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Ideia Sustentável

Debênture sustentável já é realidade no Brasil e energia limpa recebe investimentos

Publicado em 12 fevereiro 2020

A empresa geradora de energia Faro Energy anunciou a primeira debênture sustentável do Brasil, a fim de captar investimentos para projetos de geração distribuída de energia solar no país – e também para iniciativas sociais. A debênture prevê a captação de R$ 15 mil.

Uma debênture é um título emitido por empresas de capital aberto a fim de conceder direito de crédito ao investidor, que é remunerado por meio de juros, e sua rentabilidade é superior a muitos investimentos de renda fixa. É uma forma do investidor emprestar dinheiro para empresas. No caso de uma debênture sustentável, os recursos são investidos em projetos com benefícios socioambientais.

A debênture sustentável estreia no Brasil em um momento oportuno. Com as atuais discussões sobre sustentabilidade empresarial e os recentes eventos que abordaram o tema, como o Fórum Econômico de Davos, os investimentos em negócios com propósitos tendem a aumentar globalmente. Um relatório divulgado no início de fevereiro pela Moody’s Investors Service, agência americana de classificação de crédito, aponta que a emissão de ativos que integram critérios de ESG (ambientais, sociais e de governança) deverá aumentar 24% no mundo, o que corresponde a um acréscimo de 400 mil dólares. O crescimento segue uma tendência mundial dos últimos anos em investimentos em negócios sustentáveis.

Dica de leitura: O que é sustentabilidade empresarial? Entenda como surgiu esse conceito e como ele evoluiu ao longo do tempo

Para o consultor Ricardo Voltolini, especialista em sustentabilidade empresarial há mais de 25 anos, o ano de 2020 será o ano da sustentabilidade. “Estamos no início de uma curva ascendente de valorização do conceito na gestão, na estratégia, na cultura e na marca das empresas”, afirma. Segundo Voltolini, as discussões em Davos e o posicionamento de importantes lideranças empresariais, como Larry Fink da BlackRock, impulsionaram a inserção da sustentabilidade de uma vez por todas nos negócios, fazendo das empresas agentes transformadores da sociedade. “Uma das ideias discutidas em Davos, trabalhada em alguns círculos acadêmicos na Europa, é essa ideia de propósito antes do lucro. As empresas deixariam de ser parte do problema e passariam a ser solução para dilemas de pessoas e do meio ambiente. Ela é muito disruptiva, muda muito a forma da empresa se ver”, explica a uma entrevista para o Yahoo Finanças.

Além de ser uma fonte mais limpa e sustentável, a energia solar pode representar uma economia de até 95% na conta de luz de empresas e residências. E representa uma grande oportunidade de investimento no Brasil.

O nível de irradiação solar no Brasil é muito maior que em países que já fazem o uso da energia solar para geração de energia elétrica em grande escala, como a Alemanha. De acordo com o Atlas Brasileiro de Energia Solar, o Brasil possui alto potencial de geração fotovoltaica de energia elétrica, e em sua região menos ensolarada é possível gerar mais eletricidade que no local mais ensolarado da Alemanha. Ou seja, mesmo as regiões com menores índices de radiação solar apresentam grande capacidade de aproveitamento energético, mas o país ainda recebe pouco investimento no setor, e por isso representa ótimas oportunidades.

A Faro Energy tem sede em Londres, na Inglaterra, mas em seu projeto de expansão está com foco total no Brasil, “onde uma nova legislação sobre geração distribuída está sendo reformulada, e estamos orgulhosos de estar na vanguarda do mercado no país”, como anuncia em seu próprio site.

De fato, há muita movimentação na legislação brasileira sobre geração distribuída de energia solar. Em 2012, a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) publicou a Resolução 482, que reduz as barreiras para o avanço da geração distribuída de energia no Brasil. Nesse modelo energético, os consumidores podem produzir sua própria energia por meio de fontes renováveis, como a solar, e distribuir o excedente para as redes das concessionárias, recebendo créditos de energia.

O regulamento da ANEEL foi um marco para o segmento e, somado à queda no custo dos painéis solares – devido aos avanços tecnológicos e de pesquisa no setor -, refletiram em um aumento da participação da energia solar fotovoltaica na matriz energética brasileira: de 0,1% em 2016, foi para 1,3% em 2019.

De acordo com a ANEEL, a energia solar corresponde a 1,387% da matriz energética brasileira.

Contudo, no final de 2019, a ANEEL abriu consulta pública para revisão da Resolução 482 de 2012, como já era previsto. A proposta da consulta pública é sugerir aperfeiçoamentos ao modelo de compensação de créditos ao considerar os avanços no sistema de geração distribuída.

“A ANEEL saiu na vanguarda e, por meio de decisão corajosa, abriu o mercado de geração distribuída no Brasil em momento em que poucos acreditavam ou investiam nessa modalidade. Muito nos orgulha olhar hoje e ver a democratização dessa tecnologia entre os consumidores, com mais de 1.300 MW instalados. O regulador precisa equilibrar a regulamentação de modo que os consumidores que dependem exclusivamente da rede não sejam afetados por consumidores que geram a sua própria energia. Deve haver uma alocação justa de custos. Esse é o papel do regulador”, afirmou em reunião pública André Pepitone, diretor-geral da ANEEL.

Além da resolução da ANEEL, há diversos processos em andamento no Legislativo, como o Projeto de Lei 5.077/2019, que busca aumentar para 7% a participação da energia solar na matriz energética brasileira.

E não é só a energia solar que representa uma oportunidade de investimento no Brasil, mas todo o mercado de energia sustentável, que está em expansão no país. A energia eólica, por exemplo, tem se destacado. De acordo com a Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), o Brasil possui mais de 500 parques eólicos instalados em seu territórios e se posicionou entre os dez primeiros países geradores dessa energia.

De acordo com a ANEEL, vários estudos indicam um grande potencial de geração de energia eólica no Brasil. Uma pesquisa da Fapesp aponta que esse potencial é estimado em cerca de 500 gigawatts (GW), energia suficiente para atender o triplo da demanda atual de energia do Brasil.

Os diversos estudos e levantamentos – muitos em andamento – têm dado suporte e estimulado a exploração comercial dessa energia no país. Ou seja, além da oportunidade para captar investimentos, o que deve ser estimulada com a debênture sustentável lançada pela Faro Energy, a energia eólica também torna-se uma oportunidade para novos negócios. Empresas têm feito negociações com geradoras de energia sustentável, especialmente a eólica, para diminuir suas emissões de gases de efeito estufa e seu impacto socioambiental.

A brasileira Braskem, por exemplo, líder mundial na produção de biopolímeros e a maior produtora de resinas termoplásticas das Américas, firmou contrato com a EDF Renewable do Brasil, empresa especializada na produção de energia renovável, para a compra de energia eólica. O acordo prevê uma movimentação de R$ 400 milhões ao longo de 20 anos e, ainda, a construção de um parque eólico de grande capacidade na Região Nordeste. “Estamos fazendo nossa parte para o desenvolvimento desse setor. Ao investir numa matriz limpa e sustentável, estamos reduzindo a quantidade de emissões de CO2 em 325 mil toneladas ao longo do período do contrato”, explica Gustavo Checcucci, diretor de energia da Braskem.

O investimento em energia limpa é um dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) propostos pela ONU. Esse objetivo em específico procura garantir, a toda a sociedade, o acesso à energia barata, confiável, sustentável e renovável. Contudo, cada um dos ODS pode ser explorado como uma oportunidade para negócios com propósito.

Segundo Luciana Antonini Ribeiro, sócia-fundadora da EB Capital, “os ODS são uma bússola que indica onde existem problemas a serem resolvidos. Além de serem uma oportunidade para gerar retorno aos investidores, pode, ao mesmo tempo, solucionar problemas brasileiros e ajudar a transformar a realidade do país”. Para Luciana, os desafios socioambientais deixam de fazer parte exclusivamente da agenda de governos e da sociedade civil e passam a ser vistos como oportunidades de negócio.

Desse modo, desafios socioambientais brasileiros como saneamento, água, educação, saúde e conectividade tornam-se também temas de negócios, e os ODS servem como um panorama de ideias para empreendedores, que vão desde oportunidades de infraestrutura, como energia limpa e mobilidade urbana, até a outras menos óbvias, como a obesidade infantil. E empresas de private equity com preocupações socioambientais estão à procura dessas ideias, assim como investidores conscientes. A debênture sustentável, portanto, abre uma grande porta para investimentos em projetos socioambientais no Brasil.

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