Notícia

Comunidade Exkola

De olho no futuro, mas sem perder as raízes

Publicado em 25 março 2012

Por SIMONE DE OLIVEIRA

Natural de Votuporanga, interior de São Paulo, Eduardo Alvarez chegou a Jundiaí em 2000 para assumir o cargo de assistente de direção na Etec Benedito Storani, escola técnica vinculada ao Centro Paula Souza, considerada referência no Estado. Em 2008, concorreu as eleições para se tornar diretor e ganhou. Quatro anos depois, ele concorre novamente ao cargo com o objetivo de dar continuidade aos seus projetos e, junto com sua equipe de professores, buscar melhorias e parcerias para que a escola cresça ainda mais e que atenda um número maior de estudantes.

Formando em Zootecnia, Eduardo conta que precisou deixar a sala de aula, onde lecionava sobre suínos e peixes, para assumir o cargo em Jundiaí. Mas o trabalho como gestor o encantou e, por enquanto, não sente falta das aulas. Ao longo desses 12 anos, Eduardo se tornou um verdadeiro administrador. Conquistou a aprovação de seus projetos e, consequentemente, as parcerias necessárias para melhorar as condições da escola. Inclusive os laboratórios, que oferecem opções de horários para os alunos que vem de diversas cidades do interior do Estado, além de criar novos cursos.

Situada em uma area de Proteção Ambiental (APA), a Etec Benedito Storani foi criada em 1947, com a denominação de Escola de Horticultura. Evoluiu muito e hoje possui seis cursos técnicos (Agricultura Familiar, Pecuária, Turismo, Nutrição, Alimentos e Recursos Hídricos, sendo a única escola brasileira a fornecer formação técnica nesta última área), além de Ensino Médio. Mesmo com tantas melhorias conquistadas, Eduardo sabe que ainda falta muito para deixar o espaço -- que une aspectos de escola, hotel, restaurante e fazenda -- um ambiente agradável e sustentável, sem perder a qualidade de seu ensino.

Jornal de Jundiaí Regional: De assistente de direção você passou a diretor de uma escola técnica. Como foi esta trajetória?

Eduardo Alvarez: Fiquei por dois mandatos como assistente de direção e quando a antiga diretora não podia mais concorrer ao cargo eu me candidatei e fui escolhido para a vaga. Já são quatro anos de mandato, e vou concorrer novamente para terminar meus projetos.

JJ: Como foi sair de uma cidade pequena, que é Votuporanga, onde você era professor, para se tornar diretor de uma Etec em Jundiaí?

Eduardo: Sai com 17 anos de casa para estudar e sempre consegui me adaptar aos lugares, sejam eles maiores ou menores. Para mim essas mudanças foram sempre tranquilas. Quando cheguei aqui, a Benedito Storani era conhecida como escola agrícola e, independente do lugar em que está instalada, a realidade e o perfil das escolas agrícolas são sempre parecidas.

JJ: Por que se interessou na vaga de diretor?

Eduardo: Sempre quis ser diretor. Eu tinha alguns sonhos que como diretor poderia realizar. Atualmente, nossa escola tem a missão de trabalhar com excelência em educação, em todas as áreas, mas com comprometimento ambiental. E trabalhar com excelência é uma coisa muito séria, pois é preciso ter inovações tecnológicas, e eu queria transformar o ensino de agropecuária, que era um dos cursos mais importantes da época, em excelência em todos os setores. A enxada já não é mais símbolo desse profissional por conta de tantas mudanças tecnológicas, por isso tive como meta transformar o ensino e fazer da escola de Jundiaí uma das melhores do Estado de São Paulo.

JJ: O currículo precisou ser aperfeiçoado?

Eduardo: Muito. O ritmo do curso de agropecuária era muito diferente do currículo de hoje. Os alunos desta área fazem hoje desenhos técnicos em programas de computadores, não levantam mais um canteiro com enxadão, mas com trator e enxada rotativa, e tudo isto ele aprende aqui. Foi por isso que conseguimos ter este diferencial no mercado. Aqui na escola, por exemplo, não temos mais um touro, já que todo trabalho é feito por meio da inseminação artificial, o que o mercado busca. Temos maquinários para fazer o plantio direto, além de estufa. O aluno já sabe que não entra aqui para aprender a ser pião, mas para aprender as modernas técnicas de agropecuária.

JJ: Quais foram as principais mudanças nestes últimos 12 anos?

Eduardo: Hoje, nossos cursos estão totalmente atrelados ao Circuito das Frutas. Sabemos que o ensino de agropecuária tem um grande valor porque foi um dos primeiros da entidade, tanto que a escola era conhecida como "escola agrícola", mas hoje oferecemos vários cursos e a instituição se tornou uma Escola Técnica que também tem o curso de Agropecuária, além do Ensino Médio, com o padrão de qualidade que o Centro Paulo Souza exige.

JJ: O curso de agropecuária oferecido em Jundiaí era referência em todo o país?

Eduardo: Sim. Sempre foi um curso caro, que utilizava muito maquinário e era criado para atender uma macrorregião. Mas em 2000 ele se desvinculou do curso técnico e tivemos uma baixa no atendimento. Muitos alunos, que vinham de outras cidades, queriam fazer mais de um curso. Ao mesmo tempo, a instituição cresceu em outras áreas ao se transformar em escola técnica com um Ensino Médio de qualidade, que dá ao cidadão a opção de escolher se quer seguir a carreira acadêmica ou ir direto para o mercado de trabalho.

JJ: Mesmo com essas mudanças, houve queda na qualidade?

Eduardo: Muito pelo contrário, temos alunos que saíram do curso de agropecuária e fizeram faculdade na USP, Unesp, Federal de Larvas, de Viçosa e até na Rural do Rio de Janeiro. É um orgulho para nós, porque é o resultado do nosso trabalho. Além disso, Jundiaí é uma das poucas cidades do Estado que tem duas Etecs, só os grandes centros, como Santos e Campinas, têm esse privilégio. Com duas unidades, o leque de atendimento ficou grande e nunca vou ter um curso aqui que o Vasco (Venchiarutti) tem, até porque temos que ser parceiros da região e abrir cursos que atendam a demanda. Temos muitos alunos empregados na indústria. Alguns até tiveram aumento justamente por estarem matriculados em curso técnico. Somos a única escola com o curso de Turismo em que o aluno já sai credenciado como guia pelo Ministério do Turismo.

JJ: Sendo uma escola do Estado, como conseguem essas parcerias?

Eduardo: É preciso mostrar para o Estado a importância das mudanças e, através dos projetos, ir atrás de parcerias, porém com órgãos ligados ao Estado, como a FAPESP (Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo) e o CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Eu mesmo já fiz mestrado e fui bolsista com ajuda destas entidades. Por isso sei fazer um projeto e tenho a consciência de que um bom projeto é resultado de bons parceiros.

JJ: O diretor deve ser a cara da instituição?

Eduardo: Eu trabalho incansavelmente, não só para atender meus 760 alunos, mas toda uma empregabilidade regional e isto dá peso para conseguir o dinheiro. Faço parte do Contur, que está relacionado ao turismo, e do Conselho Regional de Nutrição. Faço questão de participar ou de ter um representante nos órgãos que tenham correlação com os curso oferecidos na escola, porque trabalhar junto com o município é fundamental para aprovação de um projeto.

JJ: Então é preciso ter uma visão administrativa?

Eduardo: Sim, eu queria isto. Tem dia que chego na escola as 7h e saio as 22 horas. Fico satisfeito vendo os resultados. Para se ter uma ideia de que nosso trabalho vem dando certo, antes de eu assumir como diretor, uma matéria publicada em um jornal da cidade anunciava o projeto de um parque que poderia ser construído no terreno da escola. As pessoas decidiam sobre a área sem nos consultar, mas hoje querem que a escola cresça e mostre seu potencial de ensino. Aliás, nossa escola é produtiva e a fazenda tem muito o que fazer. Por isso temos que ir atrás das parcerias sem ficar no nosso mundinho esperando que as coisas aconteçam.

JJ: O que significa ter formado uma carreira dentro da instituição Paula Souza?

Eduardo: Eu devo muito ao Centro Paula Souza porque comecei a trabalhar em 1992 nas escolas agrícolas e me apaixonei pelo ensino. A instituição investe muito no profissional e me abriu as portas, sempre exigindo do profissional este aprimoramento. A própria instituição dá liberdade para que tenhamos o poder de gestão buscando parcerias para administrar e criar projetos para se aprimorar sempre.

JJ: O que foi idealizado e ainda não conquistado?

Eduardo: Os cursos de viticultura e enologia serão realmente o fechamento de um sonho. E com certeza terão outros, até porque não posso parar de sonhar. Se tivesse parado de estudar quando me formei, tudo que aprendei seria mentira. Eu tenho uma meta de trocar, a cada três anos, os computadores dos laboratórios e tenho conseguido.

JJ: Quais são os projetos daqui pra frente?

Eduardo: Já estamos preparando, para 2013, o curso de vinhos, mas tudo é feito por meio de projetos e estudos. Nenhum curso sai do nada. Ainda este ano, por exemplo, vamos oferecer o curso de cozinha que será voltado para área de hospitalidade. A criação surgiu depois de pesquisas e conversas com órgãos ligados a área. Ainda fornecemos espaço para que órgãos municipais promovam seus cursos em nossas dependências e, quando é possível, nossos professores participam buscando capacitação.

http://www.portaljj.com.br/interna.asp?Int_IDSecao=17&int_id=173775

 Fonte: Jornal de Jundiaí