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Jornal da USP online

De Cali para o Brasil, aclamado na Europa

Publicado em 09 novembro 2015

Por Breno Berlingeri e Rita Stella

Quando iniciou seus estudos em Cali, na Colômbia, ele não imaginou que seu sonho de se tornar geneticista na França daria lugar à realidade de neurocientista brasileiro aclamado na Europa. Norberto Garcia Cairasco recebeu em 2014, da Prefeitura da cidade de Salamanca, na Espanha, homenagem pelo mérito de criar e fortalecer o intercâmbio científico e as pesquisas conjuntas com a universidade local, uma das dez mais antigas universidades do mundo. Foi uma honra ao colombiano naturalizado brasileiro e representa, como afirmam seus pares, reconhecimento científico que seus estudos em epilepsia experimental têm legado a essa área da ciência.

Contudo, todo o trabalho do mestre e do pesquisador dedicado é regado com um tempero não tão raro assim, a sutileza e a inefabilidade das artes, características que Garcia Cairasco traz e que garantem sua “múltipla vivência”. Ele afirma trazê-la à rotina do laboratório e impregnar seus alunos de um ambiente mais rico e criativo.

Além de desenhar, o professor cultua a dança, o canto e a leitura. Essa visão artística, aplicada às imagens de neurônios e de modelos de pesquisa, já rendeu à sua equipe 16 capas de revistas científicas internacionais. Hoje coordena o Grupo de Estudos Reflexões em Neurociência Contemporânea, do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP de Ribeirão Preto e é membro, por indicação da Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento, da Comissão Organizadora da Semana Nacional do Cérebro (Brain Awareness Week) no Brasil.

Fisiologia – Nascido em Cali, na Colômbia, formou-se biólogo em 1976 pela Universidad Del Valle, em sua cidade natal. Sonhava estudar genética na França, praticou francês até a fluência durante toda a graduação, quando se candidatou e ganhou uma bolsa da Embaixada francesa. Tudo parecia perfeito para o jovem biólogo, mas o “acaso”, como ele mesmo diz, tinha outros planos e lhe confiscou a bolsa. Deprimido, viu apenas o caminho de volta a Cali e passou a procurar emprego. Prestou concurso e entrou para a carreira docente de Biologia na Universidad Industrial de Santander, cargo que ocupou até 1980.

Em 1979 prestou concurso para o cargo de professor no Departamento de Ciências Fisiológicas da Faculdade de Medicina na mesma universidade. Assim, apesar de gostar de genética, o destino acabou por iniciá-lo na fisiologia. E, como precisasse de formação na área, estava carimbado seu passaporte para o Brasil. Aportou direto no Departamento de Fisiologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, com bolsa da Unesco.

De 1980 a 1984, fez mestrado e doutorado na quente cidade onde ficava a “USP caipira”, como era chamado na época o campus de Ribeirão Preto. E Garcia Cairasco garante que se sentiu tão bem vivendo essa nova experiência que “era como se tivesse nascido” em Ribeirão. O clima quente era parecido com o de sua cidade natal e ele jogava futebol. Pronto: estava mesmo em casa. Ao futebol, o neorribeirão-pretano agregou seu gosto pela dança e passou a ensinar danças caribenhas na comunidade. Tornou- -se ainda mais popular.

Tão popular e em casa que encontrou na pós-graduação da FMRP sua esposa, a psicóloga/psicofarmacóloga Cássia Maria Liserre Leone, com quem é casado até hoje. Não só Garcia Cairasco se sentia bem no Brasil, mas sua esposa também se aclimatou perfeitamente à Colômbia, onde morou logo após o término da pós-graduação no Brasil. O professor precisou reassumir seu cargo na universidade onde trabalhava, na Colômbia, em 1984.

Dois anos depois, em 1986, Garcia Cairasco foi convidado para assumir um cargo de docente no Departamento de Fisiologia da FMRP, iniciando sua carreira na USP, onde até hoje dirige o Laboratório de Neurofisiologia e Neuroetologia Experimental.

De 1988 a 1990, ele e sua esposa partem novamente para outros destinos, desta vez os Estados Unidos, Carolina do Norte, onde realizou seu pµV doutorado na Neurologia do Duke University Medical Center, estágio que o iniciou em biologia molecular e permitiu à mente criativa do cientista incrementar o que havia iniciado na pµVgraduação.

O foco de suas pesquisas sempre foi o estudo das epilepsias, entre elas as audiogênicas. Animais de laboratório, após estímulos sonoros, apresentam comportamentos que, segundo o professor, mimetizam crises de origem genética em pacientes com epilepsia.

Como as epilepsias são complexas e de origem multifatorial, sua equipe (alunos, técnicos, pós-docs) e seus colaboradores, no Brasil, Estados Unidos, Espanha e Colômbia, observam comportamento, eletrofisiologia, “redes”, células e moléculas cerebrais. Ainda, usando “simulações computacionais” ou modelos in silico, ativam, por exemplo, com eletrodos virtuais, neurônios reais capturados no microscópio.

Conquistas – Como resultado de sua visão genética, o professor e sua equipe desenvolveram a cepa audiogênica denominada Wistar Audiogenic Rat (WAR), hoje perto de 50 gerações de seleção. “Estudamos nos WAR as chamadas comorbidades”, já que esses animais também são mais estressados, hipertensos e apresentam comportamentos compulsivos. “Também tentamos confirmar neles alterações como as encontradas na depressão e na doença de Alzheimer”, diz Garcia Cairasco.

São quase 25 anos selecionando os WAR para produzir conhecimento em dezenas de teses e dissertações. Publicaram, com a cepa, quase 50 artigos em revistas internacionais, e seus ex-alunos, hoje professores e pesquisadores, continuam seus trabalhos em várias universidades do Brasil. O impacto de seus estudos lhe rendeu convite para participar como membro sênior (2013-2017) da Neurobiology Commission da International League Against Epilepsy.

Para ele, a criação da cepa WAR é uma das grandes conquistas de sua equipe. “Se tudo der certo, no final de 2015 exportaremos os WAR para os Estados Unidos.” A Assessoria Jurídica da USP já autorizou o seu envio, para disponibilização internacional, como “doação de bem científico”, ao Rat Resource and Research Center (RRRC).

Homenagem – A homenagem que o professor Garcia Cairasco recebeu do Ayuntamiento de Salamanca, na Espanha, em setembro de 2014, coincidiu com sua apresentação das “Contribuições dos WAR às neurociências e às epilepsias”, no evento de que foi coorganizador: “Modelos Genéticos de Epilepsia”, que reuniu cientistas de todo o mundo.

A história de Garcia Cairasco com a Universidade de Salamanca (USal) começou em 2001, quando proferiu palestra num simpósio internacional. Os laços se estreitaram após convites para dar aulas na pós-graduação no Instituto de Neurociências da USal. Em 2005, desenvolveram protocolo de pesquisa conjunta e, em 2007, o pesquisador incluiu a USal em projeto temático da Fapesp. Após dois projetos USP-USal, os dois grupos trabalham na publicação dos transcriptomas da cepa WAR e da cepa de hamsters audiogênicos (GASH-Sal).

O título de Huésped Distinguido outorgado ao professor Garcia Cairasco é um reconhecimento a essas múltiplas interações, seu impacto para a comunidade acadêmica internacional e a de Salamanca, uma cidade culta e universal por excelência, próxima de celebrar seus 800 anos.

Os dois grupos continuarão colaborando através do USP--USal e de novo projeto temático a ser submetido à Fapesp em 2015. Atualmente Garcia Cairasco é professor titular e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Fisiologia da FMRP.