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A Tarde (BA)

Deficiente visual é a primeira a fazer mestrado na Unicamp

Publicado em 31 janeiro 2006

Por Silvana Guaiume
Numa época em que inclusão social de deficientes físicos não era um tema tão recorrente, a professora Vera Bonilha fez questão que a filha Fabiana, cega desde o nascimento tivesse uma formação convencional. Vinte anos depois, Fabiana Fator Gouvêa Bonilha tornou-se a primeira deficiente visual a concluir um curso de pós-graduação na Unicamp. Ela defende nesta terça-feira sua tese de mestrado em música.
O estudo aborda um tema que acompanha Fabiana desde que iniciou seus estudos de piano, aos sete anos de idade. "Há pouca ou quase nenhuma difusão do código de partituras em braile no Brasil", apontou. Na falta delas, sua primeira professora de música, Lílian Monteiro, passava cola sobre os símbolos musicais para que ficassem em relevo e pudessem ser interpretados pela então jovem aluna.
"Um gesto consciente que me ajudou muito no aprendizado"
contou Fabiana. A mãe professora também tratou de matriculá-la em uma classe regular do ensino fundamental e transcrevia em braile todas as lições, para que a filha pudesse acompanhar a turma. A boa formação permitiu que ela concluísse o ensino médio no Conservatório Carlos Gomes, de Campinas, e duas faculdades, de psicologia na Puc-Campinas e de piano erudito na Unicamp.
Foi na faculdade de música que Fabiana enfrentou as maiores dificuldades. "Os professores de teoria pediam partituras para a aula seguinte. Meus colegas faziam cópias e eu não tinha o que fazer", lembrou. Limitava-se a ouvir as explicações e estudar sozinha, como podia.
Na falta de partituras em braile, estudantes chegam a desenvolver códigos pessoais para escrever e ler música, mas isso restringe a profissionalização, apurou a musicóloga. As notas musicais em braile foram criadas pelo próprio Louis Braille, no século 19. Fabiana explicou que o código compreende 63 símbolos e os das notas musicais são os mesmo das letras.
"Quando a gente começa a ler partitura, lê a letra para traduzir a nota musical. Com o tempo aprendemos a fazer a leitura diretamente", contou a pesquisadora. No jargão técnico, a partitura em braile é chamada de notação musical em braile ou musicografia braile.
As limitações incentivaram Fabiana a desenvolver uma tese de mestrado sobre o tema. O trabalho, com apoio da FAPESP, ganhou o título de "Leitura musical na ponta dos dedos: Caminhos e desafios da musicografia braile na perspectiva de alunos e professores".
A pesquisadora apontou que alguns professores pós-graduados em música nunca ouviram falar em musicografia braile. "Essa grande falha provoca uma lacuna no aprendizado", defendeu. No estado de São Paulo, conforme ela, a única fonte de musicografia braile é a Fundação Dorina Nowill, na capital. Mas o acervo é bem reduzido.
Fabiana comparou que das 32 sonatas para piano de Beethoven, a fundação dispõe de apenas três partituras em braile
"Os alunos acabam estudando apenas essas três". O processo de transcrição da Fundação é quase artesanal e exige um profissional especializado que entenda partituras convencionais, braile e notação musical em braile.
Encomendar uma transcrição ao instituto não sai mais barato que R$ 150 e demora algum tempo. "Fica inviável", disse Fabiana. A Fundação está em férias coletivas e retorna ao trabalho na próxima semana. No endereço eletrônico, pela internet, é possível localizar 65 itens na busca por música em braile, que inclui de peças para violão de Attilio Bernardine a valsas de Chopin; e 165 itens na busca por música-piano, com peças de compositores como Carlos Gomes, Guerra Peixe, Debussy e Bach. "O acervo de piano da fundação é mais extenso", confirmou Fabiana.
De acordo ela, já há programas de computador que facilitam muito o trabalho de transcrição, mas eles quase não são usados no Brasil. Comentou que utilizou um programa europeu em sua pesquisa e obteve bons resultados. Com ele, iniciou um acervo de musicografia braile para a Unicamp e já transcreveu quatro coleções: duas de Villa-Lobos, uma de Camargo Guarnieri e outra de Ernesto Nazaré.
A pesquisadora pretende continuar os estudos sobre essa tecnologia na sua tese de doutorado, que começa a desenvolver em março. Uma das propostas que Fabiana pretende explorar, além de estudar mais novas tecnologias e métodos de aprendizado, é o envolvimento do deficiente visual com a música.
Ela afirmou que instrumentistas que lêem diretamente a partitura o fazem por condicionamento. Os cegos precisam estudar a partitura e desenvolver a memória, já que na hora de tocar as mãos estão ocupadas e nem sempre é possível usá-las para ler. Garantiu que esse processo estreita a relação com a música. Agora a pesquisadora tentará arriscar o caminho contrário. Envolver músicos convencionais no processo de aprendizado em braile.
A Unicamp informou que não possui levantamento estatístico do número de deficientes físicos que concluíram cursos de graduação e pós-graduação na universidade.