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Debate na “Science”: biólogos refutam maior predação de ovos em aves no Ártico

Publicado em 17 junho 2019

Por Luanne Caires

Estudo contraria achados de que mudanças climáticas teriam aumentado predação de ovos de aves costeiras; os mesmos cientistas ressaltam, porém, que efeitos das mudanças climáticas na biodiversidade são uma realidade e devem ser estudados

Apesar das mudanças no clima e nos ecossistemas, a predação em ninhos de aves limícolas, geralmente associada a regiões úmidas, como zonas costeiras e estuários, mudou pouco ao longo dos últimos 60 anos. A conclusão é de um estudo conduzido por 60 pesquisadores de vários países, entre eles o Brasil. Publicado no dia 17 na revista científica Science, o trabalho desafia uma publicação recente que detectou aumento na predação de ovos de aves limícolas na região ártica. Para os pesquisadores, o resultado do trabalho anterior é fruto de escolhas e alterações metodológicas e não reflete um padrão da natureza.

Em novembro de 2018, Vojtech Kubelka, pesquisador da Universidade Charles, na República Checa, publicou um trabalho em parceria com colaboradores demonstrando o aumento na predação de ovos de aves limícolas ao redor do mundo. O aumento seria relacionado a mudanças climáticas e estaria mudando o padrão de predação ao longo do eixo norte-sul do globo. Antes, a predação de ovos costumava ser maior nos trópicos e nas regiões temperadas do Hemisfério Norte. Agora, os ovos de aves limícolas são mais predados no Ártico devido às mudanças na relação entre predadores e presas da região. Para chegar a estes resultados, Kubelka e colaboradores analisaram dados históricos de mais de 38 mil ninhos, provenientes de 237 populações de aves investigadas em estudos anteriores.

Intrigados com o padrão descrito no estudo, outro grupo de cientistas decidiu reanalisar os dados apresentados. A análise foi liderada por Martin Bulla, pesquisador do Instituto para Ornitologia que integra a rede Max Planck, na Alemanha. Bulla desenvolve estudos com aves limícolas do Ártico desde seu doutorado e notou um descompasso entre o padrão que ele via em sua própria pesquisa e os resultados descritos por Kubelka.

Segundo Eduardo Santos, pesquisador do Instituto de Biociências (IB) da USP e um dos autores do trabalho publicado hoje, a maior crítica ao estudo feito por Kubelka e colaboradores é o fato de os resultados estatísticos apresentados não embasarem as conclusões. Para saber se a predação de ovos no Ártico aumentou mais do que em outras regiões nas últimas décadas, é preciso considerar os efeitos conjuntos do Hemisfério (Norte ou Sul), da latitude (que aumenta em direção aos polos) e do ano de coleta dos dados sobre as taxas de predação de ovos. Caso as taxas de predação aumentassem ao longo do tempo especialmente em regiões de alta latitude no Hemisfério Norte, onde se localiza o Ártico, haveria evidências satisfatórias para a conclusão de Kubelka e colaboradores.

No entanto, a análise que inclui a interação entre esses três fatores não foi feita no estudo original. “No trabalho publicado em novembro, ao autores não investigaram o efeito conjunto do Hemisfério, da latitude e do tempo. A conclusão de que a predação de ovos aumentou mais no Ártico do que em outras regiões depende dessa interação, então não é possível dizer que o aumento observado no Ártico supera o de outras partes do mundo”, afirma Eduardo Santos.

De fato, ao reanalisar os dados, Bulla e colaboradores incluíram esta análise e observaram que ela tem menor poder explicativo do que a análise que considera apenas os efeitos da latitude ao longo do tempo. Isso significa que a taxa de predação de ovos realmente tem aumentado, mas que esse aumento é lento e ocorre igualmente ao redor do globo. A única exceção é a região temperada do Hemisfério Sul, na qual a predação dos ovos aparenta ser mais baixa do que nas demais áreas.

A mudança está nos métodos de pesquisa

Outra crítica importante diz respeito ao próprio conjunto de dados utilizado nas análises. As informações sobre a predação das aves datam desde a década de 1940 e incluem diferentes esforços de observação. Isso quer dizer que, nos estudos que geraram os dados utilizados por Kubelka e colaboradores, os ninhos foram observados por uma quantidade diferente de dias, cobrindo etapas distintas do período de nidificação, isto é, o período desde a postura até a eclosão dos ovos. Além disso, em alguns estudos a informação sobre o período de observação dos ninhos não estava disponível e foi preciso estimá-la.

O tempo durante o qual os ninhos são observados influencia os resultados de predação dos ovos, com ninhos que são observados por menos tempo tendendo a taxas maiores de predação. Com isso, a falta de precisão nos dados usados por Kubelka e colaboradores pode ter levado a padrões que não refletem o que ocorre na natureza. “Desde os anos 2000, a forma de medir predação de ovos nos ninhos melhorou muito, ficou mais intensiva e eficiente. O tempo de observação também passou a ser descrito com mais precisão nos trabalhos. Isso tudo diminui as incertezas dos dados e faz com o conjunto de dados históricos, coletado até 2000, seja muito diferente do conjunto de dados mais atuais. Seria preciso analisá-los separadamente”, explica Eduardo Santos.

Ovos e filhote de quero-queros, um tipo de ave limícola. Nesta espécie, os ovos são depositados diretamente no chão e as fêmeas sentam-se sobre eles para incubá-los – Foto: Eduardo Santos/IB

A mudança na qualidade dos dados coincide com a suposta aceleração nas taxas de predação no Ártico descritas por Kubelka e colaboradores. A conclusão é que, na verdade, não foi a taxa de predação de ovos que aumentou abruptamente no Ártico, mas sim a capacidade de os pesquisadores detectarem que os ovos estavam sendo predados.

Considerar os efeitos das mudanças climáticas é preciso

Apesar de refutarem um estudo que coloca as mudanças climáticas como causa de impactos graves na biodiversidade, Bulla, Eduardo Santos e os demais autores reforçam que os efeitos das alterações no clima são complexos e não podem ser ignorados. “Precisamos nos preocupar com os efeitos que a crise climática tem sobre as espécies. Mas precisamos fazer isso de forma responsável e cuidadosa, pois os resultados das pesquisas baseiam investimentos em novas pesquisas e em políticas públicas. Não dá para direcionarmos investimentos com base em resultados equivocados”, destaca Eduardo Santos.

Kubelka e colaboradores ainda têm direito de resposta às críticas levantadas. Acompanhe a discussão em inglês no site da revista Science.

Luanne Caires, do IB-USP e Programa Mídia Ciência (Fapesp), para o Jornal da USP