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Decifração do código genético

Publicado em 24 fevereiro 2000

O governo Mário Covas tornou público, há poucos dias, um feito científico de expressão mundial: a decifração do conjunto de genes (genoma) da Xylella fastidiosa, uma praga agrícola causadora de uma doença das frutas cítricas, o "amarelinho", responsável por prejuízos que a cada ano agrícola atingem a casa dos US$ 100 milhões. Coordenado pelo cientista Andrew Sampson, o feito dá ao Brasil a condição de primeiro país do mundo a decifrar completamente um genoma. Estabelece, também, uma metodologia, em vias de patenteamento, que, partindo do RNA (ácido ribonucleico) ao invés do DNA (ácido dexoribonucleico), poderá arrancar os projetos de decifração do genoma humano do vazio em que caíram, a partir do instante em que se caracterizou a impossibilidade de decodificar por inteiro os genes que o constituem. Definiu, também, um modelo vitorioso de planejamento e administração de projetos científicos, no caso um consórcio de 34 laboratórios e 192 cientistas, financiados com recursos da ordem de US$ 15 milhões da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus). Embora a pesquisa tenha como destinatário imediato o enfrentamento de parasitas que afetam a cultura da laranja, tanto assim que o mesmo consórcio se acha em vias de decifrar a seqüência também daquele que ocasiona o Xanthomonas citri, responsável pelo cancro cítrico, suas conseqüências são de uma amplitude extraordinária. Na decifração do genoma humano, afinal tornada possível pelo método aqui desenvolvido, reside a grande esperança da humanidade de encontrar a cura para os muitos tipos de câncer, responsáveis por um crescente número de mortes entre indivíduos diferentes entre si no sexo, idade, grupo social e padrões de comportamento. O extraordinário feito demonstra, para além de qualquer dúvida, a capacidade do Brasil de realizar trabalho científico de primeira ordem. Num outro nível, mas igualmente importante, foi a divulgação da notícia de que a Cooperativa dos Produtores de Cana, Açúcar e Álcool de São Paulo (Coopersucar) começa à produzir em grande escala, no segundo semestre, um plástico biodegradável feito de cana de açúcar. O produto foi desenvolvido no Brasil numa parceria entre a Coopersucar, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e o Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da USP, a um custo de, US$ 6 milhões, e pode ajudar a humanidade a resolver um problema ambiental seriíssimo - o da quantidade cada vez maior de plástico disposta nos aterros sanitários e depósitos de lixo ao redor do globo. Num caso e noutro, a condição fundamental de sucesso é que o Estado se disponha a articular os recursos institucionais e humanos de que dispõe e prover os meios indispensáveis. Uma receita que se choca com ideário neoliberal e o processo de desmantelamento da universidade pública, que também em território paulista vem se fazendo sentir.