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Deep techs: quando ciência e propósito definem o futuro (1 notícias)

Publicado em 06 de maio de 2025

Por Paulo Costa

Inovação nem sempre é sinônimo de velocidade. Em um mundo acostumado a medir progresso por lançamentos semanais e ciclos curtos de produto, as deep techs surgem como um lembrete necessário: há transformações que demandam mais tempo, mais ciência — e mais coragem

O termo deep tech se refere a startups que nascem de descobertas científicas e tecnologias de base complexa. São empresas que não operam sobre APIs - interfaces que conectam sistemas prontos e permitem criar produtos a partir de soluções existentes - ou tendências do momento, mas a partir de campos como biotecnologia, inteligência artificial avançada, neurociência, novos materiais, computação quântica, robótica e energia limpa. Elas se propõem a enfrentar problemas sistêmicos — como a crise climática, a escassez de recursos ou a transformação da saúde global — com soluções que, muitas vezes, ainda nem existiam há cinco anos.

Esse tipo de inovação exige ciclos longos de pesquisa, testes, validações regulatórias e desenvolvimento tecnológico. É o oposto da disrupção imediatista: é a construção paciente do que realmente pode redefinir a forma como vivemos, nos alimentamos, nos curamos e nos conectamos.

Em ecossistemas consolidados como o Vale do Silício, Boston, Munique, Tel Aviv e Xangai, as deep techs já ocupam uma posição central nas estratégias de investimento e desenvolvimento econômico. Universidades, centros de pesquisa, governos e capital privado se unem para acelerar essas empresas com base científica — porque entendem que nelas está o futuro das nações, da competitividade e da sustentabilidade planetária.

No Brasil, esse movimento ainda engatinha, mas começa a ganhar tração. Segundo último mapeamento da Emerge – Deep Techs Brasil 2024, feito em parceria com o Cubo Itaú, existem 875 deep techs no país , com aproximadamente 70% delas concentradas na região Sudeste e 55% no estado de São Paulo . Os dados revelam um ecossistema em formação, porém promissor. Dentre essas startups, 42% atuam com biotecnologia — principalmente aplicadas ao agronegócio (50%) e à saúde (42%) —, têm foco em inteligência artificial e 61 em manufatura avançada

Do ponto de vista de maturidade, 70% dessas empresas ainda estão na fase de validação tecnológica , enquanto apenas 30% avançaram para o escalonamento e a comercialização. É um recorte que mostra o enorme potencial de crescimento — e também os obstáculos estruturais. A transição entre pesquisa e mercado ainda é um dos maiores gargalos enfrentados pelas deep techs brasileiras. De acordo com a Emerge, 28% delas receberam financiamento do Programa PIPE (Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas), da FAPESP, mas muitas ainda enfrentam dificuldades para acessar capital privado, especialmente nas fases iniciais. Em média, essas startups levam mais de cinco anos para iniciar seu crescimento de forma consistente

Esse desafio, aliás, é global — mas há sinais claros de avanço. Segundo o estudo “2025 European Deep Tech Report”, produzido pela Dealroom, as deep techs representaram 28% de todo o capital de risco investido na Europa em 2024, com destaque para áreas como inteligência artificial, energia limpa, biocomputação e tecnologias espaciais. Mesmo em um cenário de retração econômica, o setor demonstrou resiliência: enquanto o restante do mercado tech europeu encolheu 60% desde o pico de 2021, o investimento em deep tech recuou apenas 28%. Além disso, fundos especializados em deep tech têm apresentado desempenho superior — com retorno médio anual (IRR) de 16%, acima dos fundos tradicionais de tecnologia. Esse cenário mostra que investir em ciência, ainda que desafiador, é cada vez mais estratégico — e recompensador.

Tenho acompanhado com atenção — e entusiasmo — esse novo perfil de empreendedores que está emergindo no Brasil. São doutores, engenheiros, cientistas e tecnólogos que buscam transformar conhecimento em impacto. Startups que reforçam seus pitches com uma base mais sólida, oriunda de pesquisas.

Essas iniciativas exigem também uma nova postura do ecossistema de inovação. O modelo tradicional de desenvolvimento de startups, que normalmente contam com ciclos mais rápidos de aceleração e metas de tração em meses, não se aplica quando falamos de deep techs. Aqui, é necessário construir pontes com universidades, pensar em capital paciente, incorporar institutos de pesquisa e abrir espaço para laboratórios, protótipos e testes em escala industrial. É um jogo mais complexo, mas com potencial de impacto profundamente maior.

O Brasil tem tudo para ser protagonista nessa agenda. Temos universidades e centros de pesquisa reconhecidos internacionalmente, talentos científicos que lideram estudos em áreas como bioenergia, nanotecnologia e IA, uma biodiversidade incomparável e uma urgência social e ambiental que clama por soluções tecnológicas de base. Temos também uma nova geração de empreendedores mais conscientes, conectados com a realidade do planeta, e dispostos a empreender com propósito.

Precisamos ampliar os nossos horizontes e ir além, colocar o investimento em inovação de fronteira como ativo estratégico. Também compreender que as grandes transições do século XXI — energética, climática, alimentar, digital — dependem de conhecimento profundo e colaboração ampla.

Nesse contexto, temos que atuar como agentes de conexão. Nosso papel é aproximar ciência e mercado, pesquisadores e investidores, universidades e empresas, para que possamos criar um ambiente em que deep techs floresçam no Brasil — com apoio, fôlego e perspectiva de longo prazo.

Porque o futuro não se constrói apenas com velocidade. Ele se constrói com profundidade. E as deep techs são talvez o mais poderoso lembrete de que, às vezes, é preciso ir fundo para ir longe.

*Paulo Costa é o atual CEO do Cubo Itaú