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Debates e propostas em São Paulo

Publicado em 14 abril 2010

Comunidade científica paulista conclui discussões sobre o futuro do sistema paulista de ciência, tecnologia e inovação, cujo aprimoramento poderá contribuir para o avanço do sistema nacional

A principal contribuição que São Paulo poderia dar ao sistema nacional de ciência, tecnologia e inovação (C&T&I) seria o aprimoramento do próprio sistema paulista. As propostas de melhorias, nesse sentido, vão desde a elaboração de indicadores eficientes de produtividade na inovação até a criação de um instituto virtual de ecologia social e econômica.

As ideias foram discutidas durante a mesa São Paulo e o Sistema Nacional de C&T&I, que encerrou, nesta terça-feira (13/4) a Conferência Paulista de C&T&I, realizada na sede da Fapesp, na capital paulista.

O evento, que teve a participação de mais de 400 pessoas durante dois dias de debates, é uma reunião preparatória para a 4ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, que será realizada em Brasília entre 26 e 28 de maio.

Fernando Landgraf, diretor de inovação do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), defendeu o aprimoramento dos indicadores capazes de estabelecer uma avaliação objetiva do sistema paulista de C&T&I.

Nossa proposta, no IPT, é bastante simples, mas tem um cunho educativo. Ela se baseia em utilizar como indicador de avanço da inovação o número de contratos com cláusulas de propriedade intelectual, disse.

Segundo Landgraf, a Confederação Nacional das Indústrias (CNI) indicou em seu Mapa Estratégico da Inovação que a inovação é um dos pilares para a ação da indústria na construção do desenvolvimento sustentável. O uso de indicadores, por sua vez, é essencial para o avanço da atividade de inovação.

Os institutos de pesquisa devem ser conectores entre a universidade e a indústria, por isso procuramos propor um indicador que leve em conta essa relação. A CNI, representando a indústria, sugere como indicador de avanço da inovação a produtividade dos institutos e universidades, incluindo o número de serviços prestados e total da força de trabalho dedicada à atividade. Mas é um indicador fraco, afirmou.

A vantagem do indicador proposto pelo IPT, segundo Landgraf, é que ele se transforma, ao longo do tempo, em uma meta de inovação. A ideia é enfatizar a pesquisa e o desenvolvimento como demanda. Usando esse indicador, estamos aumentando o número de contratos com cláusulas de propriedade intelectual, afirmou.

A fim de aprimorar o sistema paulista de C&T&I, Shozo Motoyama, diretor do Centro Interunidade de História da Ciência da Universidade de São Paulo (USP), propôs uma maior articulação entre os institutos de pesquisa e as universidades, além da criação de um instituto virtual voltado para questões sociais.

Nosso sistema de inovação é bem desenvolvido, mas pode ser ainda bastante aprimorado. Uma das deficiências é a falta de articulação entre setores de excelência, como os institutos de pesquisa e as universidades. Não existe ainda um trabalho em rede entre eles. Um dos desafios para a inovação no estado seria viabilizar esse tipo de articulação, disse.

Motoyama chamou a atenção para a importância de enfatizar a ação inovativa na área social. Segundo ele, a pobreza, os problemas de saneamento básico, urbanização, violência e intolerância - que são problemas fundamentais da atualidade - não foram tratados ainda de forma articulada, mas apenas em aspectos setoriais.

Minha proposta é ousada. Sugiro a criação, nos moldes do Programa Biota-Fapesp, de um instituto virtual de ecologia social e econômica. Essa ideia, mesmo com todas as dificuldades que ela pressupõe, contribuiria profunda e amplamente para a sociedade paulista, brasileira e global, trazendo subsídios importantes para a adoção de políticas públicas inovadoras em todas as esferas de governos, defendeu.

Luiz Henrique Lopes dos Santos, professor do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), elogiou a proposta de Motoyama, mas lembrou que para a criação de um grande programa voltado para as humanidades é preciso haver demanda clara e organizada da comunidade científica.

Se existe na comunidade científica um vulto significativo de pesquisadores que estão dispostos a dedicar seus esforços a um determinado campo, é importante criar iniciativas de porte como essas. Foi o que presenciei, por exemplo, na ocasião da criação do Programa Genoma. Mas é preciso ter cuidado para não formar, por meio da criação de um grande programa, uma demanda artificial, afirmou Santos, que também é coordenador adjunto de Ciências Humanas e Sociais, Arquitetura, Economia e Administração da Fapesp.

Segundo ele, as humanidades não estão perdendo espaço em relação à oferta de bolsas e investimentos em projetos de pesquisa, como muitos imaginam. Tanto na Fapesp como em nível federal, o que observamos é que tem diminuído o número de solicitações de bolsas e apoios. Isto é, o que está caindo é a demanda, não a oferta de auxílios nas áreas de ciências humanas, afirmou.

De acordo com dados apresentados por Santos, o crescimento das áreas de humanidades é proporcional ao crescimento do sistema de ciência e tecnologia em geral. Os recursos disponíveis acompanham esse crescimento, não só no Brasil mas em todo o mundo.

Além da demanda pouco ousada para grandes projetos em humanidades, temos dificuldade em inserir nossa produção acadêmica na agenda internacional. Trazemos pesquisadores visitantes e vamos ao exterior, mas não conseguimos ainda nos inserir em uma rede colaborativa internacional. Essa atomização da pesquisa é um gargalo importante do nosso sistema, afirmou.

Consensos e prioridades

De acordo com o diretor científico da Fapesp, Carlos Henrique de Brito Cruz, a Conferência Paulista de C&T&I levantou questões fundamentais sobre o Estado de São Paulo, que deverão ser debatidas na Conferência Nacional.

O que me chamou a atenção de maneira positiva foi o fato de que algumas das ideias foram muito recorrentes. Há, portanto, uma convergência entre os vários tópicos apresentados. E as intervenções foram bastante otimistas, mostrando que há um progresso em curso nos sistemas paulista e brasileiro de C&T&I, disse.

Segundo Sérgio Robles Reis de Queiroz, professor do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), alguns dos participantes destacaram o fato de que o elemento determinante da inovação é o imperativo macroeconômico e que, portanto, há limites para as ações indutoras - é preciso ter demanda para impulsionar a tecnologia.

Outro tema importante foi a discussão da negociação da propriedade intelectual entre empresas e universidades. É preciso caminhar em direção à criação de uma jurisprudência capaz de definir o que é razoável para a empresa conceder e o que é razoável para a universidade solicitar na hora de firmar os contratos, disse.

Segundo Walter Colli, professor do Instituto de Química da USP, os participantes observaram que a pesquisa básica não está relegada a segundo plano na questão da inovação. Foi feita, segundo ele, a proposta de que haja uma maior horizontalidade nos temas da pesquisa básica, com mais multidisciplinaridade.

Algumas áreas focais apontadas foram as nanotecnologias - visando aspectos ambientais e o desenvolvimento de energias renováveis -, a e-science, ou ferramentas conceituais para lidar com quantidades maciças de dados, a nanobiotecnologia e, principalmente, as ciências sociais e humanas - em especial estudos sobre a metrópole, os sistemas de transporte, as fontes de energia e a habitação de baixo custo, afirmou.

Outro ponto importante observado, segundo Colli, que também é um dos coordenadores adjuntos de Ciências da Vida da Fapesp, é que as institucionalidades estão mal desenhadas no sistema de C&T&I: é preciso redefinir e reforçar esse conceito, criando regras precisas.

Uma das ideias destacadas, por exemplo, é que os Parques Tecnológicos são pensados há duas décadas como empreendimentos imobiliários e não como um foco de retroalimentação de ideias, disse.

De acordo com Hernan Chaimovich, coordenador dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) da Fapesp e vice-presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), um dos pontos de convergência dos debates foi a ideia de que a noção de internacionalização é mal compreendida em diversos setores da academia.

A internacionalização que buscamos não é o intercâmbio internacional, mas a inserção internacional - isto é, o poder de determinar políticas editoriais e a capacidade de fazer pesquisa colaborativa em nível internacional, por exemplo, disse.

Segundo Chaimovich, em vários momentos os palestrantes concordaram que há necessidade de aumento da inserção política das instituições que fazem pesquisa.

Uma parceria entre as instituições públicas paulistas que fazem pesquisa e desenvolvimento e as associações nacionais e estaduais de empresários poderia tornar nosso sistema menos dependente dos fatores macroeconômicos, afirmou.

(Fábio de Castro)

(Agência Fapesp, 14/4)