geração de capital e é um dos setores responsáveis por manter aquecida a economia do Brasil. Com um crescimento de 11% em relação a 2009, somente em 2010 a atividade gerou 340 mil empregos formais, alcançando, no segundo semestre do mesmo ano, a marca de 2,6 milhões de trabalhadores com carteira assinada. Foi o melhor desempenho dos últimos 24 anos. E mesmo que a tendência seja de desaceleração, a previsão é que o setor permaneça em alta. De acordo com o Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a construção civil deve fechar 2011 com um crescimento de 8%, índice superior ao esperado para o PIB (Produto Interno Bruto) nacional. Entre outros fatores, o momento positivo é sustentado por políticas criadas pelo governo federal, como o Programa Minha Casa Minha Vida e a segunda etapa do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2), que prevê, até 2014, um investimento total de R$ 950 bilhões em obras de infraestrutura em todas as regiões do país.

A vilã. Embora, e, aliás, como em muitos outros casos reportados pela Revista Novo Ambiente, não haja um diagnóstico preciso dos impactos do setor sobre o meio ambiente, a estimativa é que a construção civil seja a maior geradora de resíduos sólidos do país. Nos centros urbanos, a atividade é responsável, em média, por 50% a 70% do total dos resíduos gerados. O Panorama de Resíduos Sólidos no Brasil, elaborado pela Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), revela que no ano passado foram produzidos no país mais de 60 milhões de toneladas de lixo sólido.

Deste volume, 31 milhões de toneladas foram originadas por novas construções e demolições. Sem considerar a coleta do setor privado, a associação calcula que o setor produza cerca de 99 mil toneladas de resíduos sólidos por dia. O problema, porém, não está tanto na quantidade, mas no destino dado a todo esse lixo. O mais comum é que, sem separação adequada, o entulho acabe despejado em aterros, terrenos baldios ou logradouros abandonados pela fiscalização dos municípios. Um descaso que precisa e pode ser revertido, uma vez que mais de 80% desse material pode ser reutilizado ou reciclado.

Obras sustentáveis e mais baratas

A Resolução 307 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), em vigor desde 2003, define os diferentes resíduos oriundos da construção civil e determina a separação e destinação corretas para cada um. A gestão é atribuída aos geradores e ao poder municipal, que deve elaborar instrumentos para disciplinar a atividade no cumprimento da lei. A regra é clara e não há mistério para segui-la. Bastam algumas mudanças simples na rotina das obras. E o melhor, mas em que poucos acreditam, é que um projeto de gerenciamento de resíduos bem implementado pode representar uma economia significativa para o empreendedor.

Nem todos são cimento do mesmo saco

Claro, não existe mágica. O que é o hábito, se não a repetição sistemática de um determinado comportamento? Quando foi contratada para implementar o Projeto de Gerenciamento de Resíduos no canteiro de obras do Universe Life Square, edifício projetado pelo grupo Thá para ser o maior de Curitiba e o sétimo mais alto do país, Flávia Wolf, formanda em Engenharia Civil, sabia que os resultados não apareceriam da noite para o dia. É que a tarefa não consistia apenas em convencer, mas reeducar os cerca de 110 operários envolvidos na obra para que assumissem uma nova postura. Nesse sentido, o desafio era fazer com que a mudança não fosse simplesmente acatada por eles em respeito a uma norma da empresa, e sim que ela se incorporasse como resultado da conscientização de que, adotando os hábitos sugeridos, eles farão a diferença para o planeta, a partir de novos costumes simples.

O projeto foi implantado em março do ano passado. Desde então, o esforço é permanente para que todos os resíduos gerados pela obra ou pelos próprios trabalhadores, como restos de comida e bitucas de cigarro, sejam depositados nos locais adequados. Aos recipientes, é dada a destinação final correta, de acordo com os padrões determinados para a classificação de cada lixo - madeira e aço, por exemplo, são vendidos para reciclagem. Em vigília constante, nada passa despercebido ao olhar mais que atento da profissional, que monitora os coletores diariamente. Flávia Wolf explica que o sucesso do gerenciamento depende do comprometimento coletivo, mas a partir de ações individuais. "Basta que um deles deixe de fazer a sua parte para estragar o que foi feito pelos outros. Se em um coletor de plástico, por exemplo, alguém joga uma casca de banana, o esforço de todos os outros colegas é simplesmente desperdiçado", constata a responsável pelo projeto de gerenciamento de resíduos da obra.

Mensalmente, os funcionários participam de atividades de integração, quando assistem a vídeos, palestras e acompanham a execução do plano. Os erros são corrigidos, e os acertos são compensados com sorteios de brindes para que eles continuem motivados.

Entre um escorregão e outro, as transformações ocorridas nesse processo de quase dois anos já são perceptíveis. O canteiro sempre organizado e limpo, além de otimizar a produção, proporciona um ambiente mais agradável e, principalmente, muito mais seguro. De acordo com Rafael Tyszka, engenheiro responsável pelo Universe, ao associar o bem-estar com as próprias atitudes, o trabalhador tende a dar continuidade à nova postura dentro e fora da obra. "O projeto de gerenciamento de resíduos faz com que a obra seja mais limpa e mais consciente, ao contribuir para a redução dos impactos ambientais e promover a reeducação dos colaboradores", afirma o engenheiro.

Obstáculos

Ainda que o gerenciamento dos resíduos seja uma exigência legal, nem todas as empresas o executam com a eficiência do exemplo aqui citado. Isso porque a fiscalização confere apenas o projeto de gestão antes do início da obra, e a certificação de destinação correta ao final. O "durante" não é acompanhado, e por isso as certificações nem sempre são a garantia de que o processo foi realmente apropriado. A fiscalização também se mostra ineficiente diante da enorme fatia do setor que atua na informalidade. Um estudo feito pelo Sindicato da Construção de São Paulo (Sinduscon-SP) aponta que 75% dos resíduos gerados pela construção civil provêm de pequenos geradores - das chamadas autoconstruções ou de pequenas reformas executadas pelos próprios usuários dos imóveis, com a utilização de mão de obra informal. Nesses locais, quando não são largados em qualquer lugar, os resíduos são entregues a empresas caçambeiras, contratadas para transportar e dar a eles um fim. E, aí, há pelo menos dois problemas. Um deles é a falta de separação. Estacionadas nas ruas, as caçambas se tornam depósitos de todo tipo de material. Outro problema é a idoneidade das empresas que concorrem nesse mercado. Boa parte delas funciona sem licença, e, então, o destino do lixo por elas coletado quase sempre são aterros clandestinos, muitos às margens de rios e em áreas de preservação permanente.

O livro O Desafio da Sustentabilidade na Construção Civil elenca a informalidade como um dos principais obstáculos para que a atividade reduza os impactos. O engenheiro Vahan Agopyan, coautor da publicação e também professor da Escola Politécnica da USP, declarou à agência Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) que "a informalidade é uma questão crítica no setor de construção, tanto em relação à aquisição de materiais como na perspectiva da autoconstrução. Essa informalidade é um dos principais gragalos para a construção sustentável, pois faz com que nos afastemos dos preceitos do desenvolvimento sustentável".

Outro obstáculo é apontado pelo professor Dr. Eloy Fassi Casagrande Jr., especialista em meio ambiente, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Em entrevista à Revista Novo Ambiente, ele afirma que o setor está condicionado a uma mentalidade inversa, que, corrigida, poderia minimizar consideravelmente os impactos produzidos pela construção civil. "Do total dos recursos estimados para uma obra, 30% são investidos no projeto e 70% na execução, quando o correto e também mais vantajoso seria fazer o contrário", diz Casagrande. Priorizando o projeto, é possível elaborar um planejamento detalhado para que não haja desperdício de materiais e ainda reservar mais dedicação para a busca de soluções sustentáveis para a manutenção do imóvel, como sistemas de reúso de água e eficiência energética. Ainda com relação aos resíduos, na avaliação do especialista, falta estímulo para a reciclagem. Como o custo para a implantação de usinas é elevado e, somado a isso, ainda não há uma cultura de utilização dos materiais reciclados nas obras, poucos se arriscam a investir nesse tipo de indústria. "Cabe também ao poder público estimular a reciclagem, estabelecendo parcerias na implementação das usinas e criando outros mecanismos, como incentivos fiscais para os que reciclam e para os que utilizam os reciclados", conclui o professor.