Notícia

Correio Popular

De rota bandeirante a centro aeroportuário

Publicado em 14 julho 2005

Trajetória
O transporte faz parte do DNA de Campinas, cidade fundada pelos desbravadores do Caminho de Goiás

Seja sobre o lombo de mulas, dentro de vagões de trens, de caminhão ou avião a jato, o transporte de mercadorias e pessoas sempre foi (e continua sendo) determinante para o desenvolvimento de Campinas. A fundação da cidade se confunde com as expedições organizadas pela Coroa Portuguesa para desbravar o sertão entre os séculos 17 e 18. Pouso de bandeirantes que por aqui encontravam água corrente à vontade e pasto para os animais, o ponto de parada transformou-se em povoado, com fundação oficializada por meio de uma missa celebrada em 14 de julho de 1774. No século 19, o ciclo do café impulsionou a construção de ferrovias e Campinas tornou-se ponto estratégico para os trens das companhias Mogiana e Paulista. Estocada na cidade, a produção cafeeira de todo o Estado seguia de trem daqui para o Porto de Santos — uma atividade econômica que gerou centenas de negócios e fez prosperar o comércio local. Situação semelhante se repetiu na segunda metade do século 20. A cidade foi contornada por um entroncamento rodoviário estratégico, que ligou a região com os estados do sudeste, centro-oeste e sul do país. Paralelamente, o Aeroporto Internacional de Viracopos gerou oportunidades de incremento da atividade econômica com a possibilidade de inserir Campinas no comércio global.
É uma espécie de quarta onda de desenvolvimento que a cidade está prestes a vivenciar, como prevê o economista Josmar Cappa, responsável por um estudo financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) que analisa os impactos socioeconômicos da ampliação do Aeroporto de Viracopos. "Temos uma chance histórica. Desde a fundação, o desenvolvimento da cidade teve relação com sua localização geográfica", observa. Mas, para não perder o bonde, ou melhor, o jato da história, a cidade deve se preocupar com a resolução de problemas que ameaçam inviabilizar a ampliação de Viracopos. Atualmente, o principal entrave para a construção da segunda pista de pousos e decolagens está na questão fundiária. Como promover um processo de desapropriação socialmente justo e para onde levar cerca de 4 mil famílias que hoje vivem no entorno do aeroporto? São questões que devem ser respondidas por todas as esferas de poder envolvidas com a ampliação do aeroporto.
Cappa vai além e afirma que não apenas o problema da transferência das famílias deve ser equacionado, como também a definição da vocação de Viracopos. "A cidade não pode aceitar um aeroporto essencialmente cargueiro, temos de lutar para que tenhamos vôos de passageiros", enfatiza. O fluxo de passageiros, segundo o economista, é essencial para que Viracopos seja um aeroporto que "sirva a Campinas" e não apenas "se sirva de Campinas". É bem verdade que a Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero) prevê no projeto de ampliação do aeroporto campineiro um terminal com capacidade para 55 milhões de passageiros/ano — número que se torna um colosso se comparado com a atual movimentação de 600 mil passageiros/ano, basicamente de vôos domésticos. Há cerca de seis meses, Viracopos opera duas rotas internacionais de passageiros com vôos para Buenos Aires (direto) e Frankfurt (escala Rio de Janeiro), mas a demanda ainda não está consolidada e as companhias aéreas pouco investem na divulgação dessas rotas. Portanto, um megaterminal de passageiros será viabilizado no futuro "conforme a demanda", prevê a Infraero. "A demanda deve ser 'forçada' por nós, Município e sociedade civil", defende Cappa ao destacar as vantagens do aeroporto ter um fluxo significativo de passageiros. "Primeiro, Viracopos deve ser o caminho natural de passageiros de vôos domésticos e internacionais que residem em Campinas e nas regiões oeste e norte do Estado de São Paulo. Não faz sentido você morar em Bauru ou São Carlos, por exemplo, e se deslocar por rodovias até a Capital, enfrentando todo o estresse da marginal para pegar um vôo em Guarulhos", compara. "Em segundo lugar, a alta demanda por vôos de passageiros em Viracopos induzirá efeitos multiplicadores na atividade econômica do município, mudando a inserção de Campinas no contexto nacional", afirma, ao prever incremento nos setores de comércio e serviços, como hoteleria, por exemplo.

Trem
A demanda por vôos de passageiros também obrigará a cidade a repensar os sistemas de acesso ao aeroporto. "Nenhum lugar do mundo comportaria um terminal com fluxo de 55 millhões de passageiros/ano apenas com acesso rodoviário", alerta Cappa. Segundo ele, a concretização dessa demanda forçará, obrigatoriamente, a reativação do transporte ferroviário de passageiros, "com trens rápidos, modernos e não-poluentes", observa. O economista destaca que a cidade hoje já dispõe de traçado para tal empreitada. "A linha desativada do VLT, com conexão pela antiga Estação Central da Fepasa, liga o centro da cidade até a região dos DICs, faltando apenas um ramal de cerca de dois quilômetros até Viracopos", destaca. Propostas semelhantes encontram ressonância em diversos setores da sociedade, e é isso que o leitor verá a seguir: perspectivas de desenvolvimento socioeconômico para Campinas a partir da ampliação do Aeroporto de Viracopos e modernizações de outras modalidades de transportes.

Plano diretor de Viracopos receberá R$ 224 milhões
A Infraero vai investir em até 2008 em Viracopos R$ 224 milhões. A verba será aplicada na implantação de melhorias no pátio de movimentação de aeronaves; ampliação dos sistemas de terminais de cargas de importação, exportação e courrier (encomendas expressas); cadastramento e desapropriação dos imóveis situados na área de construção da segunda pista de pousos e decolagens; equipamentos de navegação e obras complementares.
Mas, para dar prosseguimento ao plano diretor do aeroporto, a Infraero terá que conseguir a Licença de Operação (LO) de Viracopos. O terminal aeroportuário ainda não tem o Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto sobre o Meio Ambiente (EIA-Rima) exigidos por lei. A questão ambiental permeia as negociações entre a Infraero e o governo do Estado para a ampliação do aeroporto. O assunto também provoca especial atenção do Conselho Municipal do Meio Ambiente (Comdema).
Atualmente, a Infraero negocia com a Secretaria de Estado do Meio Ambiente a concessão de uma Licença de Operação (LO), por meio de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), para que as obras programadas até 2008 não sofram atrasos. São projetos previstos para serem desenvolvidos dentro do atual sítio aeroportuário, de 9 quilômetros quadradros. Já a construção da segunda pista, que praticamente dobrará a área do sítio aeroportuário, fazendo o complexo ocupar 17 quilômetros quadrados, somente ocorrerá após a desapropriação da área envoltória, a transferência da população que vive no local e a aprovação do EIA-Rima. Todo esse processo, na melhor das hipóteses, está previsto para se concretizar a partir de 2008, quando terminar primeira fase de execução do plano diretor do aeroporto.

14 mil volumes de cargas são movimentados diariamente em Viracopos
430 cidades brasileiras exportam por Viracopos
4 mil destinos em todo o mundo recebem as cargas exportadas pelo aeroporto campineiro
7 mil empregos diretos são gerados pelo aeroporto
600 mil passageiros por ano são atendidos atualmente
2 milhões de passageiros/ano é a capacidade do atual terminal
55 milhões de passageiros/ano será a capacidade do futuro terminal com a operação da segunda pista de pousos e decolagens
80% da carga de correio aéreo no Brasil passa por Viracopos
34% das exportações brasileiras pelo modal aéreo no Brasil partem de Viracopos
32% das importações via aérea do Brasil desembarcam em Campinas