Notícia

Jornal da Unesp

De olho nos caprichos de São Pedro

Publicado em 01 maio 2000

Há, pairando no ar, além dos aviões de carreira, um mundo quase sempre insuspeitado, porque impalpável. Um mundo que, embora freqüentemente invisível, é extremamente complexo e instável. Um universo impalpável, invisível e instável mas que, não raro, determina a vida na superfície da Terra. Impossível sobreviver aqui em baixo sem levá-lo em consideração. Várias atividades do homem - dos transportes à agricultura, da engenharia ao lazer -, se querem ser bem-sucedidas, têm que se submeter aos seus caprichos. A meteorologia que o diga. Afinal, é sua função pesquisar, prever, mapear e tentar entender esse mundo em constante mutação. Assim, aliás, é o dia-a-dia no Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet), unidade complementar da UNESP, localizado no câmpus de Bauru. "A pesquisa e a prestação de serviços à comunidade sempre nortearam nosso trabalho", explica o engenheiro civil e meteorologista Maurício de Agostinho Antônio, diretor do instituto. "O IPMet presta relevantes contribuições à sociedade e aos seus setores produtivos." De fato. Entre os usuários dos serviços do IPMet estão empresas agrícolas, de construção civil, de lazer e turismo, de produção e distribuição de energia, a Defesa Civil, a Polícia Rodoviária, prefeituras e imprensa, além do público em geral, que podem contar com o serviço de previsão do tempo 24 horas por dia, todos os dias do ano. Algumas das informações prestadas pelo instituto, mais gerais, estão disponíveis no site do IPMet (www.ipmet.unesp.br), e outras, mais específicas e detalhadas, são dirigidas a usuários cadastrados, que pagam uma taxa mensal. As previsões são feitas com a ajuda de dois radares, instalados em Bauru e Presidente Prudente, que operam simultaneamente. "Eles permitem o monitoramento e a quantificação das chuvas em todo o Estado de São Paulo, em parte do Paraná, no sul de Minas Gerais e no Triângulo Mineiro e na região sudeste do Mato Grosso do Sul", explica a matemática e meteorologista Ana Maria Gomes, vice-diretora do IPMet. "Esses dois radares meteorológicos diferenciam o IPMet de outros serviços do País. Nós somos os únicos que temos este tipo de equipamento operando 24 horas por dia." TEMPO REAL É uma vantagem e tanto. Pela capacidade que têm de acompanhar as chuvas, informando intensidade e deslocamentos, os radares meteorológicos são ferramentas imprescindíveis num centro de monitoramento e previsão do tempo. "Devido a esse acompanhamento em tempo real, os radares prevêem a evolução da área de chuvas sobre o Estado, ininterruptamente", explica Antônio. "Isso permite que sejam feitos ajustes ao longo de todo o período de validade da previsão." Os radares também são responsáveis pelos elevados índices de acertos das previsões do IPMet, melhores do que os da maioria dos outros serviços meteorológicos do Brasil. "As nossas previsões de 24 horas para o Estado de São Paulo, por exemplo, têm, em média, um índice de acerto de 95%. isto é, a cada 20 previsões, apenas uma falha", conta o diretor do IPMet. "Enquanto as outras previsões disponíveis para 24 horas têm um índice de acerto em torno de 70 a 80%." Nas previsões para períodos maiores que 24 horas, feitas com modelos numéricos, o IPMet também se sai melhor. No caso de previsões para períodos entre um e três dias. por exemplo, a porcentagem de acerto é de 90%, e para períodos de quatro a cinco dias, de 70%. A excelência dos serviços do IPMet é atestada pelo engenheiro agrônomo Hilton Silveira Pinto, coordenador do Centro de Ensino e Pesquisa em Agricultura (Cepagri), da Unicamp. "É um dos poucos sites da Internet que atualizam as informações, mesmo nos finais de semana", elogia. "Isso, para nós, é de suma importância, pois usamos as imagens para alertar a Defesa Civil e para anunciar as previsões na região de Campinas." O IPMet existe há 25 anos (leia quadro), mas foi a partir de 1992 que ele deu um grande salto em termos de tecnologia e oferecimento de serviços. Naquele ano, com recursos da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), o antigo radar banda-C foi substituído por um equipamento mais atual, modelo banda-S. Além disso, técnicos do instituto aprimoraram um software, que havia sido desenvolvido no próprio IPMet, em 1988, denominado Visualização de Imagens de Radar (VIRA), que tornou possível visualizar, em seu microcomputador, as áreas de ocorrência de chuvas. Com o VIRA, o IPMet passou a ser capaz de oferecer dois produtos diferenciados. Um é o Plan Position Indicutor (PPI), que mostra a distribuição da chuva dentro do raio de alcance máximo dos dois radares, de 450 km. Outro, é o Constam Altitute Plan Position Induatvr (CAPPI), que realiza o mesmo serviço, mas limitado a um raio de 240 km. o que faz com que a sua resolução seja maior. "O objetivo do PPI é a vigilância meteorológica, isto é, o acompanhamento do estado do tempo", diz Antônio. "No caso do CAPPI, ele tem a vantagem de permitir uma melhor identificação, definição e análise das áreas de chuva." Instituto é referência Um trabalho exemplar, em 20 anos de experiência pioneira O Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) surgiu, nos moldes em que é hoje, em 1974. Sua história começa, no entanto, um pouco antes, mais precisamente em 1969, quando a então Fundação Educacional de Bauru implantou o seu Instituto de Pesquisas e deu prioridade á meteorologia, por ser uma ciência multidisciplinar que permite a interação com diversas áreas do ensino tecnológico. O IPMet começou com parcos recursos: um único aparelho de recepção de imagens de satélite. Com a importância crescente das pesquisas na área, em 1972 adotou o nome atual. Convênios com instituições financiadoras de pesquisa, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), permitiram a compra de equipamentos, o desenvolvimento de pesquisa e o aprimoramento dos pesquisadores e pessoal técnico. Em 1974, com financiamento da FAPESP, foi instalado o primeiro radar meteorológico banda-C, que garantiu o pioneirismo, no País, na utilização desse tipo de equipamento. Por isso, foi tomado como o ano oficial de sua fundação. "Foi em 74, também, que se iniciou a prestação de serviços à sociedade, com a divulgação diária de boletins meteorológicos", conta a vice-diretora Ana Gomes. 1988 marcou a incorporação da Universidade de Bauru e, conseqüentemente, do IPMet pela UNESP. Novas linhas de pesquisa começaram a ser trabalhadas e, quatro anos depois, outro radar banda-S foi adquirido e instalado em Presidente Prudente. Hoje, além do monitoramento do clima e das previsões, os dados obtidos pelos dois radares fornecem subsídios para as diversas áreas de pesquisa do IPMet. "O Grupo de Radar do IPMet, composto por pesquisadores, analistas e técnicos, possui uma experiência pioneira e quase única, na área de meteorologia com radar, no Brasil", garante Antônio. "Somos referência no conhecimento da chuva de área tropical e da melhor maneira de observá-la e quantificá-la com o radar."