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Jornal do Brás

Decepção...

Publicado em 06 agosto 2014

Por Maria Moura Verdade

Caríssimos leitores, depois daqueles 7 a 1 só consegui imaginar a decepção como tema para esta coluna! A palavra significa o malogro de uma esperança, é sinônimo de desilusão, desengano, desapontamento; envolve surpresa desagradável, contrariedade, desgosto. Experiências decepcionantes sempre se relacionam com o fracasso de expectativas ou esperanças pessoais, abrangem decisões e escolhas das quais nos arrependemos, em vista dos seus resultados ruins ou desagradáveis. Expectativas, decepções e tristezas caminham lado a lado. Não importa se nossas desilusões são grandes ou pequenas, todas decorrem de expectativas a respeito de como algo ou alguém deve ser ou vir a ser. São reações dolorosas, produzidas por uma visão de realidade particular, pré-definida e assumida.

Raramente passamos uma semana sem sofrer desapontamentos. Alguns contratempos somente atrapalham um pouco a rotina diária: não encontramos o produto que fomos comprar no supermercado, derramamos café na camisa nova, o namorado chega atrasado ao encontro marcado... Outras circunstâncias constituem adversidades que alteram completamente o panorama existencial. São exemplos de desventuras: a infidelidade do parceiro romântico, uma doença grave que ameaça a própria vida ou a vida de um ente querido, o fracasso no concurso público que permitiria o desenvolvimento da carreira sonhada.

Não importa se as decepções são grandes ou pequenas, todas elas têm algo em comum: resultam de expectativas que determinam como vamos de encontro ao mundo. O problema é que os outros também têm suas próprias expectativas. Igualmente, adotam conceitos e valores preferenciais acerca dos modos de ser em relação a si mesmo e aos outros. Diferentes esperanças são fontes de perturbação no dia a dia — quanto mais altas, maior é o risco da decepção. Dificilmente encontramos pessoas continuamente dispostas a agir com generosidade e desprendimento, em função de nossos melhores interesses. A tendência mais comum é cada um tomar cuidados consigo mesmo, atendendo condições existenciais diferentes das nossas, buscando o próprio caminho da melhor maneira possível. Idealizações a respeito do comportamento e das atitudes dos outros predispõem a frustrações, ansiedades, desentendimentos e mágoas.

Felizmente, podemos mudar pensamentos e fantasias que promovem a decepção e a resposta do estresse. O primeiro passo é desafiar pontos de vista inoportunos, responsáveis por nossa irritabilidade e chateação. Isso ocorre quando refletimos sobre episódios que levaram ao desencanto, avaliando intimamente se nossas expectativas são tão altas que ninguém se dispõe a cumpri-las. Esses cuidados renovam a maneira de pensar circunstâncias que impedem a caminhada para uma vida melhor. Há sempre algo a aprender com nossas decepções – especialmente as mais dolorosas. Desencantos são oportunidades de autoconhecimento e ampliação da percepção do mundo. Eles desvendam ilusões inerentes às nossas aspirações mais infladas. Quem pode garantir que nunca seremos traídos no amor? E desde quando fracassos não fazem parte da vida profissional? Afinal, conforme um dito popular, decepção não mata, ela ensina a viver.

 

Marisa Moura Verdade  é Mestra em Educação Ambiental, Doutora em Psicologia, especializada em Psico-Oncologia. Autora do livro Ecologia Mental da Morte. A troca simbólica da alma com a morte. (Editora Casa do Psicólogo & FAPESP).

E-mail: mmverdade@gmail.com