Notícia

Gazeta Mercantil

De onde vão brotar as inovações

Publicado em 07 maio 1997

Por Nivaldo T. Manzano - de Brasília
O modelo atual de ganhos de produtividade, sem consideração para a qualidade e o meio ambiente, está com seus dias contados. É do saldo negativo deixado pelo padrão produtivista dos últimos 50 anos que brotam as inovações, exigindo estreita cooperação entre a iniciativa privada e os institutos públicos de pesquisa agropecuária Abra a semente e dentro vai encontrar petróleo. O tripé atual em que se apóia a tecnologia agrícola - fertilizantes químicos, agroquímicos e mecanização - tem no petróleo sua base fundamental, comum aos três pés. O nitrogênio dele retirado, por exemplo, é o componente mineral mais importante na nutrição das plantas. Uma das primeiras instituições de pesquisa no mundo a tentar reduzir o risco dessa dependência foi a Embrapa, ao substituir em 1975 o petróleo por fontes biológicas gratuitas de nitrogênio na produção moderna em larga escala de leguminosas, como a soja, o que representa para o Brasil uma economia de R$ 1,5 bilhão por ano. Em que pese, a dependência tecnológica atual da agricultura do tripé conhecido como produtivista - por orientar-se para ganhos de produtividade, numa perspectiva estritamente quantitativa - existem muitas evidências de que a fórmula tríplice, que levou a agricultura a crescer majestosamente nos últimos 50 anos, está com seus dias contados. Todo o fervilha-mento de inovações em curso tem como guia a substituição futura do tripé por um outro padrão, que contemple os aspectos da qualidade e da conservação ambiental, antes esquecidos, reduzindo a participação do petróleo, dos agroquímicos e da mecanização pesada. Isso quer dizer, simplesmente, uma revolução na agricultura. Algumas linhas de força dessa revolução já são visíveis. Mas parece cedo para prever quais são as áreas de inovação que irão assumir a liderança tecnológica e como ficará a recomposição de forças no agribusiness. O certo é que as tecnologias associadas aos ganhos exclusivos de produtividade, da posição hegemônica que detinham, deverão ceder lugar a um conjunto inteiro de inovações, vindas principalmente das áreas de ponta - biotecnologia, engenharia molecular etc. A nova semente A indústria do petróleo foi uma das primeiras a perceber. Já em 1984, e com atraso de uma década em relação à British Petroleum, Royal Dutch e Exxon, a Elf Aquitane, que detinha três quartos do mercado francês de derivados de petróleo, comprou duas das principais empresas de sementes da França, a Occitane e a Saint Genest-Lasserre, ao mesmo tempo em que abria na cidade de Toulouse um centro multidisciplinar de pesquisa voltada para a biotecnologia, a microbiologia industrial e a fitotecnologia. Da mesma forma, os gigantes dos agroquímicos, como Dow Chemical e Basf, entre outros, já no início dos anos 70 fizeram migrar a ênfase de suas pesquisas para a área de melhoramento genético das sementes, na expectativa de abocanhar parcela do incremento de faturamento do setor, estimado em US$ 5,6 bilhões por ano até o ano 2000. Em contrapartida, estarão oferecendo aos produtores sementes novas que deverão propiciar uma economia de custos de produção e redução de perdas na colheita de 40% a 50%. Qual a lógica que preside a essa migração? A resposta, num exemplo: a despeito do emprego maciço de herbicidas químicos, pouco seletivos, as chamadas "ervas daninhas" causam perdas anuais nas culturas de soja, milho e trigo de mais de US$ 5 bilhões por safra em todo o mundo. Se se pudessem desenvolver novas variedades de sementes resistentes a herbicidas, ter-se-ia um perfeito casamento de conveniência entre as sementes e os herbicidas. A expectativa da celebração das bodas, anunciadas em 1984 pela Teweless and Co., empresa americana de consultoria na área de sementes, acaba de cumprir-se no Brasil treze anos depois, com o lançamento em abril deste ano pela Monsanto da soja transgênica resistente a herbicida. Sendo, porém, muito mais ampla agora a gama de componentes tecnológicos em vias de entrar no mercado, indicar a "região" tecnológica na qual vai apoiar-se a nova frente inovadora é tão difícil como prever em que ponto da superfície da água em aquecimento numa chaleira vai emergir a primeira bolha, quando da ebulição. Uma incursão na história da evolução das tecnologias agropecuárias - e também no processo de fervura da água - talvez ajude a lançar alguma luz sobre o futuro. A primeira constatação é que o padrão produtivista atual - de ganhos de produtividade por área de lavoura e por trabalhador empregado -, resultado da interação dos fertilizantes químicos, dos defensivos químicos e da mecanização agrícola -, não se constituiu como o ponto final de uma evolução linear. E, como lição para o futuro, isso pode sugerir que um novo padrão, acompanhado das tecnologias que lhe correspondem, também não emergirá de uma trajetória inteiramente previsível. Um exame acurado vai mostrar que houve, na verdade, ao longo do tempo, um entrecruzamento de trajetórias tecnológicas, ao acaso e por necessidade. Inicialmente traçadas para seguir seu próprio caminho, alheio à exposição da agricultura à oferta de inovações, cada trajetória tecnológica - assim entendida as atividades de inovação, de iniciativa de um grupo de indústrias com forte presença tecnológica em determinada área -, acabou incorporando-se ao agribusiness em razão da interação que se estabeleceu entre elas, sem que para isso se tivesse definido previamente uma estratégia, em resposta a uma demanda tecnológica que elas tivessem sabido interpretar com precisão. Na realidade, até o advento da máquina a vapor, da eletricidade e do petróleo, os produtores rurais souberam interpretar suas próprias necessidades, lançando mão dos recursos da imaginação, para resolver por conta própria seus problemas tecnológicos. Não existindo em oferta insumos industriais, o produtor rural limitava-se a cumprir o que lhe ditava a natureza. Como dizia Mestre Janjão, conhecido fabricante artesanal de queijo na região do Cerro, em Minas Gerais, nos anos 70, "o queijo sabe o sal de que precisa". A estratégia vitoriosa do padrão produtivista foi resultado da influência recíproca das trajetórias individuais de cada grupo de indústrias de inovação, criando-se, assim, um grau de coerência tecnológica que redundou no tripé dependente quase que inteiramente do petróleo -modelo característico do desenvolvimento agrícola do período do pós-guerra até o fim dos anos 80. O encontro foi casual e oportuno. No caso dos fertilizantes nitrogenados, por exemplo, a agricultura cruzou-lhes o caminho num momento de indefinição. A segunda guerra mundial havia acabado - seu mercado tinha sido ela, na absorção de produtos petroquímicos - e já não divisavam o que fazer em tempos de paz. Deu-se então o encontro dos nitrogenados com a agricultura, um casamento aparentemente feliz. A relação durou 50 anos - e dura ainda, em meio a profunda crise conjugai. A indústria de tratores e máquinas agrícolas chegara antes, no século passado, quando a de agroquímicos inexistia. E esta, que despontou no século vinte, não nasceu para atender a agricultura, e sim a indústria automobilística (adesivos para borracha) e a indústria têxtil (pigmentos e corantes). Foi somente no início da segunda metade deste século que a aproximação ocasional desses grandes protagonistas tecnológicos consolidou-se numa união que caracteriza o tripé agora em desintegração. Não que os ganhos de produtividade não devam mais ser considerados como metas a atingir. Mas, no realinhamento atual das forças, sua importância relativa diminui, especialmente se comparados a outras oportunidades atuais, como a qualidade. Inspiração na chaleira A assincronia registrada na integração desses setores levou os pesquisadores Mário Possas, Sérgio Salles Filho e José Maria da Silveira, da Unicamp, a sugerir que não existe uma trajetória tecnológica geral, evoluindo como resposta às demandas prévia e claramente formuladas a partir de "dentro da porteira". E mais não dizem, por enquanto. Mas, à luz do encontro bem sucedido entre o acaso e o que se tomou necessidade no padrão produtivista, parece possível avançar, perguntando-se sobre a origem do poder de integração de tais trajetórias, desconhecido o início do processo, e buscando resposta nas idéias que vinculam o acaso à necessidade. Na hipótese de encontrá-la, surgiriam elementos que contribuem para explicar como se dá não só a integração, mas a desintegração e uma nova reintegração. E, assim, chegar-se-ia à questão inicial de saber quais as inovações que irão compor a nova frente de inovação tecnológica na agricultura. Tentemos. Do ocorrido, é razoável admitir, então, que a agricultura, depois da revolução industrial, nada mais é que as virtualidades de todas as suas respostas às tentações tecnológicas vindas do exterior, de fora da porteira, como diria o cientista russo Ilya Prigogine, um estudioso dos fenômenos que tiram do acaso seu poder de integração - de que são exemplos o padrão produtivista, o redemoinho, o mexerico numa comunidade humana e o vórtice ordenado que se forma na água fervente da chaleira. Assim, a agricultura, em resposta aos estímulos produtivistas vindos de fora - que intervinham de forma crescente na lavoura freqüentemente para corrigir desequilíbrios causados por sua própria intervenção - vai absorvendo as tecnologias, ao mesmo tempo que reage de forma negativa a elas sempre que o "organismo" lavoura emite sinais de desconforto ambiental, que se expressam nos custos crescentes de produção sem a contrapartida de ganhos compensadores. Dessa forma, a agricultura vai promovendo ao longo do tempo a desestruturação de tipos de indústrias que a serviam, abrindo-se ao mesmo tempo à oferta de inovações, sem saber exatamente quais. Nisso a agricultura é como o embrião da semente que, ao germinar, rompe a casca, desintegrando o ambiente que o protegia e expondo a plântula a um novo ambiente no qual se fazem necessários novos cuidados. E quanto a esses, coube sempre às novas fontes de inovação interpretar e prover. Como ocorreu no passado, com a evolução das trajetórias tecnológicas, cada uma percorrendo seu caminho próprio até se entrecruzarem no vórtice, dando origem ao padrão produtivista, agora também as indústrias de inovação - ante uma agricultura de perfil mais ou menos embaçado, que sabe o que rejeita mas ignora de onde virão as inovações -, perscrutam o terreno, como as térmitas antes de se decidirem pelo lugar onde será construído o novo formigueiro. Observando as térmitas, nota-se que seu movimento é ao mesmo tempo aleatório e previsível: nas proximidades do local do futuro formigueiro, que elas ainda não sabem determinar com precisão, registra-se inicialmente uma multidão de comportamentos desordenados, que aos poucos se orientam para a formação de densidades maiores aqui e ali, até à sua concentração final num ponto determinado. Aí será construída a nova casa. De forma semelhante, desde já é possível divisar no terreno locais de maior concentração de inovações - a biotecnologia, por exemplo. Com mais clareza ainda sabe-se onde não irá instalar-se o formigueiro tecnológico da nova agricultura. A intensificação no emprego das tecnologias produtivistas, de objetivos estritamente quantitativos, levou a manifestações evidentes de sua crescente ineficácia, como ocorre com os agroquímicos, no controle de pragas e doenças. Assim, por exemplo, o consumo de agroquímicos pela agricultura americana, que era de 26 mil toneladas por ano nos anos 50, para uma perda de 7% na colheita, cresceu 12 vezes no final da década de 70 - e as perdas quase dobraram: novas espécies de pragas, antes inofensivas, surgiram em conseqüência dos tratamentos químicos. Além de comprometer o equilíbrio do próprio ambiente da produção agrícola, os agroquímicos são responsabilizados por poluir os alimentos e a natureza, de acordo com um estudo da National Academy of Sciences, dos Estados Unidos, de 1985. As conseqüências do emprego dos fertilizantes químicos sobre o meio ambiente parecem igualmente graves. Assim, por exemplo, segundo pesquisa realizada pelo Departamento de Agricultura dos EUA, boa parte do lençol freático das regiões produtoras de grãos do país está contaminada por nitratos: na Inglaterra a extensão da contaminação é ainda maior, e na Dinamarca, praticamente total. Em contraste com os efeitos negativos inevitáveis das tecnologias produtivistas atuais, surgem no mercado as novas exigências da qualidade, que abrem oportunidades de investimentos em tecnologias para a produção e oferta de alimentos mais limpos e saudáveis. Da mesma forma, as exigências do desenvolvimento sustentável, ao estabelecer limites críticos de agressão ao meio ambiente, estimulam a abertura de uma ampla frente de inovação tecnológica. Não parece difícil concluir daí que o modelo produtivista atual tende a perder fôlego, mesmo a desaparecer. É no saldo negativo deixado por ele que as novas decisões de investimento em inovação tem buscado inspiração. Exemplo recente, no contexto da reconversão tecnológica, é a soja transgênica resistente a herbicida, da Monsanto. Considerando-se o porte de uma empresa como a Monsanto, cujos investimentos em inovação contam-se na casa do bilhão de dólares, vem à mente outra vez a bolha de água fervente do cientista Prigogine. O Prêmio Nobel de Química de 1977 afirma que nem tudo está explicado quando se diz que a água ferve a 100 graus C. Essa é uma verdade que basta apenas ao físico que se prende aos grandes números, mas que é incapaz de explicar por que, no processo de fervura, todas as moléculas de água não fervem ao mesmo tempo e, ainda, qual a razão da liderança de algumas delas na disputa pela primazia de ferver. Se o novo protagonista da inovação quiser aproveitar as lições da chaleira, antes de se decidir pela direção do investimento, atente para o seguinte: ao fixar o olho na água em processo de aquecimento, observe que em torno do momento da fervura surge uma primeira bolha num ponto qualquer da superfície, cuja localização ninguém é capaz de prever. Não se sabe, portanto, nem quando nem onde vai começar a fervura. Isso, porém, não quer dizer que o sistema seja inteiramente caótico e imprevisível. Prosseguindo na observação, nosso protagonista notará que do caos molecular em ponto de ebulição brotará aos poucos uma ordem perfeita: em tomo da primeira bolha juntam-se outras e mais outras, e um segundo de tempo depois, bilhões de moléculas de água terão entrado num furioso movimento de convecção, tão ordenado como o dos redemoinhos. A soja transgênica da Monsanto é uma das primeiras bolhas. Em torno dela, vêem-se outras, como os grandes investimentos em inovação que estão sendo feitos na pesquisa de sementes resistentes a pragas e doenças, o que significa economia no uso de agroquímicos. Da mesma forma, investe-se em pesticidas degradáveis; em plásticos biodegradáveis; em controle biológico; em toxinas biológicas; em novos produtos químicos menos agressivos; enfim, num arsenal de tecnologias fitossanitárias brandas e de insumos não poluentes. Assim também, começam a surgir "bolhas" na linha das inovações tendentes a reduzir o emprego de fertilizantes provenientes do petróleo. O objetivo de tais pesquisas é duplo: reduzir a intensidade das agressões ambientais e baixar os custos de produção. Aqui, a alternativa tecnológica vem de microorganismos capazes de sintetizar o nitrogênio do ar e repassá-lo, em processo de simbiose, à raiz das plantas. Investe-se também, na área de biotecnologia, na obtenção de sementes que demandem menos fertilizantes, adequadas principalmente a solos de baixa fertilidade natural. A despeito de tais evidências, resta muito a explicar sobre as Circunstancias que presidem à passagem de um padrão para outro. Aqui, novamente, seria o caso de recorrer às lições da chaleira. A questão é de importância primordial tanto para quem continua investindo no padrão produtivista quanto para quem se prepara para sair dele, de olho nas novas oportunidades de inovação. De volta a ela: A primeira bolha de água não dispõe do poder necessário para invadir de uma só vez o sistema (chaleira) inteiro. Ela estabelece-se primeiro numa região. E, conforme essa região inicial seja mais ou menos resistente à transformação em direção à fervura, o processo poderá regredir ou avançar. Tudo depende do tamanho da gota de água. Se o tamanho da gota conseguir transpor o limiar de resistência, a água ferverá a partir daquele ponto. O resultado da competição entre o poder de integração da porção de água mais quente com o da porção menos quente dependerá da velocidade da comunicação que cada uma das porções estabelecer na disputa pela adesão da massa de contendores situados no campo adversário. A nova agenda No caso das tecnologias produtivistas atuais, quem garante que a, água vai ferver é o aparente desequilíbrio de forças entre, de um lado, sua crescente ineficácia e a agressão ambiental, entre outras razões, e, de outro lado, a expectativa de retorno dos investimentos na qualidade e no desenvolvimento sustentável. Saber quando e a partir, de que região tecnológica a fervura terá início é questão que depende da eficácia relativa das estratégias de comunicação das porções em disputa, um assunto de que o mercado e a opinião pública sabem cuidar. Seguros de que o local do novo formigueiro será encontrado e atentos para a direção dos novos investimentos, pesquisadores de todo o mundo acreditam que vai acertar quem apostar na produtividade, levando-se em conta os aspectos da qualidade; nos ganhos indiretos de produtividade; na diversificação de produtos; e na fórmula LISA (Low Imput Sustainable Agriculture), que se poderia traduzir livremente por "insumos brandos para uma agricultura sustentável". Numa iniciativa pioneira no mundo, a pesquisa da Embrapa tornou possível a produção moderna de leguminosas em larga escala sem a utilização de fertilizantes nitrogenados extraídos do petróleo - uma tecnologia da fórmula LISA. Não é de duvidar de que nessa linha de trabalho ela venha assegurar seu lugar no futuro, constituindo-se num dos parceiros internacionais de peso na inovação tecnológica nos trópicos.