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Defesa prolongada

Publicado em 09 dezembro 2008

Por Fábio de Castro

Agência Fapesp

Pesquisa realizada por grupo internacional com participação brasileira mostra que organelas de eosinófilos – células de defesa do sangue envolvidas em reações alérgicas – são capazes de agir em ambiente extra-celular. Estudo foi publicado na Pnas

 

Já se sabia que os eosinófilos – células de defesa do sangue especialmente envolvidas em reações alérgicas e antiparasitárias – podem migrar para os tecidos e aumentar a resposta inflamatória. Ao fazer isso, esses leucócitos liberam proteínas pré-formadas pelo processo conhecido como citólise, entre outros.

Agora, um novo estudo, realizado por um grupo internacional com participação brasileira, mostrou que mesmo após o desaparecimento dos eosinófilos, os grânulos presentes em seu citoplasma, depois de liberados em ambiente extra-celular, continuam agindo como organelas independentes, amplificando a resposta inflamatória.

A pesquisa, cujos resultados foram publicados na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, mostra ainda que os grânulos dos eosinófilos são capazes de expressar, em suas membranas, receptores funcionais que estão acoplados a vias de sinalização que controlam a secreção granular.

De acordo com a autora principal do estudo, a brasileira Josiane Neves, pesquisadora do Departamento de Medicina da Escola Médica da Universidade de Harvard, em Boston, nos Estados Unidos, a descoberta transforma os grânulos em possíveis novos alvos terapêuticos para a ação de antialérgicos e antiinflamatórios.

“Nossa hipótese é que esses grânulos, uma vez livres em tecidos associados a doenças eosinofílicas, são capazes de amplificar a resposta inflamatória e contribuir para sua persistência. Eles são organelas do interior da célula que têm todo o aparato para continuarem funcionais em seu exterior””, disse Josiane à “Agência Fapesp”.

Josiane, que iniciou o pós-doutorado em Harvard em 2005, depois de concluir o doutorado na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), divide a autoria principal do artigo com Sandra Perez, que é pesquisadora visitante da Fiocruz e concluiu o pós-doutorado em Harvard em 2005. Segundo ela, os mentores do estudo foram os professores Peter Weller, de Harvard e Redwan Moqbel, da Universidade de Alberta, no Canadá.

As observações dos grânulos dos eosinófilos, feitas no laboratório por meio de microscopia eletrônica, de acordo com a pesquisadora, mostravam que eles são organelas complexas, que possuem membranas intragranulares. “Observações in vivo, por outro lado, mostravam que em diversas situações patológicas os grânulos apareciam nos tecidos. Mas nada havia sido descrito”, disse.

A partir daí, trabalhando com os grânulos isolados por fracionamento celular, os cientistas começaram a procurar a expressão de receptores. Depois de caracterizar a presença de receptores, os pesquisadores constataram que eles respondiam a determinados estímulos, secretando proteínas.

“Uma das principais novidades do artigo é que estamos mostrando a presença de receptores funcionais em uma organela intracelular. Se esses receptores estão presentes nos grânulos quando estão fora da célula, isso significa que também estavam presentes quando estavam em seu interior. Isso é bastante novo. Existem outros trabalhos que mostram receptores intracelulares, mas não nos grânulos”, afirmou a cientista.

A outra novidade importante, de acordo com Josiane, é que o fato dos grânulos serem funcionais indica que são agentes amplificadores da resposta imunológica mediada pelo eosinófilo.

“A resposta dos eosinófilos é amplificada pelos numerosos grânulos soltos no tecido. O que imaginamos é que, uma vez que esses grânulos têm receptores funcionais e continuam respondendo a estímulos, eles têm potencial como alvo terapêutico. Agora estamos procurando novos receptores nesses grânulos”, declarou.

De acordo com Josiane, os grânulos estão repletos de proteínas pré-formadas que são secretadas à medida que o eosinófilo é ativado. A hipótese levantada pelo estudo é que, ma vez que o leucócito sofre citólise, os grânulos poderiam ficar depositados nos tecidos, continuando funcionais, amplificando a resposta inflamatória.

“A célula chega ao tecido inflamado, sofre a citólise e libera os grânulos. Nesse momento, a célula não existe mais, mas os grânulos seguem respondendo e secretando proteínas”, disse.

Até o momento, os pesquisadores caracterizaram dois receptores na membrana dos grânulos, um deles para uma citocina e outro para uma quimiocina. “Estamos agora fazendo a caracterização de expressão de outros receptores, como os recepetores para leucotrienos, que são mediadores envolvidos sobretudo no processo asmático”, declarou.

Os pesquisadores acreditam, de acordo com Josiane, que as características dos grânulos dos eosinófilos se estendam a outros granulócitos além dos eosinófilos, como os neutrófilos e os mastócitos, embora ainda não haja nenhuma evidência disso.

“O que vamos estudar agora é o papel funcional desses grânulos e de todas essas maquinarias dentro e fora da célula. Acreditamos que se os receptores estão expressos na membrana dos grânulos quando eles estão fora da célula, eles devem estar presentes também quando os grânulos estão no citoplasma. E provavelmente os receptores têm algum papel funcional ali também”, declarou.

O artigo Eosinophil granules function extracellularly as receptor-mediated secretory organelles, de Marcelo Hermes-Lima e outros, pode ser lido por assinantes em www.pnas.org

(Agência Fapesp, 9/12)