Notícia

Gazeta do Povo online

De volta às cavernas. Faz bem

Publicado em 22 maio 2009

Por Francisco Camargo

Na mansão da Vila Piroquinha, Natureza Morta está eufórico. Discursa sobre a gruta de Lascaux, na França, a “Capela Sistina” da Pré-História e seu imenso leque de pinturas rupestres. Algo de 17 mil anos, por baixo. Com a exploração turística, problemas. Além da previsível goma de mascar e das guimbas de cigarro, a respiração dos civilizados provocou um processo de cristalização sobre as pinturas.

A alegria de Natureza procede: ele é uma espécie de Indiana Jones de subúrbio, segundo Beronha, para quem, aliás, rupestre viria de rúpia (sic).

Natureza corrige, diplomaticamente: Indiana Jones? Caso seja necessária uma comparação, gostaria de me ver Martin Mystèry, o detetive do impossível. (NR: trata-se do famoso gibi criado por Alfredo Castelli e Giancarlo Alessandrini, que foi lançado na Itália na década de 80 e que no Brasil virou Martin Mystere).

Natureza diz que seria melhor até porque aí daria para encaixar o Beronha na história...

– O nosso anti-herói?

– Sim, como o Java...

(NR: Java é o fiel amigo e assistente de Martin, na verdade um homem de Neanderthal, encontrado no Himalaia...)

Retomando o fio da meada. A felicidade de Natureza começou com a edição deste mês da Revista Pesquisa, da Fapesp, que traz a descoberta de outro tesouro, agora no Brasil, tema de matéria assinada por Marcos Pivetta. Transcrevo: os primeiros estudos no Parque Nacional da Serra das Confusões, no Piauí, sugerem que o semiárido pode ter uma riqueza arqueológica tão grande quanto à do seu ilustre vizinho, o Parque da Serra da Capivara, com mais de 1.300 sítios pré-históricos.

Escavações de pesquisadores da Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham) levaram a pinturas e sepulturas com idade estimada de 6 mil anos, com características distintas das achadas na Serra da Capivara.

A arqueóloga Niède Guidon, presidente da Fumdham, também comemora: há trabalho “para pelo menos duas gerações de pesquisadores”. Na pista de povos pré-históricos, foram encontradas na Toca do Enoque duas sepulturas, uma individual e outra coletiva. Na cova comunitária foram resgatadas 13 ossadas. Quase todos os esqueletos exibiam adornos, como colares e conchas, e tinham o tórax pintado com ocre, segundo a arqueóloga Fátima Luz. “Nunca vi um padrão de enterramento parecido com esse na Capivara.” A datação de carvões apontou uma idade aproximada de 6.200 anos. Em outro sítio, na Toca do Alto do Capim, as paredes e o teto são cobertos por pinturas.

Niède defende a ideia de que o homem pré-histórico fincou pé no Brasil há algumas dezenas de milhares de anos, talvez 100 mil anos atrás. O homo sapiens teria deixado a África chegando ao Piauí por via oceânica, depois de atravessar o Atlântico no momento em que uma grande seca naquele continente o tangiu para o mar, em busca de comida.

Na visão tradicional, a hipótese é de que a chegada do homem às Américas ocorreu há 13 mil anos. Ele veio da Ásia pelo Estreito de Bering.

Nosso Indiana Jones, ou Martin Mystèry (ou Mystere), permanece indócil – a mente fervilhando.

Beronha pesquisa quem tenha sido o tal “cabôco” de Neanderthal.