Notícia

JC e-mail

Debate discute agendas de pesquisa e novas áreas do conhecimento

Publicado em 10 junho 2016

Para todos os participantes do debate “Novas agendas de pesquisa e novas áreas de conhecimento”, que aconteceu nesta quinta-feira (09/06), último dia do II Congresso Acadêmico da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), as mudanças de atitudes significativas no setor empresarial e, especialmente, no setor acadêmico são imprescindíveis. A atividade contou com a participação da presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Helena Bonciani Nader, do secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento (Seped), do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), Jailson Bittencourt de Andrade, e do diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Carlos Henrique de Brito Cruz.

 

Segundo Andrade, a base da agenda para o século XXI deve ter como objetivo sustentabilidade, interdisciplinaridade e inovação. “É preciso requerer uma reconfiguração ampla do ensino fundamental à formação de pós-doutores. São necessárias novas atitudes, novos currículos, novas concepções, novas formas de instituições educacionais e de instituições de pesquisa científica e tecnológica, onde a criatividade e a coerência intelectual predominem”, explicou.

 

“Para que o Brasil possa realizar o sonho de uma sociedade próspera, justa e soberana, é decisivo avançar na estruturação de uma base econômica apoiada em um processo dinâmico de inovação, por meio da construção de uma agenda ambiciosa de CT&I, que deve ter como alicerce a educação e a pesquisa básica de qualidade”, explica o secretário do Seped.

 

Quanto ao conceito de inovação, Andrade fez um paralelo e afirma que a inovação feita na universidade é desenvolvida pelas “ideias”, com foco na comunidade. Já no mundo empresarial, ela é baseada em “coisas” para o mercado. Segundo ele, as molas propulsoras são plausíveis, porém, é preciso que haja uma convergência para que as visões e conceitos sejam integrados para se formar uma parceria. “A visão precisa ser integrada e não fragmentada para termos uma economia forte”, disse.

 

Contexto

 

Nader, por sua vez, ressaltou que para pensar em novas agendas de pesquisa, é preciso, antes, situar a ciência feita no Brasil. “O Brasil é responsável por 2,7% da produção científica mundial. Desde 2014, o País ocupa o 13º lugar, tanto em produção quanto em citação. Em algumas áreas do conhecimento, a ciência brasileira está acima desta média. O Brasil aumentou não só o número, mas também a qualidade de nossas publicações e isso pode ser observado em todas as áreas do conhecimento”, disse, afirmando que é uma boa colocação, mas que um dos desafios atuais é aumentar a qualidade da produção científica do País.

 

Quanto à interdisciplinaridade, a presidente da SBPC ressaltou sua importância e disse que a ciência brasileira tem atuado em conjunto. “Embora a interdisciplinaridade no Brasil seja recente, houve um crescimento ao longo dos anos. Umas das áreas mais interdisciplinares no País é a de saúde”, comenta.

 

Porém, quando o assunto é inovação, o País não está em situação confortável. Se comparado a 2013, o Brasil caiu seis posições no ranking Global Innovation Index 2015, amargando o 70º lugar. Em primeiro e segundo lugar, encontram-se, respectivamente, Suíça e Reino Unido. Nader fez questão de ressaltar que o Marco Legal da CT&I veio para reforçar o diálogo e unir a academia, a tecnologia e a classe empresarial, que são justamente os atores que fazem a inovação acontecer. “Infelizmente, um dia após a sanção do Marco Legal, em janeiro, descobrimos oito vetos, que ainda precisam ser derrubados. O texto final da lei retirou dispositivos essenciais para eliminação de gargalos que dificultam e cerceiam o desenvolvimento da inovação no Brasil”, afirmou.

 

Nader, que é professora e pesquisadora na Unifesp, disse que o Brasil tem ficado para trás em relação a outros países em desenvolvimento, como a China e Coreia, que estão apostando em pesquisa em plena crise, porque acreditam que o desenvolvimento científico e tecnológico é fundamental para sair dela. “Gostaria que um presidente brasileiro fizesse a mesma coisa que o da China fez. O presidente chinês disse que a Ciência é a plataforma do País. Que é a base. Sem ciência não vai ter China. Em plena crise, eles aumentam os investimentos porque consideram que esse é o caminho para sair dela de forma sustentável. Lá há metas”, disse, ao lamentar que o mesmo ainda não acontece no Brasil.

 

Como desafios para uma nova agenda, a presidente da SBPC ressaltou que é preciso melhorar a educação científica, com finalidades na redução das desigualdades; a divulgação dos resultados para a sociedade, para mostrar como a ciência está próxima do cotidiano; e o avanço nas cooperações internacionais. “Nunca estarei satisfeita enquanto o Brasil não estiver entre os países que melhor fazem ciência”, finaliza.

 

Financiamento em C&T

 

A ciência de qualidade, publicada em periódicos científicos internacionais, embasa o debate sobre a agenda de pesquisa nacional. “Para fazer parte desse debate, cientistas do Estado de São Paulo e do Brasil precisam elevar o nível de originalidade, sofisticação e o impacto das suas pesquisas a fim de que seus artigos tenham mais influência na ciência mundial, sendo mais citados na literatura”. Esse foi o um dos desafios proposto pelo diretor científico da Fapesp.

 

Brito Cruz também ressaltou que o Brasil é grande e que é preciso tratar a sua diversidade de maneira regional. “A política de CT&I não pode ser feita na base da média nacional e, sim, na base regional. Mesmo porque a política que vai incentivar a inovação em São Paulo deve ser diferente em outras regiões, como por exemplo, no Amazonas. É preciso respeitar a diversidade regional”, disse.

 

Segundo ele, quando se trata de investimento em ciência e tecnologia, houve um aumento nos últimos anos, porém pequeno. “O investimento nessa área tem aumentado no Brasil. Em 2000, eram investidos 1,06% do PIB. Em 2013, passou para 1,24%”, disse, alertando que os investimentos por parte do setor empresarial, por outro lado, caíram no mesmo período.

 

Segundo Brito Cruz, a despesa total em P&D em São Paulo é substancialmente maior do que a verificada nos outros estados brasileiros. “São Paulo investe 10 vezes mais que o Rio de Janeiro. Mas não é 10 vezes mais rico. É preciso achar uma nova maneira de investir”, afirma.

 

Para modificar o cenário atual, o diretor científico da Fapesp disse que é preciso publicar mais em língua inglesa, ampliar as parcerias no âmbito nacional e internacional e estimular pesquisas com caráter interdisciplinar.

 

Vivian Costa/Jornal da Ciência