Notícia

Revista Kappa Magazine (São Carlos)

De São Carlos para o mundo

Publicado em 28 outubro 2019

Da nanotecnologia utilizada para um diagnóstico capilar a peças anticorrosivas que otimizam o trabalho em grandes siderúrgicas, São Carlos oferta ao mundo soluções práticas criadas por meio de pesquisas realizadas em suas universidades. O cosmético mais eficaz, a água mais limpa, sensores que salvam vidas, entre outras melhorias que impactam todas as formas de vida no planeta surgem a partir do trabalho em laboratórios dedicados a ciência e tecnologia. Até a arte ganha espaço na vida dos pesquisadores, que ampliam partículas invisíveis a olho nu e a fotografam, criando a nanoarte com belas imagens, que são verdadeiros “alimentos para a alma.

Algumas dessas tecnologias aplicadas na vida cotidiana são feitas no Centro de Desenvolvimento de Materiais Funcionais (CDMF) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Para Elson Longo da Silva, diretor do CDMF, esse conhecimento acaba afetando toda a cidade, pois cria um ambiente rico em termos científicos. “No dia a dia vemos o taxista falando em tecnologia durante um bate-papo informal. Isso tudo agrega conhecimento ao são-carlense , acrescenta. Entre os trabalhos realizados na universidade, ele destaca um dos primeiros que ganharam importância no cenário nacional. Mudamos todos os refratários da Companhia Siderúrgica Nacional, trabalho que começamos há 30 anos, mostrando a riqueza da ciência do nosso pais, que dependia muito do exterior. Isso hoje gera um lucro anual acima dos 100 milhões de dólares. São Carlos está ajudando o país a melhorar , completa.

TRES DECADAS DEDICADAS A PESQUISA EM MATERIAIS

O Laboratório Interdisciplinar de Eletroquímica e Cerâmica (LI EC) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) tem uma história de 37 anos de atuação em pesquisa cientffica, desenvolvimento de produtos e processos inovadores, formação de cientistas e atividades de extensão.

A ideia de criar um laboratório interdisciplinar surgiu em 7988, a partir de discussões envolvendo três professores pesquisadores, dois da UFSCar e o terceiro da UNESP- Araraquara, com formações nas áreas de Qufmica, Física e Físico-Qufmica. Tratava-se de Elson Longo da Silva, Lufs Otávio de Sousa Bulhões e José Arana Vare/a (falecido em 2016). ''11 ideia surgiu porque tfnhamos conseguido equipamentos, resultantes de auxílios de agências financiadoras, mas não havia espaço suficiente em nossos respectivos departamentos para a/oca-/os': relatou flson Longo, professor emérito da UFSCar. A ideia pôde ser realizada graças a uma parceria com a Companhia Brasileira de Metais e Metalurgia (CBMM) para financiar a construção do prédio que albergaria os equipamentos. A empresa, contou Longo, tinha interesse em que o futuro laboratório desenvolvesse alguns produtos. "Desta sorte, logramos seu apoio para a construção do prédio na UFSCar; disse Longo. Logo mais, o laboratório começou a receber estudantes interessados em participar das pesquisas. Os primeiros, lembra Longo, foram Edson Roberto Leite (hoje professor da UFSCar), Carlos Alberto Paskocimas (atualmente na UFRN) Ernesto Chaves Pereira (UFSCar) e Maria Aparecida laghete (UNESP).

"Pode-se dizer que, ao longo desses 30 anos, foram centenas de estudantes que realizaram seus estudos no L/EC disse Longo. Além de estudantes de vários cursos da UFSCar, o L/EC recebeu jovens de outras instituições do Brasil e do exterior para aulas, cursos e trabalhos de pesquisa em todos os níveis de formação. Parcerias com o setor industrial marcariam a história do L/EC nos anos seguintes. "Os vários temas de pesquisa foram se desenvolvendo e também mudando a partir das reflexões teóricas, dos contatos com várias empresas'; conta Longo. "Friso que não se tratou da produção de um conhecimento reflexo das necessidades empresariais; ao contrário, tais necessidades suscitaram novos modelos interpretativos e diálogos com outras teorias; esclarece o professor. Um dos parceiros industriais de mais longa data é a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), com a qual o laboratório continua trabalhando. Inicialmente, o L/EC ajudou a empresa a eliminar a corrosão que sofria o queimador cerâmico. ''11 solução desse problema colocou a equipe pesquisando e resolvendo problemas do alto forno, canal de corrida, carro torpedo, conversor etc.'; lembra. Outro dos exemplos citados por Longo é o da parceria com a 3M do Brasil.

O L/EC colaborou com a empresa na implantação de uma fábrica de varistor em Ribeirão Preto. "Essa colaboração nos permitiu abrir outra subárea de pesquisa, por meio da qual produzimos o primeiro varistor à base de óxido de estanho'; contou o professor emérito. Paralelamente aos projetos com empresas, o L/EC realizava, desde o infcio, pesquisas em cerâmica estrutural à base de óxido de zircônia estabilizado com terras raras e metais alcalinos terrosos. Nesse contexto, iniciou-se a colaboração do laboratório com o qufmico teórico Juan Andrés, professor da Universitat Jaume I (Espanha). Quanto às atividades de extensão, o L/EC também tem exemplos bem-sucedidos, como o projeto por meio do qual levou conhecimento técnico a artesãos de cerâmica artística de nove estados brasileiros.

DE LABORATORIO MULTIDISCIPLINAR A CENTRO DE DESENVOLVIMENTO DE MATERIAIS

O ano 2000 foi um ponto de inflexão na trajetória científica do L/EC. O laboratório foi aprovado na chamada de projetos CEPID da FAPESP, passando a se denominar Centro Multidisciplinar para o Desenvolvimento de Materiais Cerâmicos (CMDMC), e tendo garantia de financiamento continuo por 7 7 anos. Nesse contexto, foi criada a área de difusão do conhecimento, multiplicaram-se as colaborações internacionais (abrangendo mais de uma dúzia de países), e deu-se apoio à geração de empresas spin-off. Desse ambiente surgiram a Nanox, especializada em nanopartfculas bactericidas e a CosmoScience, dedicada à caracterização de cosméticos. "O L/EC nesse momento iniciou uma profunda modificação nas pesquisas de semicondutores cerâmicos, utilizando o método Pechini conta Longo.

"Houve um crescimento significativo nas pesquisas em materiais piezoelétricos, sensores, partfculas nanométricas e filmes finos para utilização em memórias não voláteis'; diz o fundador do L/EC. Em 20 7 3, o laboratório foi novamente contemplado com o projeto CEPID da FAPESP, passando a ser denominado Centro de Desenvolvimento de Materiais Funcionais (CDMF). Nesta fase, que se prolonga até a atualidade, a difusão do conhecimento cresceu notoriamente por meio do uso das redes sociais e da elaboração de vfdeos, jogos educativos e programas de rádio e televisão. Além disso, pesquisadores do L/EC estabeleceram duas spinoffs, a NChemi Nanomaterials, de nanomateriais, e a Katléia, especializada em diagnóstico capilar. Nas atividades de pesquisa científica, o laboratório tem concentrado esforços na obtenção de nanopartfculas semicondutoras com rígido controle da cinética da reação e da morfologia. Longo expressa algumas palavras para as novas gerações de pesquisadores, que darão continuidade ao trabalho.

A eles, o professor emérito recomenda que plantem novas sementes para obterem outras colheitas, que criem seus próprios modelos e se reinventem. "Nestes momentos de crise moral e ética que atravessam o nosso país, aliados a um projeto silencioso de desmonte da pesquisa e do ensino público em todos os níveis, é imprescindível que reunamos energias para muitos enfrentamentos presentes e futuros”.