Notícia

A Tribuna (Santos, SP)

De consumidor a 'prossumidor'

Publicado em 04 junho 2019

Os próximos anos trarão grandes mudanças na forma como consumimos e geramos energia

"Não tem como saber ainda, mas podemos pensar que daqui a 40 ou 50 anos vamos chamar o que está ocorrendo atualmente de revolução."

A frase acima é do coordenador do Laboratório de Sistemas Energéticos Alternativos, professor José Roberto Simões-Moreira, em encontro que reuniu, no final do ano passado, mais de 160 estudantes e pesquisadores de vários países na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP).

Para o professor Simões-Moreira, assim como houve a revolução industrial e, depois, a da eletrônica e a da informática, estamos agora "vivendo uma mudança muito grande na forma de geração e distribuição de energia elétrica em que o cliente, atualmente um ente passivo do sistema gerador, deve passara ser também um produtor".

E é aí que surge a figura do prossumidor, um neologismo que reúne as palavras produtor e consumidor. No Brasil, essa nova figura começou a se tornar realidade a partir de 2012, quando foi criada a microgeração de energia, uma realidade hoje compartilhada por quase 55 mil consumidores no Brasil -e que não para de crescer.

A maioria dessas pessoas possui sistemas fotovoltaicos em suas casas. Pelas regras do Governo Federal, sempre que essas famílias gerarem mais energia do que consomem, poderão utilizar o excedente para abater o consumo nos meses subsequentes. Passam, assim, de consumidores para produtores de energia.

CONDOMÍNIOS

O modelo pode beneficiar até mesmo aquelas cidades ou regiões que, por características geográficas ou físicas, não se apresentam muito amigáveis às energias alternativas, como é o caso de Santos, por exemplo.

"Mesmo quem mora em cidades com poucas casas e muitos edifícios, o que dificulta a instalação dos painéis solares, pode ser um prossumidor. Bastará aderir a um condomínio solar", explica Sergio Simões, consultor em energia eólica.

Funciona assim: o interessado adquire uma cota de painéis solares, instalados até mesmo em outra cidade, abatendo da conta de energia do seu apartamento o equivalente gerado na sua parcela do condomínio solar.

Por enquanto, o condomínio tem que estar na mesma área da distribuidora. Mas isso pode mudar. "Estados do Norte e do Nordeste têm grande potencial solar e podem produzir e vender energia para clientes no Sul-Sudeste", diz Simões, lembrando que o Governo Federal pretende rever as regras da microgeração até 2020.

Além de uma nova legislação que possibilite ampliar a adesão dos consumidores, a queda nos custos de investimento em energias renováveis é outro enorme aliado na expansão da microgeração. Segundo o professor da Universidade de Paderborn, na Alemanha, Stefan Krauter, o custo da produção de energia solar caiu de US$ 2 (R$ 7,78) por quilowatt-hora, no fim dos anos 1980, para US$ 0,02 (R$ 0,08) hoje. "Com esse valor, dá para competir com as termoelétricas", salientou ele à Agência Fapesp.