Notícia

Meu Próprio Negócio

Dedicação e Planejamento

Publicado em 01 fevereiro 2010

O brasileiro está deixando de se tornar empreendedor por necessidade, e tal escolha é feita cada vez mais com base nas oportunidades de mercado e no preparo do profissional. O amadorismo começa a perder espaço, mas, mesmo assim, é preciso permanecer atento ao rumo a ser tomado.

Marcelo Salim, professor universitário e coordenador do Centro de Empreendedorismo do Ibmec (CEI), afirma que, apesar de o empreendedorismo poder ser comparado a um esporte radical, ele não é aconselhado aos aventureiros. Também não é um cassino , afirma o especialista. Nessa entrevista concedida à revista Meu Próprio Negócio, ele fala a respeito dos pontos mais importantes a serem levados em consideração no momento de abrir uma empresa, da escolha de sócios, funcionários e sobre como agir para obter um espaço no mercado. A oportunidade é mais importante que o empreendedor , declara.

Ele também aconselha as pessoas a procurarem personalidades de sucesso para trocar ideias, porque elas gostam de dividir o que sabem com quem se interessa por seus feitos. Procurar ajuda em locais como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o Sebrae e as universidades é outra orientação dada a quem pretende não apenas se estruturar, mas também ficar por dentro das mais recentes pesquisas cujos resultados podem gerar novos negócios.

Meu Próprio Negócio - Como o senhor define o empreendedorismo, e o que é preciso para ter êxito?

Marcelo Salim - O empreendedorismo pode ser comparado aos esportes radicais por causa do dinamismo existente em sua essência. Apesar disso, não foi feito para aventureiros. Nem é como em um cassino onde, ao se investir R$ 30 mil, o intuito é ganhar R$ 300 mil pouco depois. Na verdade, espera-se muito trabalho, compromisso e envolvimento de quem escolhe seguir por esse caminho. O dinheiro nem é o fator mais importante na busca pelo sucesso.

MPN - Então qual é o item mais relevante?

MS - A equipe selecionada com o objetivo de atuar ao lado do empreendedor. Grandes gênios como Bill Gates, Steve Jobs ou Walt Disney contaram com pessoas de destaque trabalhando com eles. Times competentes são imprescindíveis, e as faculdades de negócios não ensinam como lidar de forma profunda com essa questão. Elas só passam algumas noções de recursos humanos e geralmente ficam na mesmice. O segredo do sucesso está nas pessoas.

MPN - Quais características elas devem ter?

MS - Atualmente, está sendo disseminada a ideia de que todos os indivíduos precisam ser líderes e desenvolver a cultura empreendedora. Tal discurso é pura balela. As companhias necessitam de diferentes perfis em seus quadros de funcionários, pois há inúmeras funções a serem exercidas lá dentro. Cada uma carece de certo talento. Se forem colocados dez empreendedores na mesma companhia, mais cedo ou mais tarde, acabarão se matando.

MPN - O que mais apontaria como especialmente relevante para ser considerado pelo empreendedor?

MS - Outro ponto importante é o fato de ele sempre buscar algo novo, mas são as velhas ações as responsáveis por trazer dinheiro à empresa. Caso um excelente produto seja lançado, enquanto ele não emplaca, as vendas dos demais itens do catálogo garantem o pagamento das contas. É preciso manter os pés no chão, não se deixar deslumbrar. Líderes inteligentes se cercam de pessoas capazes de os trazerem à realidade caso for preciso.

MPN - Então, na prática, é necessário combinar os perfis?

MS - O correto é buscar a união ideal entre empreendedores e seguidores. Forçar o desenvolvimento da liderança gera frustração, porque o funcionário deixará de executar o que faz de melhor para ser líder. O gestor experiente procura a peça certa no mercado. Não é qualquer profissional que fará parte do time, mas aquele com características bem específicas segundo as necessidades corporativas.

MPN - Times bem-montados conseguem alcançar suas metas?

MS - Os melhores consultores primeiro identificam quais são os talentos disponíveis no grupo e depois elaboram as estratégias de mercado, sempre levando em consideração os funcionários existentes na companhia. Os inexperientes trazem algo pronto e levam os proprietários a colocar o plano em prática. Geralmente é um drama saber quais as pessoas corretas que devem acompanhá-lo e complementá-lo, enfim, ajudá-lo a crescer.

MPN - E ao procurar sócios, o que pode ser feito?

MS - Também é bastante comum firmar sociedades a partir de amigos conhecidos na faculdade ou entre os membros da família. Não é o ideal, pois ao montar o seu próprio negócio é preciso conhecer as aptidões e habilidades desses parceiros. Se eles não fossem amigos ou parentes, serviriam como sócios? Existe muita dúvida sobre quem deve ser convidado a entrar no grupo.

MPN - Há regras a serem seguidas nesse processo, independentemente de ser ou não o futuro sócio?

MS - Existem três dimensões a serem analisadas. A primeira é a do conhecimento, ele pode ser aprendido e transferido a outros profissionais. A segunda é a da habilidade, trata-se da técnica para fazer algo. É adquirida com muito treino, dedicação e passível de ser ensinada. A última é o talento. O indivíduo tem algo impossível de ser transferido aos outros, e a execução dessa atividade lhe dá muito prazer. Cada pessoa tem três ou quatro deles.

MPN - Como o funcionário deve ser estimulado para agir?

MS - O papel do profissional é identificar os próprios talentos, a fim de desenvolvê-los ainda mais, pois eles serão o seu diferencial no mercado. Treinamentos baseados em atividades para as quais o funcionário tem talento trazem retorno. Os demais cursos ajudam, mas não possuem tanto potencial de desenvolvimento.

MPN - O que mais pode ser levado em consideração ao montar a equipe?

MS - O empresário deve procurar quem possua crenças e valores semelhantes aos seus. Se determinada pessoa vê os impostos como a forma de os políticos desviarem dinheiro público, e outra acredita na necessidade de obrigatoriamente eles serem pagos, em algum momento, os sócios discutirão sobre a possibilidade de sonegá-los. Sou contra ficar à margem da lei, obviamente. Dei esse exemplo simples a fim de ilustrar como formas diferentes de pensar geram atritos.

MPN - O que mais o senhor apontaria como importante?

MS-E necessário contar com gente que realmente seja da área e tenha bons contatos no mercado. Deixe de olhar para o próprio umbigo e veja quem tem as qualificações necessárias. Vale lembrar que amigos da faculdade não necessariamente possuem experiência. Na verdade, muitas vezes, nem se conhecem tão bem fora do aspecto social.

MPN - E quanto à partilha das ações de uma empresa, que também gera muitas dúvidas, o que aconselha?

MS - Normalmente, quatro sócios dividem a participação da empresa em 25% para cada um. Mas o mais indicado é o mentor da ideia conceder ações conforme as metas trimestrais ou semestrais são conquistadas pelos demais integrantes. Há outra questão importante: eles são sócios quando participam das assembleias de acionistas. A reunião pode ser feita até aos sábados, das 10h às 14h, num badalado barzinho da cidade. Porém, no dia a dia, são funcionários exercendo a função designada, sem se intrometer no papel do outro pelo fato de serem um dos donos. No cotidiano, deve ser seguida a orientação do especialista, pois foi contratado por saber mais sobre determinada área.

MPN - E a confiança entre os sócios, qual o peso dela para o sucesso da parceria?

MS - No start up (início) da empresa, especialmente, é preciso ter muita confiança no outro. Se logo no começo você não confia no cumprimento do acordo, seja por intermédio da palavra dada, seja na assinatura de contratos, pergunte-se se vale a pena entrar na empreitada. Também leve em consideração se fará algo apaixonante, pois dará mais tempo, energia e dedicação à companhia do que à própria família e amigos.

MPN - Então para empreender é preciso estar muito bem-preparado em todas essas frentes?

MS - A oportunidade é mais importante que o empreendedor. E uma frase dura, mas realista. Pense num surfista mediano, capaz de entrar no mar e pegar ondas com bom desempenho. Agora imagine o americano Kelly Slater, nove vezes campeão mundial. Com os dois competindo nas mesmas condições, o primeiro atleta não tem a menor chance de vencer. Entretanto, o maior surfista de todos os tempos nada fará se estiver com sua prancha na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. Quero dizer o seguinte: só a preparação não resolve. Antes de entrar na água, os surfistas verificam onde estão as melhores ondas, não entram na primeira praia encontrada. O empreendedor deve seguir o mesmo raciocínio e procurar as oportunidades de negócio ao invés de se aventurar na primeira ideia de abrir uma empresa. Muitas pessoas estudam nas melhores escolas de negócios do Brasil e do mundo e, na prática, o resultado fica aquém das expectativas.

MPN - Há formas de reduzir as possibilidades de fracasso?

MS-E bastante importante conversar com quem atua no segmento. Fale sem medo sobre suas ideias; elas não serão roubadas, e sim melhoradas por alguém mais experiente e de confiança. Só é necessário cuidados adicionais no caso das inovações. Nesse caso, providencie a patente a fim de reservar seus direitos. A troca de informações lhe ajudará a entender o negócio em si.

MPN - Como é recomendável agir para detectar oportunidades?

MS - Se no mar existe uma força determinando a formação das ondas, o mesmo ocorre com o mercado a respeito das oportunidades. De acordo com o professor do MIT e escritor, Scott Shane, são três os principais pontos a serem observados: inovação, novas leis e mudanças sociais. O primeiro não trata apenas de tecnologia, mas também de processos. O ideal é aproximar-se das universidades, pois nesse ambiente são feitas pesquisas sobre as mais recentes novidades. O segundo mostra o quanto alguma lei recém-aprovada pode gerar novos negócios e oportunidades. Veja como a desregulamentação do setor de Telecom proporcionou a criação de novas empresas. Os lobistas vão ao Senado e ao Congresso com a tarefa de brigar por algumas leis. Eles representam os interesses de segmentos inteiros. O último mostra como as mudanças na sociedade trazem consequências, como, por exemplo, o envelhecimento da população.

MPN - Há formas de vislumbrar o caminho das pedras?

MS - Pergunte a si mesmo o que a empresa quer ser quando crescer. Caso ela dê certo, será parecida com qual companhia? Qual será sua grande rival? Assim, é mais fácil entender o seu produto ou serviço, bem como a realidade do mercado onde está inserido. Dá para aprender muito com esse modelo. Veja também quem são os empresários de sucesso e os procure, pois eles gostam de compartilhar seus conhecimentos. Não são mesquinhos, eles têm prazer em ensinar quem valoriza suas ações.

MPN - O senhor, como professor e coordenador do CEI, pode citar o que o centro oferece?

MS - Trabalhamos com empresas já em funcionamento, mas com os donos um pouco perdidos no mercado, sem saber o que fazer e necessitando de orientação. Escolhemos oito empresários para frequentarem as aulas durante um semestre. Montamos oito grupos no intuito de discutir sobre os cases de cada companhia e desenvolver um plano de negócios. Coordeno todas as atividades e, no final, entrego o planejamento ao proprietário. Quem mora no Rio de Janeiro e se interessar em participar do projeto pode enviar um e-mail para cei@ibmec.com.br.

MPN - E na faculdade, o que é desenvolvido com os estudantes?

MS - Seleciono 30 alunos e ofereço treinamento sobre áreas que não têm nenhuma ligação com o curso deles. Estudantes de economia, por exemplo, frequentam aulas de teatro, cinema e boas maneiras. O objetivo é criar uma mentalidade favorável à inovação. Ela não nasce de um processo natural e, dessa forma, desconstruímos os hábitos das pessoas. Assim, elas conseguem fazer novas conexões e descobrir algo novo nas respectivas áreas de trabalho.