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"Déficit tecnológico" do Brasil aumenta 1.400% em 5 anos

Publicado em 07 maio 2002

SÃO PAULO (Reuters) - O déficit tecnológico do Brasil, causado pela diferença entre a importação e exportação de tecnologia, cresceu 1.400% entre 1993 e 1998, informou hoje a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), num relatório sobre a evolução dos índices de tecnologia no país. O déficit das remessas de capital para transferência de tecnologia saltou de US$ 67 milhões em 1993 para quase US$ 1 bilhão ao final de 1998, disse o relatório, que também apontou dados positivos, como a liderança do Brasil em pesquisas na América Latina. O Estado de São Paulo sozinho, em 1998, foi responsável por quase US$ 1 bilhão dos US$ 2 bilhões gastos pelo Brasil para importar tecnologia. Para o professor João Furtado, da Unesp (Universidade Estadual Paulista), um dos autores do segundo volume da série "Indicadores de Ciência, Tecnologia e Inovação em São Paulo 2001", o estrondoso déficit é ruim, mas não deve ser visto como o fim do mundo. "Nenhum grande país deixa de importar tecnologia. Importar tecnologia é bom, pois isso anima a massa de ciência e tecnologia nacional. Entretanto, interpreto que esse enorme crescimento de importação de tecnologia é negativo", disse Furtado durante a divulgação do relatório, em São Paulo. O professor afirmou que muitas das empresas do país estão investindo continuamente em pesquisa e desenvolvimento para se manter atualizadas, apesar de grande parte delas estarem apenas comprando máquinas, "o que custa caro e dura pouco". Para Furtado, a saída é investir mais em pesquisa e desenvolvimento no país para que se possam substituir as importações e aumentar as exportações de bens com alto valor agregado. Outro problema identificado no relatório é que a abertura do setor de tecnologia nos anos 90, que gerou a explosão nos gastos com importação, contribuiu para o aumento do desemprego. Entre 1989 e 1998, segundo o estudo da Fapesp, o estoque de empregos da indústria de transformação, por exemplo, caiu de US$ 6,1 milhões para US$ 4,5 milhões, e o setor financeiro perdeu 253 mil vagas. A abertura fez com que a produtividade das empresas aumentasse em um mercado interno que não cresceu muito, disse o professor André Tosi Furtado, da Unicamp, acrescentando que, quanto maior o conteúdo interno de tecnologia, mais emprego, coisa que não ocorreu no país. NÚMEROS POSITIVOS Apesar do déficit nas contas de transferência de tecnologia, o relatório de indicadores traz boas surpresas. Segundo o estudo, referendado pelos números da Rede Ibero-americana de Indicadores de Ciência e Tecnologia, o Brasil gastou com pesquisa e desenvolvimento cerca de 30% a 40% do investimento de toda a América Latina. Foram US$ 5,77 bilhões em 1999, ou cerca de 0,87% do PIB (Produto Interno Bruto), o que coloca o país na primeira posição na região, à frente do México e Argentina. O índice coloca o país próximo de nações como Itália (1%) e Espanha (0,9%), mas ainda está muito longe dos 2,5% gastos pela Coréia do Sul, dos 3,1% do Japão e 2,7% dos Estados Unidos. Entre 1994 e 1998 o percentual de professores com título de mestre ou doutor subiu de 39% para 46% no Brasil, e de 44% para 53% no Estado de São Paulo. Além disso, o número de cursos de mestrado no país entre 1989 e 1998 aumentou cerca de 40% e o de doutorado em mais de 60%. O resultado é que nesse período, o número de trabalhos científicos de brasileiros publicados no exterior aumentou 34% e hoje chega a 1,1% da produção mundial, próximo dos índices da Coréia (com 1,2%) e da Índia (com 1,7%). O relatório também aponta uma tendência de diversificação do conhecimento científico de São Paulo para outros Estados, com Pernambuco destacando-se na informática, Rio Grande do Sul na microeletrônica e Minas Gerais e Rio de Janeiro na biotecnologia. Com isso, o investimento do governo federal vem se reduzindo, e está aumentando a participação de entidades estaduais e privadas. (Por Alberto Alerigi)