Notícia

Fornecedores Hospitalares

De olho no amanhã

Publicado em 01 agosto 2006

Para mostrar diferencial de mercada, elevar a qualidade de seus médicos e serviços, além de ganhar o respeito da comunidade e dos profissionais de saúde. São essas algumas das razões que tornem os hospitais privados cada vez mais interessadas nos investimentos em pesquisa. "Todas as entidades envolvidas no sistema de saúde dependem da educação continuada e precisam investir na geração e aplicação da novos conhecimentos", diz Marcos Bosi Ferraz, diretor do Centro Paulista de Economia da Saúde da Universidade Federal de São Paulo (UnesP). Prova disso é que grandes complexos como o Sírio Libanês, Albert Einstein a o São Luiz direcionam verbas para pesquisa, inauguram unidades de estudo e costuram parcerias com empresas a centro de referência médica em todo o mundo.
Segundo Farraz, a busca do conhecimento na rede privada contribui para o avanço da ciência, garante um bom retorno de imagem institucional e até ajuda na possibilidade de dominar eventuais patentes. "Esse interesse ainda colabora com a melhoria do sistema de saúde e dinamiza a prestação de serviços com centros de pesquisa que podem gerar novas oportunidades de atuação", detalhe.
Ao investir na geração interna de cultura médico-científica, a instituição poderá, automaticamente, capacitar seus funcionários em novas tecnologias e alternativas terapêuticas. O hospital que gasta com pesquisa consegue se atualizar numa velocidade maior do que aquele que espera que a inovação seja testada por uma outra empresa, para depois incorporá-la. Quem faz pesquisas tende a ter um tratamento de ponta e profissionais mais atualizados.
As primeiras empresa é privadas a investir na área foram o Sírio-Libanês e o Albert Einstein, em São Paulo.
"Possivelmente, começaram há muito mais tempo, mas esse trabalho se tornou mais visível nos últimos dez anos, com a inauguração da institutos da educação e pesquisa dentro dos hospitais", lembra.
Por necessidade de prestar serviço, as instituições investem com maior ênfase em pesquisas de aplicação mais imediata no seu dia-a-dia. Assim, novas modalidades terapêuticas, clínicas e cirúrgicas, ambientes da assistência à saúde e aplicabilidade de métodos de diagnóstico, com destaque para o uso de aparelhos de diagnóstico da alta complexidade, estão entre os campos de maior interesse explorados pelas instituições. Além da criação de diferenciais aplicáveis no trabalho, as pesquisas oferecem um reconhecimento que as instituições ganham tanto do público em geral, como dos melhores profissionais de saúde, atraídos por hospitais com centros de estudo", analisa.

Difusão de conhecimento
No Hospital Sírio-Libanês, por exemplo, os investimentos em pesquisa ocorrem desde 1997, quando foi criado o Comitê de Ético em Pesquisa (Cepesq). "0 hospital entendeu que, para continuar mantendo o padrão de excelência na assistência à saúde, a exemplo dos melhores centros médicos do mundo, seria necessário aplicar na difusão do conhecimento e na maior capacitação de profissionais", explica Roberto Padilha, diretor do Instituto de Ensino e Pesquisa do Sírio-Libanês EP).
Hoje, o IEP ocupa uma área de 5,8 mil m2, com uma equipe de mais de 30 profissionais, entre médicos, técnicos, enfermeiras e coordenadores. O investimento anual na área é de mais de R$ 8 milhões ou 2% do faturamento do hospital — valor que deve ser incrementado em breve.
'Com a estruturação do IEP, criou-se mais condições de organização e de ampliação de novas linhas de pesquisa, Os resultados já começam a aparecer. "O que gera uma demanda maior de projetos e nos permite pensar em um crescimento de 2O nos investimentos no setor", diz Padilha.
Os grupos de pesquiso clínica e experimental do Sírio-Libanês concentram-se, principalmente, nas áreas de oncologia, medicina intensiva, anestesiologia, trombose e hemostasia, além de células-tronco e neurociências. "São setores onde o hospital ter excelência e já possuía uma massa crítica de pesquisadores' justifica.
As parcerias estratégicas também dão o tom nos projetos do hospital. O IEP mantém acordos com várias instituições, como o Instituto Butantã, o Instituto de Neuro Imagem de Natal (RN); o Instituto do Milênio, da Universidade de São Paulo (USP); o Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, de Nova lorque, além da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
"A idéia é manter o padrão de excelência da assistência, contribuir para o desenvolvimento da pesquisa no País, na área de saúde, e ainda colaborar para a formação de recursos humanos qualificados", explica Padilha. Segundo o médico, as futuras áreas de pesquisa do hospital serão a mastologia e a cardiologia.
"O IEP conta hoje com diversos cursos de pós-graduação que unem um corpo docente de alto qualificação e oriundo do seu corpo clínico a modernos métodos de ensino' completa. "A meta é que a aprendizagem gere profissionais cada vez mais qualificados"

Educação e saúde
Já no Albert Einstein, os investimentos em pesquisa acontecem desde a criação do hospital, mas foram intensificados a partir de 1999, por meio do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa IIEP. "É importante para qualquer hospital e corpo médico acompanharem os avanços da pesquisa, retornando essas informações aos clientes e à sociedade em geral", ensina o Dr. Carlos Alberto Moreira Filho, superintendente do IIER.
O instituto ocupa uma área de mais de 1,5 mil m2 no bairro do Morumbi, em São Paulo, além de um outro complexo, de 3 mil mP, na Av. Francisco Morato. Além de dois centros de pesquisa — experimental e clínica — oferece aos profissionais da saúde uma unidade de experimentação e treina mento em cirurgia (CETEC], um centro de simulação realística e um sistema integrado de bibliotecas, com um portal de publicações médicas.
Abrange ainda uma unidade de informação, que fornece serviços de internet e educação a distância, além do Centro de Educação em Saúde Abram Szajman dedicado a ações educacionais — faculdade de enfermagem, escola técnica, pós-graduação e residência.
"São 115 profissionais especializados, médicos, enfermeiros, administradores e professores, além de 73 bolsistas de pós-doutorado", contabiliza Moreira. Na ponta do lápis, o hospital investe cerca de 3 do seu faturamento no setor.
Hoje, as principais iniciativas do IIEP estão focadas no desenvolvimento de plataformas de pesquisa em genômica, imagem e terapia celular, com foco nas especialidades de oncologia, neurologia e cardiologia. A lista de pesquisas inclui a genômica do câncer de mama e ovário, em parceria cem o Hospital do Câncer; estudos da diversidade genética do HIV, HCV e PSV; neuroimagem com possibilidade de aplicações rápidas em neurocirurgias, além de um banco de cordão umbilical e estudos com células-tronco.
Além do HC, o IIEP tem parcerias nacionais e internacionais com o Projeto Cinapce, na área de neurologia, com a Fapesp; com a Cleveland Clinic Foundation, em cardiologia e neurologia, e com o Instituto Weizman, em pesquisas sobre neuroproteção, neuroimagem funcional e oncologia.
O MD. Anderson também participa dos convênios do instituto, com estudos em qenômica do câncer, enquanto a Universidade de Tel-Aviv colabora com análises em câncer e imagem, além de consultoria para a implementação do centro de simulação realística.
'A participação das instituições de saúde no desenvolvimento científico indica a preocupação e o investimento in house na pesquisa, dando-lhes respaldo na decisão dos usuários quando escolhem um hospital que acompanha e aplica, com responsabilidade, os resultados dos seus estudos", diz Moreira.

Parcerias de ouro
Outros hospitais, como o Hospital e Maternidade São Luiz, não contam com áreas específicas para a execução de pesquisas, mas estão sempre costurando parcerias cem especialistas e fornecedores que possam apresentar novidades para suas equipes médicas.
Um exemplo disse foi a parceria entre o hospital e a Cryopraxis, empresa brasileira de criobiologia, que trouxe ao Brasil o Dr. Paul Sanberg, um dos maiores pesquisadores em regeneração neurológica e cardíaca com células-tronco. Além de diretor e professor de Desenvolvimento de Biotecnologia da Faculdade de Medicina da Universidade do Sul da Flórida, Sanberg também é editor-chefe da revista CeIl Transplantation publicação direcionada aos avanços da pesquisa com células-tronco.
Na visita ao Brasil, o professor participou de reuniões científicas com pesquisadores e médicos que assinam pesquisas em regeneração de tecidos neurológicos, cardiológicos e hepáticos. Em São Paulo, Sanberg também apresentou estudos pré-clínicos feitos nos Estados Unidos para o uso das células do cordão umbilical na reparação de danos neurológicos, como o acidente vascular cerebral e o mal de Parkinson.
O convênio firmado entre o São Luiz, a Cryopraxis e a Universidade do Sul da Flórida prevê ainda que o Brasil seja um dos países a participar de estudos sobretratamentos avançados com as células-tronco.

Do público para o privado
Na verdade, segundo os especialistas, o exemplo dos hospitais públicos, há mais tempo debruçados nos labirintos da pesquisa médica, inspiraram o setor privado de saúde a fazer o mesmo, O Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, autarquia estadual vinculada à Secretaria de Estado da Saúde do Estado de São Paulo, está de olho em ações de pesquisa há mais de três décadas.
Os Laboratórios de Investigação Médica L do HC existem desde os anos 70 e foram criados depois de uma reforma universitária que proibiu a duplicação de departamentos com os mesmos objetivos, em uma mesma cidade. Para que a pesquisa básica fosse mantida, houve um convênio entre o HC e a Faculdade de Medicina da IJSR Assim, os LIMs passaram a ocupar a área física da universidade e a receber materiais e re cursos humanos do hospital.
Hoje, são mais de 80 unidades laboratoriais que desenvolvem pesquisa científica e servem de campo de ensino e treinamento para estudantes de nível superior e profissionais de saúde. Só para se ter uma idéia do universo de pesquisa do HC, os LIMs encampam linhas de estudo que vão desde a epidemiologia de doenças transmissíveis e anatomia, passando por biologia molecular e patologia pulmonar.
Em julho, o governo paulista criou 58 cargos de pesquisador para os LIMs do HC.
E não era para menos: os labora tórios possuem cerca de 120 grupos de pesquisa cadastrados no diretório do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A produção científica desenvolvida representa 7 da publicação brasileira e 3,3°/o da publicação latino-americana, nas áreas de saúde e ciências biomédicas, segundo dados do Ministério da Ciência e Tecnologia.
De acordo com informações do HC, seus pesquisadores atuam em projetos de alcance nacional e internacional, liderando grupos que geram conhecimento, transportados para a prática clínica. In vestigam também doenças como Aids, hepatite C, Alzheimer, esquizofrenia, asma, câncer de mama e de colo de útero
e há destaque ainda para estudos da dinâmica e controle vacinal de epidemias e o impacto da poluição ambiental na saúde. Tratamentos de alta complexidade, que incluem novas técnicas cirúrgicas, transplantes e terapias celulares, são outros alvos de pesquisa dos LIMs.

Estudos do coração
O Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (lnCor-HCFMUSP] também não fica de fora quando o assunto é pesquisa científica e tecnológica. O hospital conta com 15 centros, entre laboratórios e grupos de pesquisa, que atuam no diagnóstico e em estudos prospectivos de novas técnicas e tecnologias para o tratamento e prevenção das doenças do coração.
De acordo com o instituto, diversas técnicas foram introduzidas pelo InCor na América Latina, como a revascularização miocárdio a e a troca de eletrodos de marcapasso, ambas com a utilização de laser, além da técnica de ablação epicárdica para a correção de arritmias ventriculares, desenvolvida por especialistas do InCor e hoje utilizada em todo o mundo.
A instituição também é uma referencia latino-americana em cirurgia infantil e cardíaca. Realizou o primeiro transplante duplo de coração rim bem-sucedidos da América Latina, em conjunto com a clínica de urologia do HC. Nas pesquisas com transplante de célula tronco para o tratamento da insuficiência cardíaca, o InCor também marcou presença com dois estudos na aplicação em humanos: o transplante autólogo de células- tronco aplicadas diretamente na corrente sangüínea ou nas artérias coronárias, e o transplante associado 'a cirurgia de revascularização.
Em 2003, o InCor comemorou dez anos de pioneirismo na área de órgãos artificiais, quando apresentou o primeiro ventrículo artificial da América Latina. Ainda nesta área, abre uma nova frente de estudos sobre a criação de tecido cardíaco em laboratório para desenvolver a tecnologia da cultura de tecidos para o transplante cardíaco.
Hoje, os pesquisadores do InCor trabalham ainda nas área de aterosclerose, arritmia, doença congênita, dislipidemia, hipertensão arterial, insuficiência cardíaca e coronariana, miocardiopatia e valvopatia. Muitas dessas pesquisas são realizadas com parceiros nacionais e internacionais, como as empresas Aventis Pharma, Ei Lilly, Novartis e Procter&Gamble.
O InCor pilota também linhas de estu do em laboratórios na área de imunologia, febre reumática, doença de chagas, genética e biologia molecular. Em biologia, por exemplo, estão em andamento análises sobre os m genéticos da hiper tensão e sobre o implante celular para a recuperação do músculo cardíaco doente. E os avanços científicos não param por aí.
No setor de diagnóstico, o InCor conseguiu se tornar um centro de referência no desenvolvimento de softwares e métodos aplicativos em cardiologia, de ressonãncia nuclear magnética, tomografia por emissão de pósitron, cineangiografia e ultrasom intravascular. Com tudo isso, até 2002, contava com 12 patentes sobre desenvolvimentos inovadores e de interesse comercial internacional.
Para se manter no pico das ações de pesquisa, firmou outras parcerias com empresas da área de equipamentos médicos. Desde 1989, por exemplo, mantém um convênio de desenvolvimento científico e tecnológico com a General Eletric, para a descoberta de novas aplicações de aparelhos de ressonância magnética, Nesse projeto, trabalha ao lado de outros onze centros de excelência mundiais, como o americano Johns Hopkins e o inglês USD Hospital.
Com a Toshiba, firmou ainda um convênio para estudar tecnologias de última geração na aquisição de imagens portomo grafia computadorizada. A Philips, Dráger e Siemens também dividem convênios com o Instituto. E como toda pesquisa precisa ser amparada financeiramente, o InCor conta com o apoio, entre outros, da Fundação de Amparo ã Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Fundação de Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoa de Nível Superior (Capes) e do CNPq, entre outros.