Notícia

O Liberal (PA) online

Delta do Amazonas passa por estudos

Publicado em 06 novembro 2014

Estudo que tomou por base o município de Ponta de Pedras, na região do Marajó, no Pará, mostra que 90% das cidades localizadas no estuário do rio Amazonas têm população menor que 20 mil habitantes, infraestrutura precária, baixa oferta de serviços e de oportunidades de emprego. Apesar disso, entre os anos 2000 a 2010, esses municípios atraíram grande quantidade de pessoas oriundas de comunidades ribeirinhas, causando desordenada ocupação de espaço, com graves problemas sócioeconômicos e ambientais.

No Pará, a pesquisa ainda se estenderá pelos municípios de Ponta de Pedras e Barcarena, este, na região do Baixo Tocantins, para criar uma sequência de dados que permita ver a evolução da cidade no tempo. Também serão incluídas outras importantes cidades, como Mazagão (AP) que, como Barcarena (PA), pessoas são atraídas pela presença da indústria produtora de alumínio.

Deste modo, estudar como ocorrem esses fluxos na Amazônia e seus impactos socioeconômicos e ambientais é o objetivo do estudo que reúne pesquisadores brasileiros e americanos. A pesquisa é financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) no âmbito de um convênio com o Belmont Forum, grupo multinacional de instituições de fomento à pesquisa sobre mudanças globais.

No último dia 28 de outubro, alguns dos primeiros resultados desse trabalho foram apresentados em Washington, Estados Unidos, durante o simpósio Fapesp -U.S. Collaborative Research on the Amazon pelos coordenadores Sandra Maria Fonseca da Costa, da Universidade do Vale do Paraíba (Univap), e Eduardo Brondizio, da Indiana University, nos Estados Unidos.

“Notamos que, dentro da rede urbana da Amazônia, essas cidades têm importância fundamental. Elas funcionam como salvaguardas para a população ribeirinha, pois, apesar das deficiências, possuem escolas de ensino fundamental e médio, postos de saúde e são contempladas por benefícios sociais governamentais”, disse Sandra Maria da Costa.

De acordo com a pesquisadora, o fluxo de migração é predominantemente regional – mobilizando habitantes em um raio de até 100 quilômetros de distância. São pessoas vindas de comunidades ainda menores e mais carentes de serviços básicos.

“Ao chegar a essas cidades, constroem casas em qualquer lugar e em condições degradantes. Ocupam áreas de várzea, lançam os efluentes domésticos, sem qualquer tratamento, em rios e córregos, nos mesmos locais em que a população busca água para beber, cozinhar e lavar roupa. Essas pequenas cidades crescem a uma velocidade absurda e todos os problemas associados a esse fenômeno se multiplicam dia após dia sem qualquer política pública específica”, falou Sandra.

MONITORAMENTO

Embora reconheça ser impossível para o poder público controlar o crescimento de uma cidade, Sandra defende que o processo seja ao menos monitorado e norteado. “É preciso interferir para melhorar a qualidade de vida da população e observamos que isso não tem ocorrido”, pontuou a pesquisadora, professora da Univap, que tem se dedicado a estudar o tema desde 2007, quando realizou seu pós-doutorado na Indiana University, sob a supervisão de Eduardo Brondizio. Em um primeiro projeto de Auxílio Regular apoiado pela Fapesp, o foco da pesquisa foi o município de Ponta de Pedras, no Pará.

A relevância da cidade, a despeito de seu pequeno porte, está relacionada com o fato de ser uma conectora de fluxos econômicos, principalmente vinculados à produção do açaí (Euterpe oleracea). Ponta de Pedras é o segundo maior produtor da fruta no país. Funciona, portanto, como um nó em uma rede de relações sociais que se estabelecem entre o urbano e as comunidades ribeirinhas.

“Agora, neste segundo projeto que estamos iniciando no âmbito do Belmont Forum, vamos ampliar o foco de nossa análise para 50 municípios, em uma grande área que é o Delta do Amazonas, e mergulhar ainda mais na realidade dessas cidades”, acrescentou a pesquisdora, segundo a qual, em Ponta de Pedras, os estudos serão mantidos com o objetivo de criar uma sequência de dados que permita ver a evolução da cidade no tempo.

A ampliação da área de coleta de dados permitirá, segundo a pesquisadora, a realização de estudos comparativos, tendo como base o que já foi observado em Ponte de Pedras.

Sandra disse, por fim, que “os deltas são considerados regiões ambientalmente vulneráveis e, por isso, os impactos de processo de ocupação desordenado nesses locais tendem a causar impactos ainda maiores. Podem comprometer, por exemplo, a reprodução de determinadas espécies de peixe ou de camarão”.